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18/04/2009

Ex-preso de Guantánamo, chinês uigur sobrevive fazendo pizza na Albânia

Der Spiegel
Um ex-preso de Guantánamo construiu uma nova vida para si mesmo, trabalhando em uma lanchonete italiana em solo albanês, juntamente com quatro outros muçulmanos uigures. Ele se tornou uma espécie de porta-voz e espera abrir um negócio próprio

O mais famoso chef pizzaiolo em Tirana está saindo de suas orações de sexta-feira. É quase 13h e cerca de 1.000 fiéis passam pelos portões da velha mesquita na Rua Kavaya, no centro da capital albanesa. No meio da multidão, um homem magro com barba aparada e olhos amendoados espia por trás dos óculos. Seu nome é Abu Bakker Qassim e vem de Yining, em Xinjiang, no noroeste da China.

Abu Bakker, juntamente com centenas de outros suspeitos de terrorismo de várias partes do mundo, ficou preso por quatro anos na base naval americana em Guantánamo. Nos últimos três anos ele está vivendo na Albânia, o único país que o aceitou após sua soltura em 2006. Aqui, este estofador devoto encontrou uma nova atividade. Três vezes por semana, o muçulmano uigur prepara massa de pizza para a comunidade islâmica de Tirana no McGusto Halall, uma lanchonete na Rua Hoxha Tahsim.

Todas as carnes e frios usadas na pizza tamanho família -que custa 550 leks albaneses, cerca de US$ 5,70- são de origem bovina. Mas o ingrediente chave na massa, diz Abu Bakker orgulhosamente, é a pitada certa de fermento. O fermento é o que torna a farinha, azeite de oliva e sal em uma massa de pizza perfeita. E para Abu Bakker, que trabalhou em uma barraca de comida na China desde os 7 anos, aprender os segredos da cozinha italiana foi fácil.

Abu Bakker conta a história de sua vida, que poderia facilmente virar filme: ele lembra da repressão do governo comunista chinês aos uigures devotos, uma minoria islâmica no oeste da China; ele recorda de ter fugido de casa e ter passado vários anos sob custódia americana; e conta sobre sua nova vida na Albânia, dentre todos os lugares, o "primeiro país ateísta" do planeta.

Por que um homem como Abu Bakker atravessou a fronteira para o Quirguistão em busca de dinheiro em 2000, quando sua esposa estava grávida de gêmeos? Por que se viu posteriormente encalhado, enquanto viajava por uma rota tortuosa rumo à Turquia, na região montanhosa afegã de Tora Bora, onde os líderes da Al Qaeda mantinham seus esconderijos remotos, onde soube que havia trabalho para uigures? Por que ele, juntamente com outros uigures, receberam treinamento com armas?

Abu Bakker sorri levemente quando ouve as perguntas. Ele não está contando sua história pela primeira vez e pode suportar o ceticismo. Ele sabe seu valor de mercado.

'Eu tenho orgulho de você'
Abu Bakker é o mais velho dos cinco uigures soltos até o momento e tem uma missão a cumprir. Ainda restam 17 uigures presos em Guantánamo, inocentes, como ele diz, mas sem um lugar para ir. Eles não podem voltar para a região de Xinjiang da China, onde são rotulados como "separatistas" e perseguidos, mas nenhum país se voluntariou a aceitá-los. E assim Abu Bakker, o pizzaiolo de Tirana, decidiu ser a voz de seus irmãos uigures impotentes.

Ele enviou uma carta aberta ao "Querido sr. Presidente" Barack Obama há mais de duas semanas. Na carta, ele, Abu Bakker de Xinjian, a "Terra onde Nasce o Sol", se dirige corajosamente ao homem mais poderoso do planeta. Ele não escreveu para acertar as contas com o país que o manteve preso por tantos anos, apesar de se declarar um homem inocente. Em vez disso, Abu Bakker pediu educadamente pela soltura de seus conterrâneos e expressou admiração por Barack Obama, porque, como ele escreveu, "você, como eu, sem levar em consideração o fim de sua longa jornada, conseguiu se tornar um herói. Eu estou ao seu lado. Eu tenho orgulho de você".

Soa como se o estofador simples de Xinjian tivesse criado asas enormes, um homem que chegou a Guantánamo há sete anos, com os pés acorrentados e sua boca tampada com fita adesiva, um peão sacrificado no tabuleiro de xadrez da luta global contra o terrorismo. E agora Abu Bakker, apoiado por seu eloquente advogado americano, não mais se contenta a apenas olhar enquanto ele e seus conterrâneos uigures são jogados de um lugar para outro.

Abu Bakker agora fala albanês bem o suficiente para conseguir ler os jornais de Tirana. Ele leu que o primeiro-ministro, Sali Berisha, justificou a aceitação dos uigures pela Albânia com o argumento (após o fato) de que seu país estava pagando uma dívida para com os Estados Unidos -pelo apoio de Washington à separação da província de etnia albanesa de Kosovo da Sérvia. E, "possivelmente", acrescenta Abu Bakker, pela rápida aceitação da Albânia na Otan.

Será que os uigures que chegaram a Tirana foram o preço pago pelo governo de Berisha pelo ingresso na aliança militar mais poderosa do mundo? "Não há conexão entre as duas coisas", diz rispidamente o primeiro-ministro albanês em seu gabinete, com as bandeiras de todos os países membros da Otan tremulando do lado de fora ao vento. "Nós agimos por motivos puramente humanitários."

O governo albanês ainda paga pelo apartamento de Abu Bakker, assim como pelo cartão de telefone, para que possa ouvir a voz de sua esposa em Yining e as de seus dois gêmeos, que agora têm nove anos e que ele nunca viu. Mas a assistência do governo terminará no final do ano e então Abu Bakker terá que se virar por conta própria.

Sobreviver na Albânia é apenas um pequeno desafio para um homem que já foi preso tanto por comunistas chineses quanto por soldados americanos, molestado pela polícia quirguiz e traído pelos líderes tribais paquistaneses. Ele pretende -"inshallah", diz Abu Bakker- abrir sua própria pizzaria em Tirana em breve.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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