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27/05/2009

Taleban ameaça escolas para meninas no Afeganistão

Der Spiegel
Matthias Gebauer e Shoib Najafizada Em Kunduz (Afeganistão)
Respondendo as ameaças do Taleban, pelo menos dez escolas para meninas foram fechadas perto de Kunduz, no norte do Afeganistão. Visitar uma escola é uma proposta perigosa -uma viagem que leva diretamente ao coração do território islâmico

Quando o vice-diretor da escola de Ensino Médio de Aqtash fala do governo, não está se referindo ao governo central de Hamid Karzai em Cabul. Ele também não se refere ao governo local em Kunduz. "O Taleban é o nosso governo", diz Bashir. "Agora, eles dominam nossa região; seus comandantes dão as ordens aqui".

Bashir está em uma sala de aula empoeirada no térreo de sua escola moderna, a meia hora de carro de Kunduz. Até um mês atrás, cerca de 400 meninas ainda frequentavam a escola em três turnos diários para aprender a ler, escrever e aritmética. Números e fórmulas ainda estão rabiscados no quadro negro.

Agora, porém, as salas de aulas estão se deteriorando. Cadeiras e mesas ainda estão organizadas em fileiras, mas estão cobertas por um filme de poeira. Bashir está impotente no meio da sala. "Os pais em Aqtash têm medo de enviar suas meninas para a escola, depois das ameaças de morte", explica. O diretor da escola fala silenciosa e cuidadosamente. Ele também tem medo. Vários de seus professores são informantes do Taleban. Os combatentes barbudos, diz ele, certamente não gostariam de saber que um repórter esteve na escola em Aqtash. "Você deve ir embora rapidamente, se quiser sair de Aqtash vivo", sussurra o diretor.

"Preso e morto"
A advertência de Bashir não é um exagero. Menos de 30 minutos depois de nossa chegada em Aqtash, localizada 15 km a nordeste de Kunduz saindo da estrada principal Norte-Sul, uma dúzia de combatentes do Taleban, armados com AK-47 aparece na frente do arco azul da entrada da escola. "O que você quer aqui?", pergunta um dos combatentes. "Esta é nossa região, os Emirados Islâmicos do Norte do Afeganistão".

A visita à escola de Aqtash é uma viagem ao coração do império do Taleban, que controla grandes áreas em torno de Kunduz. Minutos se passam antes de os combatentes liberarem a passagem para que partíssemos.

A viagem de volta de Aqtash não é menos perigosa e fornece uma visão da situação a menos de 15 km do campo militar alemão em Kunduz. Há postos de vigilância do Taleban em todas as estradas e estão bem armados. O comandante do Taleban na região chama-se Khalid Salim. Ele é jovem e tem fama de brutal. Salim está na lista dos mais procurados da região. "Os que trabalham para o governo ou para os soldados ocidentais são imediatamente presos e assassinados", diz um dos seus homens em um posto de fiscalização.

O destino da escola em Aqtash, que recebeu um novo teto há apenas um ano, pago por fundos de desenvolvimento alemão, não é excepcional. Ao menos 10 escolas de meninas perto de Kunduz foram fechadas nas últimas três semanas, depois de receberem ameaças do Taleban. Os pais simplesmente param de enviar as crianças para a escola por causa do perigo. E os fechamentos não foram apenas na região de Char Dara a sudeste de Kunduz, um famoso reduto Taleban -escolas em três outros distritos também pararam de operar.

Nenhum soldado alemão
Não demorou muito para a notícia do fechamento das escolas alcançar os mais altos escalões do governo em Cabul e Berlim. Histórias sobre escolas fechadas pelo Taleban eram exatamente o que esperavam evitar. Por um lado, isso mostra que o Taleban está ganhando cada vez mais domínio na região diante dos portões do campo militar alemão em Kunduz. Nem o exército alemão, o Bundeswehr, nem a polícia local é eficaz contra os extremistas islâmicos. No máximo, podem desalojar temporariamente o Taleban, mas eles passam a aterrorizar outras áreas onde não há soldados alemães.

Acima de tudo, o fechamento das escolas ameaça um dos poucos sucessos que os alemães tiveram no Afeganistão. Essa conquista foi repetidamente anunciada por aqueles em favor da continuidade da ocupação; quase todo político alemão menciona como é estimulante visitar uma escola de meninas no Afeganistão. Hoje, contudo, as escolas -exatamente como no sul, onde ataques recentes contra escolas de meninas chegaram às manchetes- tornaram-se um instrumento de propaganda potente para o Taleban. As tropas ocidentais não podem fazer nada para deter os combatentes islâmicos, diz a mensagem.

A tática usada pelo Taleban é chocantemente simples. Dezenas de "cartas noturnas" que são afixadas nas portas das escolas durante a noite estão empilhadas na enorme mesa de Muqim Halimi. Halimi é o comissário de educação da província de Kunduz. Vários homens esperam diante de seu escritório, a maior parte deles querendo suborná-lo para conseguir boas notas para as crianças. Mas quando Halimi ouve dizer que um repórter alemão quer conversar sobre o fechamento das escolas das meninas, ele manda todos embora para que possa falar sem ser perturbado.

Depois de confirmar o fechamento das escolas, ele lê as cartas noturnas do Taleban, simples e explícitas: "A partir de hoje, as meninas não têm mais permissão para frequentar a escola". A carta é marcada com o logotipo do Emirado Islâmico do Afeganistão -em inglês, outra indicação de como o Taleban é bem organizado na área alemã de operação.

"Se agora matarmos meninas, ..."
Outra carta de ameaça mostra uma menina na forca. "Nós os advertimos. Se agora matarmos meninas, vocês não devem se surpreender", diz a mensagem.

Halimi é aberto ao descrever a situação precária das escolas. "Não há polícia na região, e até o exército tem medo de entrar", diz ele. "O que eu devo fazer, como civil, contra o Taleban?"

Alarmado com os relatos, o ministro do interior afegão, Hanif Atmar, chamou a atenção do chefe de polícia de Kunduz pelo telefone. O fechamento das escolas, diz ele, é uma "desgraça para o Afeganistão" e algo deve ser feito. Entretanto, o chefe de polícia, Abdul Racak, também não sabe o que fazer. Na semana passada, ele tentou enviar uma patrulha da polícia para Aqtash, mas foi recebida a tiros assim que deixou a estrada principal. Dois policiais foram mortos no ataque.

A reação do campo alemão em Kunduz é também uma mistura de espanto e impotência. A situação de segurança é tão ruim no momento que nem os militares nem os assistentes civis podem visitar Aqtash. Na realidade, porém, não há muito que possam fazer para combater as ameaças do Taleban. Há cerca de 650 escolas na região em torno de Kunduz, e o teatro alemão de operações é quase do tamanho do Estado alemão de Hesse ou o Estado americano de Massachusetts. Com um contingente alemão de apenas 667 soldados, a segurança simplesmente não pode ser garantida.

Relatos do fechamento das escolas das meninas não são as únicas indicações que a região de Kunduz está em risco. Os militares alemães notaram que as ameaças começaram na mesma época que os ataques contra soldados alemães aumentaram em número e sofisticação. Desde o final de abril, 19 patrulhas foram atacadas, com um soldado perdendo a vida em um ataque no dia 29 de abril. Em maio, até agora houve quatro ataques bem organizados e os soldados temem que o próximo ocorra a qualquer momento. Ninguém acredita que a correlação entre as ameaças às escolas e os ataques é uma coincidência.

A reação às ameaças tornou-se quase rotina nos últimos meses. Os afegãos, segundo dizem, têm que usar seu exército para estabelecer a segurança em áreas ameaçadas como Aqtash. Os alemães conversaram com seus parceiros afegãos na esperança que lançassem uma ofensiva em Aqtash. Soldados alemães apoiariam a operação, mas as tropas afegãs deveriam ser as primeiras no front.

Ninguém se surpreenderia, contudo, se outras escolas de meninas fechassem as portas até o início da operação.

Ainda assim, nem todas as notícias são ruins. Na escola de meninas de Qosh Tappeh, também perto de Kunduz, o diretor, veterano dos "mujahedeen", resolveu a questão com as próprias mãos. Quando o Taleban apareceu na escola pela segunda vez para apresentar suas ameaças, ele encontrou uma solução afegã para o problema: disse aos visitantes que, no que concerne lutar até a morte, era muito mais experiente que eles. Se quisessem saber com certeza, ficaria feliz em acomodá-los.

Sua ameaça parece ter funcionado. As meninas em Qosh Tappeh continuam a frequentar a escola.

Tradução: Deborah Weinberg

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