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08/05/2009

Próxima geração dos Gandhi está de olho no poder

Der Spiegel
Rüdiger Falksohn e Padma Rao
Os irmãos Gandhi, herdeiros de Jawaharlal Nehru e de Indira Gandhi, são os astros das grandes eleições parlamentares da Índia, cuja quarta fase ocorreu na quinta-feira (7). O Partido do Congresso, que governa o país, quer preparar Rahul, filho de Sonia Gandhi, para tornar-se futuro primeiro-ministro

Esta é a última segunda-feira de abril, e Munni Devi Shukla, uma dona de casa indiana, espera que, com sorte, este dia traga alguns momentos especiais e emocionantes. Usando o seu melhor sari, ela deixa a sua aldeia, Bamburi, às 9h, acompanhada do filho mais velho e da avó da família, embora já tenha 70 anos. O sol quente faz com que a temperatura suba para escaldantes 45ºC. Caminhando ao longo das intermináveis estradas poeirentas do interior, os Shukla demoram quatro horas para chegar ao local do evento na pequena cidade de Deva.

Neste dia, cercas de bambu separam a vasta pastagem perto da caixa d'água da cidade em várias divisões, como se o lugar estivesse preparado para uma operação de confinamento de gado. Homens usando óculos escuros e portando walkie-talkies mantêm o povo afastado de uma área semicircular de segurança em frente à plataforma, que está enfeitada de laranja e verde, as cores do país e do governista Partido do Congresso.

Adnan Abidi/Reuters 
Rahul Gandhi participa de campanha eleitoral em Nova Déli, Índia


Faixas atadas a uma estrutura alta tremulam com a brisa agradável. A campanha está chegando ao fim neste distrito, que fica no Estado de Uttar Pradesh, no norte da Índia. Este deverá ser o mais quente dia de abril no Estado em 51 anos. Rahul Gandhi é aguardado.

"Nós viemos para cá com grandes esperanças", diz Munni Devi. "Ele é muito parecido com o pai, Rajiv, o nosso ex-primeiro-ministro. Um dia ele ocupará o lugar do pai, e nós o apoiamos. Queremos vê-lo com os nossos próprios olhos pelo menos uma vez na vida".

Na verdade, Rahul Gandhi não está disputando de fato o cargo de primeiro-ministro. No entanto, durante as eleições deste ano, que dura quatro semanas, o mais famoso membro do parlamento da Índia, que no passado foi frequentemente criticado devido à sua acentuada letargia política, tornou-se o mais intenso ativista do Partido do Congresso. Nenhum outro político indiano tem tantos discursos agendados ou está viajando tanto quanto Rahul Gandhi.

A eleição no seu distrito terminou, e os eleitores daqui de Deva irão às urnas dentro de três dias. Rahul veio à cidade para fazer campanha para o seu partido e para a mãe nascida na Itália, a líder partidária Sonia Gandhi, que está disputando uma vaga no parlamento em Rae Bareli, uma cidade próxima que é o reduto político da família. Rae Bareli também fica em Uttar Pradesh, o Estado mais populoso da Índia.

O mecanismo de funcionamento das eleições indianas é complicado. Durante o processo, 714 milhões de eleitores qualificados decidem qual será a composição da casa inferior do parlamento indiano, o Lok Sabha. A eleição é realizada em várias etapas, e os resultados só serão conhecidos em 16 de maio.

Cerca de 543 cadeiras no parlamento estão abertas à disputa. Os eleitores estão votando em 1.368.430 urnas eletrônicas em 828.804 locais de votação. Os cerca de 300 partidos engajados na disputa possuem um total de 4.617 candidatos registrados, incluindo muitos com ficha criminal, e até mesmo alguns suspeitos de serem assassinos. Em Uttar Pradesh, vários candidatos são tidos como pessoas de caráter duvidoso. O Partido do Congresso, do qual apenas cerca de um quarto dos candidatos tem histórico duvidoso, ainda é a agremiação de grande porte mais íntegra do Estado.

A maioria dos eleitores é mais nova do que Rahul Gandhi, que tem 38 anos, e 39% deles são analfabetos. A situação social no país provavelmente terá um papel importante na eleição. Cerca de dois terços dos um bilhão de habitantes da Índia vivem com o equivalente a menos de € 1,5 (US$ 2) diários, apesar de a Índia ser considerada um dos milagres econômicos do mundo e ainda estar esperando um crescimento de 5% neste ano, a despeito da recessão mundial.

Os pobres cansaram-se das promessas não cumpridas da capital, Nova Déli. Para eles só contam as propostas concretas e tangíveis, e não as questões internacionais do país, como a investigação dos ataques terroristas de Mumbai (antiga Bombaim) ou as relações da Índia com o seu arquiinimigo, o Paquistão.

As preocupações dessa gente têm um caráter mais local, tais como os planos para a construção de uma fábrica da vagões ferroviários em Rae Bareli, que deverá trazer novos empregos para a região. Apesar de Sonia Gandhi ter colocado a pedra fundamental, em 29 de janeiro, a construção está sob a responsabilidade da astuta ministra-chefe de Uttar Pradesh, Mayawati Kumari. Mayawati, como ela é geralmente conhecida, tem se manifestado contra - pelo menos durante a campanha eleitoral - projetos como este, vinculados ao Partido do Congresso.

Mayawati, 53, que nasceu na casta Dalit (que é inferior no sistema indiano de castas), é um dos três nomes com maior chance de conquistar o cargo de primeiro-ministro da Índia. Apesar da sua popularidade, a sua abordagem política em Lucknow, a capital do Estado, é mais egocêntrica do que tudo. Em vez de promover programas sociais efetivos, ela embarcou em um culto à sua personalidade que inclui a construção de um jardim de esculturas de concreto no qual não falta uma estátua dela própria montada e de elefantes cor-de-rosa, o símbolo do Partido Bahujan Samaj (BSP).

Por outro lado, os dois rivais de Mayawati estão prejudicados pelos efeitos do tempo. Manmohan Singh, 76, o primeiro-ministro moderado, conhecido pela sua integridade e pelo turbante azul que é a sua marca registrada, passou por uma cirurgia de 11 horas de duração em janeiro último. Singh, um homem baixo, e que é economista, recebeu cinco pontes de safena no coração. Se o Partido do Congresso conseguir novamente formar um governo (ele ainda não se decidiu quanto a um potencial parceiro de coalizão), Sonia Gandhi pedirá a Singh que continue ocupando o cargo de primeiro-ministro - pelo menos até que o filho dela, Rahul, esteja pronto para ocupar o seu lugar.

O terceiro candidato mais popular, Lal Krishna Advani, da agremiação hindu nacionalista Partido Bharatiya Janata (BJP), tem 81 anos de idade e fala constantemente sobre a sua suposta boa forma física. O calvo Advani, que é ex-ministro do Interior, afirma que Singh é fraco. Ele já se deixou fotografar levantando alteres e possui até o seu próprio blog. Ex-agitador do movimento contra os muçulmanos indianos, ele passou para o centro do partido e uniu as suas facções, pelo menos temporariamente. Os aspectos menos agradáveis da sua campanha são delegados a uma outra pessoa - ironicamente, um primo de Rahul Gandhi.

Varun Gandhi, 29, rejeitado pelo Partido do Congresso, desempenhou o papel de agitador do BJP, usando uma retórica antimuçulmana mais virulenta do que qualquer coisa dita por Advani durante os seus dias de radicalismo. "Karimullah, Mazharullah - que nomes apavorantes!", disse ele no seu reduto eleitoral de Pilibhit, em março. "Se eles atacarem hindus, eu os degolarei e deceparei as suas mãos!"

Como ministra-chefe, Mayawati não perdeu a oportunidade de colocar o descontrolado Gandhi na cadeia por incitamento de ódio racial. Há 150 milhões de muçulmanos na Índia, e mantê-los satisfeitos pode ser uma vantagem para Mayawati. O prisioneiro reclamou de que a gravação da sua fala foi manipulada. Depois disse ele foi libertado, tendo atendido aos objetivos de Mayawati.

Rahul Gandhi, que estudou nas universidades Harvard e Cambridge, só poderá se beneficiar do contraste entre ele e tais detratores vulgares. É quase noite quando o seu helicóptero pousa, com um atraso considerável, em Deva, sendo saudado freneticamente por centenas de milhares de simpatizantes. A multidão fica surpresa em ver que ele não está sozinho ao saudar os dignatários locais que estão de pé em uma fileira. Ele está acompanhando da irmã de 37 anos, Priyanka Gandhi Vadra.

A dona de casa Munni Devi Shukla está deslumbrada. Que dupla de irmãos de aparência digna, pensa ela, enquanto observa os dois membros da família mais elegante da Índia, parte de uma moderna quarta geração que segue os passos do bisavô, Jawaharlal Nehru, que foi primeiro-ministro da Índia. Os dois gostam de interagir com a multidão, sem demonstrar o menor sinal de arrogância.

"Ele é o líder de jovens como nós", afirma Mohammed Rihad Khan, um estudante de 18 anos. "Ele tem boa aparência e é bem vestido", acrescenta um outro estudante. O autêntico príncipe político discursa durante 15 minutos, ritmicamente e com voz estridente, falando em perdoar dívidas, oferecer refeições gratuitas para as crianças e também da obsessão de Mayawati com elefantes cor-de-rosa.

Ao que parece Rahul é incapaz de cometer qualquer erro no momento. "Eu não tenho a experiência necessária para ser primeiro-ministro", diz ele com modéstia, mas acrescentado espertamente a palavra "agora". Todas as pesquisas de opinião concordam que é impossível prever com certeza o resultado desta eleição, e os principais partidos da Índia poderão ter que formar coalizões após 16 de maio.

Mas, não importa qual seja o resultado, Rahul está em uma posição confortável. Caso o Partido do Congresso permaneça no poder, o herdeiro político da família Gandhi poderá suceder em breve o idoso Singh. E se nenhum partido obtiver uma maioria estável, criando a necessidade para novas eleições, o apoio a Rahul provavelmente aumentará e ele poderá declarar a sua candidatura. E, ainda que este não seja ainda o momento para Rahul disputar a eleição, ele terá apenas 44 anos de idade ao final do próximo mandato legislativo, e então poderá ser visto como capaz de tornar-se o próximo líder indiano.

Segundo a sua irmã casada, Priyanka, "Rahul tem o potencial para ser primeiro-ministro, mas ele precisa primeiro definir a sua vida pessoal". Rahul ainda é solteiro e, segundo boatos, estaria mantendo um relacionamento com uma mulher colombiana.

Já é noite quando os Gandhi deixam Deva. Devido ao karma problemático da família - um homem-bomba tamil matou o pai deles, Rajiv, durante a campanha eleitoral de 1991, e a avó, Indira, foi morta pelo próprio guarda-costas sikh -, as aparições públicas deles são sempre deliberadamente curtas.

Na manhã seguinte, quando Rahul já está a caminho do seu próximo destino, no Estado ocidental de Gujarat, Priyanka faz um comício em Rae Bareli.

Priyanka, que na verdade desejava concentrar-se na sua vida pessoal com os dois filhos, tem uma agenda de campanha movimentada na terça-feira. O dia dela termina com um evento, organizado pelos seus colegas de partido, em um terreno repleto de lixo ao longo da estrada.

Ao chegar, Priyanka emerge de uma limusine branca enfeitada com flores, cumprimenta os outros membros do partido e caminha até o palanque. A sua dicção e gestos fazem com que muitos indianos mais velhos lembrem-se da avó dela, Indira. O seu discurso é destituído de emoção, e nele ela pede aos presentes que compareçam às urnas. Ela utiliza repetidamente a palavra indiana que significa "mudança" e magnanimamente diz à plateia de 800 pessoas: "Não se trata de Sonia, nem de Priyanka, e tampouco de Rahul. Isto diz respeito a vocês e ao seu país".

Após passar rápida e cautelosamente pela multidão, ela retorna ao carro que a aguarda. O comboio de Priyanka, composto de 12 veículos utilitários esportivos, desaparece, marcando o fim da campanha do partido em Uttar Pradesh.

Desde então, o povo de Rae Bareli e de outras regiões especula sobre o motivo que levou a atraente política a usar um sari especial naquele dia. Ela herdou o traje em cores bege e vinho da avó, Indira Gandhi. Priyanka mandou alongar o sari para ajustá-lo ao seu corpo. Hoje, uma coisa é clara: Priyanka esteve à altura da avó.

Tradução: UOL

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