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22/03/2009

O comércio internacional de boxeadores cubanos

Der Spiegel
Gerhard Pfeil
Os boxeadores de Cuba são considerados os melhores do mundo. Eles são tecnicamente perfeitos, rápidos e bem-treinados. Mas para lutar no cenário mundial precisam primeiro fugir de sua terra natal. E os empresários do boxe estão ansiosos para ajudá-los.

É uma noite chuvosa na costa do mar do Norte na Alemanha, quase meia-noite, quando um cubano de 25 anos chamado Erislandy Lara finalmente chega ao fim de sua longa viagem. Usando shorts azuis de luta, ele sobe em um ringue bem iluminado no ginásio de esportes Kugelbake, na pequena cidade de Cuxhaven, norte da Alemanha. O fotógrafo de um jornal local tira algumas fotos. Lara apoia as costas nas cordas e olha ao redor para sua nova vida.

Foi uma longa viagem de Havana a Cuxhaven. Primeiro Lara fugiu para o México, atravessando o canal de Iucatã em uma lancha, depois viajou por terra de Cancún até a Cidade do México com documentos falsos. No caminho ele foi chantageado e uma pessoa tentou matá-lo.

Os assentos aqui na arena Kugelbake estão apenas parcialmente ocupados, e os poucos fãs cercam as barracas de cachorro-quente. Lara, campeão do mundo amador em 2005 na categoria peso leve, parece ter chegado ao estádio errado, ao ringue errado.

Seu adversário é um lituano pálido, um pouco rechonchudo na cintura. É uma luta provinciana esta noite, não há fortunas em jogo e ninguém vai alcançar a fama instantânea. Mas para Lara é um começo, um passo no seu caminho para um título em um campeonato mundial profissional. Ele olha rapidamente para o adversário e bate os punhos. Cuxhaven será apenas uma escala em seu trajeto.

Do outro lado do oceano
Os cubanos são considerados os boxeadores mais bem-treinados do mundo - elegantes, rápidos e tecnicamente perfeitos. Cuba teve 32 vitórias olímpicas. Mas sob o socialismo de Fidel Castro as oportunidades para os lutadores são limitadas, pois eles não podem participar de competições profissionais. Todo ano os melhores boxeadores do país desaparecem através do oceano, em busca do mundo capitalista. Os cubanos são famosos pelo boxe assim como os brasileiros são pelo futebol - e o comércio de boxeadores cubanos está florescente. O negócio se baseia nas esperanças dos jovens cubanos, e muitos lucram com ele, desde os agentes de fuga em Cuba até os contrabandistas de pessoas no México e os empresários de boxe na Europa e nos EUA.

Depois de uma chuva de golpes no primeiro round, Lara vence a luta com um nocaute técnico. Seu empresário irrompe no ringue e abraça o lutador. Ahmet Öner, 37, é o diretor de uma empresa promocional chamada Arena e já foi boxeador profissional. A maioria de seus concorrentes alemães depende de boxeadores de baixo custo do Leste Europeu, mas Öner conta com os cubanos. Ele admira seu estilo e coragem: "Quando estão no ringue, parecem robôs e não têm medo de lutar contra sujeitos realmente grandes".

Nascido na Turquia mas criado em Duisburg, na Alemanha, Öner tem as melhores conexões cubanas no negócio do boxe. Entre seus contatos estão advogados, exilados cubanos na Alemanha, contatos em Havana e intermediários em Miami.

Quando os campeões olímpicos Odlanier Solís, 28, Yuriorkis Gamboa, 27, e Yan Barthelemy, 28, desertaram depois de uma competição com a equipe nacional da Venezuela no final de 2006 e fugiram para a Colômbia, Öner foi o primeiro empresário a aparecer e apresentou ao trio sua oferta de emprego. Hoje são nove cubanos lutando para a Arena. O mais velho é Juan Carlos Gómez, 35, que foi derrotado por Vitali Klitschko neste sábado em Stuttgart.

Öner diz que não convence nenhum boxeador a fugir e nunca esteve em Cuba. Mas ele tem bons informantes lá, e quando um dos principais boxeadores quer sair do país Ahmet Öner, em Hamburgo, é o primeiro a saber.

Erislandy Lara fez sua primeira tentativa de fuga em julho de 2007. Juntamente com o bicampeão olímpico Guillermo Rigondeaux, 28, ele desertou em uma saída para uma discoteca durante os Jogos Panamericanos no Rio de Janeiro. Öner havia sido avisado e foi ao local imediatamente. Mas então os dois refugiados desistiram - a pressão das autoridades foi grande demais e o próprio Castro interveio.

"Vida sem sentido"
Lara e Rigondeaux voltaram a Cuba, onde foram proibidos de boxear. Vivendo em uma pobreza isolada com suas famílias, venderam as medalhas de ouro para comprar comida. "Era uma vida sem sentido", diz Lara.

Em novembro de 2007 ele avisou um dos intermediários de Öner em Havana de que queria fazer uma segunda tentativa de fuga e que Rigondeaux também estava preparado para ir. Öner concordou em cobrir os custos e fizeram um acordo.

Existem alguns bares em Havana onde se pode fazer contato com agentes de fuga. Lara e Rigondeaux desapareceram de repente, e quando a polícia começou a procurá-los estavam hospedados com agricultores nas montanhas. Em uma noite clara, homens os levaram a uma praia onde uma lancha estava esperando. No último momento Rigondeaux mudou de idéia. Mas Lara entrou no barco e partiu para o México com mais 20 refugiados.

São 200 quilômetros da extremidade ocidental de Cuba até Cancún, no México. Centenas de cubanos são transportados por essa rota todos os anos por contrabandistas mexicanos. A viagem custa entre US$ 10 mil e US$ 15 mil. Há muitos atletas entre os que fazem a jornada, especialmente jogadores de beisebol que esperam ser contratados pelas ligas profissionais nos EUA. Quando se trata de atletas, os contrabandistas aumentam os preços consideravelmente.

Lara tinha se registrado como passageiro normal, mas durante a viagem foi reconhecido como um famoso boxeador. E em vez dos US$ 15 mil combinados, os contrabandistas de repente pediram US$ 200 mil - "ou o jogaremos no mar".

Os contrabandistas são baseados no norte de Cancún, de onde partem balsas para Islã Mujeres, habitada por pescadores, enquanto os turistas se hospedam em hotéis caros nas praias do sul. Um dos chefes mais influentes é um homem baixo, de braços musculosos, chamado El Enano, "o Anão". Ele gosta de levar sua mulher e três filhos nas viagens de negócios, mas a aparência pode ser enganosa.

Alguns dias depois, um representante da Alemanha chegou a Cancún para negociar. Os homens aceitaram um pagamento de US$ 40 mil por Lara e o Anão sugeriu um antigo armazém do porto como local para a troca. O negociador de Öner recusou.

"Está com medo?", perguntou o Anão.

"Não. Mas também sou profissional", respondeu o negociador da Alemanha.

Abrindo caminho
Esse negociador hoje está em um restaurante de Berlim tomando café, vestindo um terno preto. Ele é um advogado e um fã de boxe, fala espanhol e conhece os hábitos da América Latina. É um homem tranquilo, de olhos atentos, e não quer que seu nome seja publicado. Öner diz que é seu "homem mais importante".

O advogado já lidou muitas vezes com contrabandistas mexicanos. "A certa altura você pega o jeito certo de lidar com eles", ele diz. Ele sugeriu o saguão de um Hotel Hyatt em Cancún como local de troca. Ele é bem movimentado durante o dia e um bom lugar para encontrar pessoas que podem não ser necessariamente confiáveis.

O Anão chegou acompanhado de dois guarda-costas. O dinheiro foi entregue em uma maleta e Lara foi libertado. Então a Anão fez uma oferta: havia um voo direto de Cancún para Düsseldorf que estava "sob controle", e ele também poderia produzir os documentos necessários para Lara. O negociador de Öner concordou. Mas no dia combinado para a partida o presidente mexicano visitou Cancún e o aeroporto ficou sob forte segurança. Os planos foram modificados e Lara foi levado à Cidade do México. Lá ele foi parado por um controle policial, que ameaçou mandá-lo de volta para Cuba. O advogado de Öner cuidou disso também: uma gorjeta de US$ 1 mil para abrir o caminho.

Especulação com seres humanos
Ahmet Öner está em sua academia de treinamento em Gross Borstel, um bairro no norte de Hamburgo, e assiste ao treino de Juan Carlos Gómez para a luta no fim de semana contra Vitali Klitschko. Öner é conhecido por seu temperamento. Em uma das lutas de seus concorrentes em Hamburgo, ele começou a brigar com o pessoal da segurança que, na opinião dele, o estava provocando. Seu filho estuda na mesma escola que o filho de Vitali Klitschko e Öner diz que nas últimas semanas ele procurou o campeão mundial só para lhe perguntar se suas mãos começam a suar quando ele pensa na luta contra Gómez. As pessoas no corner de Klitschko não acham Öner exatamente simpático.

Em um ambiente dúbio pela própria natureza, Öner é considerado especialmente polêmico por sua conduta empresarial. Em Cuba ele é visto como uma espécie de inimigo do Estado e acusado de tráfico humano. Quando Öner contratou Lara, o próprio Fidel Castro se queixou da "máfia alemã" que está virando a cabeça dos orgulhosos filhos de Cuba.

"Oh, Fidel", diz Öner, ajeitando seu casaco esportivo. "Castro deveria pensar em por que esses sujeitos vão embora. Eles apenas querem uma vida melhor. É por isso que me procuram."

É um negócio especulativo de seres humanos, e quando se leva um boxeador até o topo há muito dinheiro a ganhar. Mas somente os lutadores assumem o risco. Se forem apanhados escapando de Cuba estão por conta própria. Os empresários, por outro lado, apenas esperam que o próximo candidato apareça.

Barco contrabandista
Quando corre a notícia de que algum boxeador conhecido quer deixar Cuba, começa uma grotesca concorrência. Empresários do mundo todo mandam intermediários para Havana. A maioria deles leva contratos preliminares, que os candidatos assinam antes de colocar os pés em um barco contrabandista.

O agente especial de Öner para essas ocasiões é uma mulher com um vestido decotado impressionante e voz grave. Ela nasceu em Cuba e vive no sul da Alemanha, e também não quer que seu nome seja publicado. Sua última missão foi alguns meses atrás, quando Öner soube que o campeão olímpico Rigondeaux queria afinal escapar, apesar de ter recuado quando Lara fugiu. Haveria três outros amigos com ele também, todos bons boxeadores.

A representante de Öner arranjou para encontrá-los em um lugar no campo em Cuba. Dirigindo até o local de encontro, ela ficou um pouco preocupada quando três homens em um carro preto começaram a seguir o seu carro. Eles a pararam em uma curva da estrada - eram policiais, mas afinal só queriam paquerar. Ela continuou e conseguiu as assinaturas dos lutadores nos contratos preliminares, e no dia seguinte já estava em um voo de volta à Europa.

Os cubanos que lutam para a Arena não gostam de falar sobre suas fugas, dizendo que não querem causar mais dificuldades para suas famílias. Para a maioria deles o Ocidente é em princípio um choque, com sua riqueza e suas infinitas possibilidades. "Eles parecem crianças em uma loja de brinquedos gigantesca", diz Öner.

Gómez, que desertou em 1995 durante o torneio Chemie Pokal em Halle, Alemanha, esbanjou o dinheiro que ganhou como campeão mundial. Ele teria sete filhos com seis mulheres e já foi procurado por uso de cocaína. Lara, que hoje vive em Miami, como a maioria dos cubanos que lutam para a Arena, teve problemas com o álcool, e o peso-pesado Odlanier Solís começou a comer demais e engordou 20 quilos.

Até agora, Yuriorkis Gamboa foi o mais bem-sucedido de todos. Ele é famoso nos EUA como o rei dos nocautes, e a HBO transmite suas lutas. Recentemente ele lutou em um cassino perto de Las Vegas, aonde chegou vestido como um "rapper", cheio de colares e anéis vistosos. Gamboa levou um séquito de 50 pessoas e alugou um carro Bentley. Antes da luta sua mulher cantou um rap latino no ringue. "Você precisa manter os caras ocupados, o melhor é mantê-los sob pressão com treinamento constante para que não comecem a ter idéias idiotas", diz Öner.

Fidel Castro tem medo
O negócio com os boxeadores cubanos é difícil, coisas inesperadas acontecem o tempo todo. Cinco semanas atrás o negociador de Öner, o advogado, recebeu um telefonema de Miami. Rigondeaux e os três outros boxeadores que tinham assinado contratos preliminares já estavam na Flórida. Juntamente com Rigondeaux estavam Yudel Johnson, 27, que ganhou a medalha de prata em Atenas em 2004, Yordanis Despaigne, 29, vencedor de medalhas de bronze nos campeonatos mundiais de boxe amador de 2001 e 2003, e o promissor lutador Yunier Dorticós, 23 anos. Eles foram levados primeiro para Cancún e depois para a fronteira americana. Lá, saltaram a cerca e se entregaram a uma patrulha americana.

Então se soube que a fuga tinha sido organizada por lutadores de Miami, que ofereceram seus contratos a diversos empresários. Agora Öner tinha de dividir os quatro boxeadores com o promotor americano Don King.

Os melhores boxeadores de toda uma geração já chegaram ao Ocidente. Lara desde então teve quatro lutas profissionais e ganhou todas. Especialistas acham que logo ele poderá se tornar um campeão mundial. Mas o boxe é um esporte nacional em Cuba, e uma nova geração de lutadores já está em formação.

Este ano não houve boxeadores de Cuba no Chemie Pokal em Halle, um dos maiores torneios amadores. Cuba também não participará do campeonato amador mundial na Itália. Fidel Castro tem medo, Öner acredita, que mais filhos orgulhosos de Cuba deem as costas ao seu país. "Agora estão tentando escondê-los", ele diz, rindo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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