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20/02/2009

Muito dinheiro e muitos problemas

Der Spiegel
Mark Scott
Os proprietários americanos do Liverpool FC, diante de uma dívida imensa, estão querendo vendê-lo. É uma história familiar no caro mundo do futebol europeu.

Os bilionários americanos George Gillett e Tom Hicks estavam na vanguarda do investimento esportivo quando desembolsaram US$ 310 milhões em 2007 para compra do Liverpool FC, um dos maiores e mais ricos clubes de futebol da Inglaterra. O dinheiro era fácil, então assumiram uma dívida de US$ 500 milhões para construção de um novo estádio e cobertura dos custos operacionais da equipe. O retorno parecia promissor.

Então veio o arrocho global do crédito e as contas começaram a não bater. O estádio foi adiado e os americanos deram um jeito de obter uma prorrogação de seis meses para seu empréstimo. Mas os US$ 500 milhões vencerão em julho de 2009, e um refinanciamento no clima atual parece improvável. Em vez disso, Gillett e Hicks esperam vender o clube por US$ 700 milhões -ainda assim um bom retorno para o investimento- para compradores do Oriente Médio.

É o estado atual do caro mundo do futebol profissional. Apesar da receita no ano ter chegado a US$ 270 milhões, as dificuldades financeiras do Liverpool estão se tornando uma história comum nos clubes de futebol por toda a Europa, especialmente no campeonato nacional mais lucrativo do mundo, o English Premier League (EPL, a primeira divisão inglesa). A alta dos salários dos jogadores, a incerteza em relação aos futuros contratos de patrocínio e a deterioração da economia mundial deixaram muitos investidores com um pé atrás em relação a investir no esporte mais popular do mundo.

Para alguns, a pressão econômica se tornou grande demais para suportar. Alexandre Gaydamak, o dono franco-russo do Portsmouth FC -atualmente brigando para fugir do rebaixamento na EPL- quer vendê-lo por pelo menos US$ 85 milhões. Mike Ashley, o dono do igualmente problemático Newcastle United, tentou encontrar um comprador, mas acabou retirando o clube do mercado quando nenhum apareceu. Correm rumores de que outros, incluindo o empresário islandês Bjorgolfur Gudmundsson, dono do londrino West Ham United e o maior acionista do banco islandês nacionalizado, o Landsbanki, poderão fazer o mesmo.

Para citar uma frase famosa: "Para fazer uma pequena fortuna, basta começar com uma grande e então comprar um clube de futebol".

Os vencedores levam tudo
Isso não quer dizer que o futebol não seja mais um negócio muito lucrativo. A consultoria Deloitte calcula a receita na temporada 2007-2008 dos 20 maiores clubes do mundo -todos localizados na Europa- como tendo totalizado US$ 4,9 bilhões, um aumento de 6% em relação ao ano anterior e três vezes o valor de uma década atrás. Segundo Dan Jones, um sócio do Sports Business Group da Deloitte, as receitas dos clubes são compostas atualmente, em média, de 41% de direitos de transmissão, 33% de acordos comerciais e 26% de renda dos jogos. "No topo do mercado, as coisas vão bem. Mas descendo um pouco a classificação dos campeonatos, os clubes estão sofrendo mais", ele diz.

Isso significa que clubes como o Real Madrid da Espanha e o Manchester United da Inglaterra, classificados em primeiro e segundo lugar, respectivamente, no ranking da Deloitte de marcas mais rentáveis do mundo, deverão suportar a crise econômica sem muitos problemas. Eles desfrutam de contratos de transmissão multibilionários que ajudam a proteger contra os altos e baixos econômicos, e seus patrocinadores são parceiros grandes e ricos como Nike, Adidas, BT Group e Gazprom, que dificilmente desistirão dos contratos.

Na verdade, os grandes clubes estão consolidando seu controle do mercado comercial, ao atraírem patrocinadores secundários. O Liverpool conseguiu um contrato multimilionário com a cervejaria dinamarquesa Carlsberg, enquanto o Arsenal, sexto lugar em Londres, expandiu seus acordos para incluir patrocinadores como a fabricante francesa de automóveis, Citroën, e a fabricante de relógios suíça, Ebel.

Retração dos patrocínios
Mas clubes menores, com menos diversificação econômica, incluindo alguns listados entre os 20 maiores do mundo, correm mais risco. Eles poderiam sofrer com a queda da receita de patrocínio da camisa e placas de estádios à medida que as empresas buscam reduzir custos. "Todo investimento está sendo analisado", diz Steve Bradley, diretor de marketing esportivo e patrocínio da consultoria de mídia Hill & Knowlton. "O que é apropriado agora difere muito do que era há 12 meses."

Jones, da Deloitte, cita o patrocínio na camisa como indicador-chave. Após a seguradora americana AIG em dificuldades ter dito em 21 de janeiro que não renovaria seu contrato de US$ 80,6 milhões com o Manchester United após a temporada 2009-2010, a maioria dos analistas esperava que muitas empresas de peso, particularmente dos setores de varejo e telecomunicações, ofereceriam altas somas para ocupar o espaço da AIG. Mas após a falência da empresa de turismo XL Holidays, a patrocinadora do clube inglês West Ham, em setembro de 2008, o clube levou mais de três meses para encontrar uma substituta. Outro clube inglês, o West Bromwich Albion, atualmente nos últimos lugares da tabela da ELP, está sem patrocínio desde a temporada passada.

Salários recordes para os jogadores de ponta
Esta pressão sobre a receita ocorre em um momento em que os clubes estão gastando valores recordes para atrair os melhores jogadores do mundo. Segundo a Deloitte, as equipes da EPL gastaram US$ 227 milhões durante a janela de um mês para transferência de jogadores em janeiro de 2009 -o período de um mês na metade do campeonato nacional que permite que os clubes tragam novos talentos. Isto representa US$ 14 milhões a mais do que o recorde do ano anterior e impressionantes US$ 142 milhões a mais do que em 2007.

"O nível dos gastos com transferências ultrapassa em muito os gastos pelos clubes de outros campeonatos europeus", disse Paul Rawnsley, diretor do Sports Business Group da Deloitte.

Grande parte da gastança se deve ao Abu Dhabi United Group, o novo dono rico do Manchester City, que teria pago US$ 284 milhões pelo clube do norte da Inglaterra. O antigo proprietário do City, o ex-primeiro-ministro tailandês, Thaksin Shinawatra, foi forçado a vender após as autoridades tailandesas terem congelado mais de US$ 2 bilhões de seus ativos por acusações de corrupção. O Abu Dhabi United já desembolsou um recorde de US$ 46,3 milhões por um contrato de quatro anos com o atacante brasileiro Robinho. Os proprietários planejam gastar somas semelhantes com outros astros mundiais no futuro próximo.

Mas para cada bilionário disposto a socorrer um clube como o Manchester City, há várias equipes, incluindo muitas dos principais campeonatos nacionais europeus, que podem ter dificuldade para bancar seus custos financeiros cada vez mais altos em meio à deterioração do mercado. Jones, da Deloitte, disse: "Por ora, há uma fuga para a qualidade, onde as maiores marcas vão apresentar um desempenho muito maior do que os nomes menos conhecidos".

Scott é um repórter da sucursal de Londres da "BusinessWeek".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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