UOL Notícias Internacional
 

09/05/2009

Os cemitérios de navios do sul da Ásia

Der Spiegel
Joachim Hoelzgen
Nos bons tempos, as companhias de navegação encomendavam grandes quantidades de novos gigantes de metal para cortar os oceanos. Agora, porém, muitas delas estão ansiosas por se livrar dos seus navios. No sul da Ásia, o setor de ferro-velho está prosperando.

As praias arenosas ao norte de Chittagong, em Bangladesh, parecem gigantescos cemitérios de aço. Navios fazem fila nos bancos de areia, prontos para serem desmontados. Segundo o periódico da indústria de navegação, "Lloyd's List", outros navios já foram despojados de tantas peças que tudo o que restou foram os cascos, que despontam sombriamente da água. Aqui, todos os tipos de embarcações são desmontados: graneleiros, porta-contêineres, transportadores de automóveis e petroleiros.

Munir uz Zaman/AFP 
Esqueleto de navio visto no litoral de Shitakundo, cerca de 16 km de Chittagong, Bangladesh

Os destroços são os remanescentes de um mundo que está desaparecendo. No passado eles navegavam pelos oceanos como símbolos da globalização. Agora são símbolos de uma ordem que corre o risco de ir a pique com eles.

A crise comercial e econômica global é tão severa que um número cada vez maior de navios, alguns deles maiores do que o Titanic, está sendo retirado das suas rotas e enviado para áreas de desmonte. Nesses locais os navios são vendidos peça por peça. As tarifas de frete e arrendamento caíram e as rotas regulares de transporte de passageiros têm sido canceladas. Os navios porta-contêineres que ainda navegam mal conseguem cobrir os custos operacionais. O excesso de capacidade criado em períodos recentes de prosperidade acelerou a tendência para o desmonte dos navios.

Mas um boom substitui o outro. Com a queda das atividades de navegação, o desmonte de navios é o negócio do momento. A mudança teve início no final do ano passado e, inicialmente, teve como alvo os navios com uma capacidade combinada de carga e transporte de dez milhões de toneladas. Agora as embarcações de grande porte também entraram na fila, e encontram-se ancoradas sem atividade em portos de todo o mundo. Grande parte das operações de desmonte ocorre no sul da Ásia, e há pouca regulamentação em vigor nessa área.

Encalhando na costa
À medida que a situação da economia piora, o setor de desmonte de navios prospera. O melhor lugar para encalhar os navios é perto de Alang, na parte sul do Estado indiano de Gujarat. Aqui as marés são altas, permitindo que os navios encalhem na costa usando a própria propulsão de seus motores. Assim que a maré esvazia e os cascos ficam fora d'água, o trabalho de retalhar os navios e retirar as suas peças tem início.

"Este é um boom sem fim", dizia o título de uma matéria do "Hindustan Times". Os maçaricos sibilam, roldanas de aço emitem sons agudos e marretadas soam ao longo dos 11 quilômetros de praia. Guindastes removem as superestruturas do convés. Um graneleiro que até recentemente poderia transportar bauxita ou grãos desaparece em 40 dias.

Há alguns anos, quando a globalização ia de vento em popa, poucos navios aproximavam-se de Alang. Muitos dos nichos, conforme são atualmente conhecidos os locais de desmonte, ficavam fechados por falta de demanda. Agora milhões de dólares estão sendo obtidos com a venda de ferro-velho.

Ninguém conhece melhor essa situação do que Anil Sharma, um "cash-buyer" nascido na Índia que promove este boom bizarro desde Maryland, nos Estados Unidos. No jargão da indústria, cash-buyer é aquele indivíduo que adquire navios das companhias de navegação que desejam livrar-se das suas dispendiosas embarcações. A seguir, ele vende esses navios aos desmontadores. O ferro-velho obtido vai parar em pequenas siderúrgicas em locais como Chittagong ou Karachi, onde o material é transformado em aço para a indústria de construção civil. Algumas peças podem reemergir na forma de dobradiças para contêineres, cuja demanda também está caindo com a crise.

Mais de mil navios serão desmontados
A companhia de Anil Sharma, a Global Marketing Systems, tornou-se a maior compradora de navios para desmonte em todo o mundo. Pela empresa dele passa cerca de um terço dos navios destinados ao ferro-velho. E novos candidatos aparecem quase que diariamente. "Creio que teremos mais de mil navios adicionais que serão desmontados", previu Sharma em uma convenção em Londres em fevereiro passado. "Nos próximos dois anos os negócios estarão bons como nunca", disse o Onassis do desmonte de navios à revista "Lloyd's List".

As viagens de Sharma pelos centros mundiais de desmontes o levaram à costa ocidental de Karachi, no Paquistão, onde navios jazem inativos em gigantescos parques de estacionamento aquáticos. Segundo ele, em alguns locais os navios são acumulados em pilhas de até três embarcações. Soa meio implausível, mas isto é coerente com a imagem de Alang, onde mais de 125 navios vieram parar entre dezembro do ano passado e março deste ano - um número quase equivalente ao total combinado de 2007 e 2008.

As companhias de navegação precisam se livrar dos seus velhos cargueiros para resolverem um dilema. Durante o boom econômico global, elas encomendaram sem parar novos navios, criando um excesso de capacidade similar àquele que atrapalha o setor automobilístico. Nos casos em que as encomendas não podem ser canceladas, os novos navios saem dos estaleiros no momento em que a demanda por eles diminui. Isso faz com que aumente a necessidade de vender os navios antigos como ferro-velho.

Quase 90% da atividade de desmonte de navios ocorre na Índia, no Paquistão e em Bangladesh. Os trabalhadores arrastam placas de aço com longas cordas; cabos elétricos, tubulações, caldeiras, escotilhas e geradores espalham-se pela costa. Também estão por toda parte o amianto e outras substâncias tóxicas utilizadas para vedação.

Segundo a agência de notícias "Reuters", as peças que não podem ser derretidas e transformadas em barras de aço são comercializadas ao longo da estrada para Alang em um novo tipo de bazar. Nestes estabelecimentos estão à venda portas, mesas, sofás, carpetes, pratos, geladeiras, aparelhos de ar condicionado e até a banheira de um comandante de navio.

Os navios têm sido encalhados na Baía de Bengala e no Mar Arábico nas três últimas décadas para sofrerem um processo de reciclagem barato. Estaleiros na Coreia, em Taiwan, no Japão e na Europa preferem construir ou consertar navios em cais secos, deixando para outros a atividade nada glamourosa de desmontar as embarcações.

"Eu vivo com medo de acidentes"
Um trabalhador da Praia de Gadani, no Paquistão, ganha 280 rupias - menos de R$ 10 - por dia. Mesmo assim, as regiões nas quais se pratica o desmonte beneficiam-se dessa indústria. Um país com poucas reservas naturais como Bangladesh é capaz de fazer bom uso do ferro-velho, especialmente porque a produção própria de aço a partir de minério de ferro seria cara e tomaria tempo.

E a atividade de desmonte de navios no sul da Ásia está prestes a tornar-se mais estritamente regulamentada graças às novas diretrizes baixadas pela Organização Marítima Internacional, em Londres, que integra a Organização das Nações Unidas (ONU). As diretrizes preveem um registro das substâncias perigosas contidas em navios e exige que os ferros-velhos implementem um plano de reciclagem. Elas também estipulam que os navios sejam inspecionados por especialistas antes da viagem final para os locais de desmonte.

As novas regras deverão ser aprovadas em uma reunião na próxima segunda-feira em Hong Kong. Mas, os especialistas advertem que, mesmo que as regras sejam aprovadas, as nações envolvidas nessa atividade levarão anos para implementá-las e ratificá-las. Uma exceção poderia ser Bangladesh, onde recentemente um tribunal determinou que os desmontes de navios precisam ser menos agressivos ao meio ambiente.

Até que tais mudanças sejam implementadas, Omar Faruq, trabalhador de um ferro-velho de Chittagong, provavelmente continuará cortando placas de aço dos navios como faz todos os dias. Ele sofreu um longo corte na canela na borda afiada de uma peça de aço em agosto do ano passado, e, segundo disse a um repórter da agência de notícias "AFP", o ferimento exigiu pontos. Outros sofreram ferimentos muito mais sérios em meio ao ferro-velho - ou até morreram. "Eu vivo com medo de acidentes como esse", disse Faruq. "Mas tenho um medo muito maior de ficar sem dinheiro caso não possa trabalhar".

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h19

    -0,24
    3,262
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h24

    0,15
    63.856,37
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host