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04/05/2009

A História de Sobibor

Der Spiegel
Por Stephane Alonso Em Sobibor
Há poucas coisas em Sobibor que lembram o antigo campo de concentração nazista em que 34 mil judeus holandeses morreram. Mas isso vai mudar, em parte graças à ajuda da Holanda.

Quem não conhece a história acreditaria estar numa típica aldeia polonesa, onde roupas lavadas tremulam ao vento, fazendeiros andam em tratores velhos e barulhentos lenhadores carregam troncos de árvores. Mas Stara Kolonia Sobibór não é um vilarejo típico, e nunca será.

Durante a 2ª Guerra Mundial ele abrigou o campo de extermínio alemão de Sobibor, onde 170 mil judeus, mais de 34 mil deles holandeses, foram assassinados sistematicamente. É um lugar de difícil acesso, no meio da floresta na região da fronteira ocidental polonesa, e fácil de esquecer. Mas isso está prestes a mudar.

Holanda, Polônia, Eslováquia e Israel concordaram recentemente em fazer uma grande "renovação" do lugar com o objetivo de abrir o campo para o mundo e tirá-lo da sombra do campo de concentração mais conhecido de Auschwitz-Birkenau, no sul da Polônia.

Revolta

"Temos que fazer direito pelas vítimas de Sobibor", disse a secretária de Estado Jet Bussemaker na semana passada durante uma visita de trabalho à Polônia. "O campo é desconhecido, mesmo na Holanda, uma vez que praticamente ninguém sobreviveu para contar a história".

Ao contrário de Auschwitz, não há nada para ver em Sobibor. Os alemães desmantelaram o campo em 1943 depois de uma revolta na qual 12 oficiais da SS foram mortos e centenas de judeus conseguiram escapar.

Cinquenta deles sobreviveram à guerra. Os alemães plantaram árvores no terreno descampado.

Conforme a delegação de Bussemaker atravessava a jovem floresta, Jetje Manheim, presidente da Fundação Sobibor, contava histórias do lugar. "O cardápio consistia de sopa de batatas e aveia crua", diz ela. "Quem não conseguisse complementar essa dieta não tinha muitas chances de sobreviver."

O punhado de casas que formam a Stara Kolonia Sobibór de hoje, adjacentes à floresta, são do período pós-guerra, exceto por um impressionante prédio verde com uma vista da plataforma de trens caindo aos pedaços que ligava o lugar ao mundo. Era a casa do comandante do campo. Hoje uma família polonesa vive lá.

Monte de cinzas

Depois da guerra, os poloneses não sabiam o que fazer com os campos de extermínio que os alemães haviam construído no país. Auschwitz logo se tornou um museu, mas campos menores como Sobibor foram abandonados. A Polônia estava em ruínas, havia outras prioridades.

E é claro, havia o comunismo, com sua própria versão da verdade histórica. "Os guardas dos campos de Sobibor eram ucranianos", diz Janusz Kloc, o starosta (líder do condado) local. "Mas não se podia dizer isso em voz alta. A Ucrânia fazia parte da União Soviética na época, era um país aliado."

Nos anos 70, um monumento austero foi construído, um "monte de cinzas" no lugar onde os corpos das câmaras de gás eram queimados em incineradores ao ar livre. Uma placa explica que "prisioneiros de guerra soviéticos, judeus, poloneses e ciganos" foram assassinados aqui. O fato de que o número de judeus era bem maior foi mantido em silêncio. O sofrimento dos poloneses não podia ser superado pelo sofrimento dos judeus.

"Isso de fato não podia acontecer", diz Bussemaker, apontando para o monte de cinzas onde ela acabara de colocar uma coroa de flores. "Em algum lugar por aqui estão todas as cinzas daqueles homens e nós estamos caminhando alegremente sobre elas". Este é um dos problemas que ela espera resolver com a reforma do campo.

"Estrada para o céu"

Muita coisa já mudou desde a queda do comunismo. Há novas placas - e estas declaram que as vítimas eram judeus. E em 2003, foi criado o "caminho da reflexão", onde os sobreviventes podem colocar pedras com os nomes de familiares assassinados. O caminho coincide mais ou menos com a rota das câmaras de gás, apelidada de "Himmelfahrtstrasse" (caminho para o céu) pelos detentos.

"O caminho da reflexão é único em nosso país", diz Marek Bem, diretor do museu regional de Wlodawa, cidade vizinha em cujo território Sobibor está localizado. "Na Polônia, nós frequentemente lembramos o coletivo, as vítimas são anônimas. Aqui há uma história por trás de cada nome."

Jetje Manheim, que teve parentes mortos ali, está feliz com a atenção dispensada ao campo, mas também está preocupada. A última coisa que ela quer é que Sobibor se transforme num Belzec, antigo campo de extermínio no sul do país, onde um monumento gigante financiado com dinheiro americano foi inaugurado em 2004. Ela chama o lugar de "holocausto da arquitetura".

"Belzec é opressivo", diz Manheim. "Não há espaço para os pensamentos ali. Sobibor é muito mais intimista". Mas ela vê espaço para melhorias: o pequeno museu do vilarejo não tem banheiros decentes nem aquecimento. E os textos estão em polonês. "Mas fora isso, Sobibor pode ficar como está".

Bem também espera que as boas intenções de vários governos não degenerem numa pompa arquitetônica. "Esta é a realidade", diz ele, estendendo o braço para apontar a floresta.

Tradução: Eloise De Vylder

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