UOL Notícias Internacional
 

15/06/2009

Aceitar os uigur é um "gesto de boa vontade e humanidade"

Der Spiegel
Steve Kettmann
Entrevista com o presidente de Palau Johnson Toribiong

A Alemanha disse não, então a minúscula nação-ilha de Palau preencheu o vazio e afirmou que aceitará até 17 presos de etnia uigur de Guantánamo. O presidente Johnson Toribiong de Palau disse à Spiegel Online que é "ilegítima" a alegação de que eles estão fazendo isso por dinheiro.

Palau é um pequeno arquipélago a leste das Filipinas



Spiegel Online: A Alemanha passou semanas discutindo se deveria aceitar os presos de etnia uigur que devem ser libertados de Guantánamo. Agora Palau se ofereceu para recebê-los. Como isso aconteceu?
Johnson Toribiong:
Recebi um pedido pessoal do presidente dos EUA Barack Obama, através de seu enviado Daniel Fried, para ajudar os EUA a resolverem esse problemático assunto político. Com base em nossa antiga amizade com os EUA, concordamos em fazer um gesto humanitário e oferecer ajuda. Nos sentimos honrados e com orgulho de poder ajudar os EUA nesse assunto, que tem implicações para o sistema de justiça dos EUA e para os direitos humanos.

Spiegel Online: Assim como o presidente Obama, o senhor cursou direito nos Estados Unidos. Como essa formação de advogado colabora para sua compreensão do caso dos uigur?
Toribiong:
Os uigur são uma etnia chinesa que vem lutando para criar seu próprio país e eles foram presos no Afeganistão e levados para o centro de detenção de Guantánamo sob suspeita de que eram membros do Taleban ou terroristas. Depois, as autoridades competentes nos EUA determinaram que eles não eram combatentes inimigos. O único outro lugar para onde poderiam ser devolvidos é sua terra natal, onde seriam perseguidos e provavelmente executados.

Spiegel Online: O senhor já determinou quantos prisioneiros uigur Palau vai receber?
Toribiong:
Se for determinado que todos estão em condições de ser transferidos para Palau, dissemos aos EUA que estamos preparados para aceitar todos os 17. Mas se houver algum problema mental ou de saúde, ou assuntos que estejam além de nossa capacidade de resolver, precisaremos alertar os EUA em relação a isso. Todos os detentos têm advogados, então vamos negociar com eles também. Nossa preocupação é com os problemas de saúde e suporte financeiro.

Spiegel Online: Quais são suas preocupações em relação ao suporte financeiro?
Toribiong:
Inicialmente quando eles vierem a Palau teremos que sustentá-los até que eles encontrem empregos. A delegação dos EUA disse aqui em Palau em 4 de junho que encontraram apoio financeiro para a relocação e transição do presos até que se tornem autossuficientes. A quantia não está na casa dos milhões de dólares, como foi divulgado por alguns meios de comunicação internacionais. Mas será suficiente para cuidar deles no começo.

Spiegel Online: O senhor está se referindo a relatos de agências de notícias que citaram dois funcionários anônimos do Departamento de Estado alegando que a aceitação dos refugiados fazia parte de um acordo no qual os EUA havia concordado em pagar US$ 200 milhões para Palau. Essa afirmação foi amplamente divulgada. É verdadeira?
Toribiong:
É completamente falsa. Nós não estamos condicionando este gesto de boa vontade e humanidade a negociações da revisão do acordo de livre-associação entre Palau e os EUA. Se fizéssemos isso, isso reduziria a qualidade de nosso gesto humanitário. Você precisa compreender como consideramos importante nossa relação com os EUA aqui em Palau. Eu acabei de assinar uma ordem executiva declarando o dia 16 de junho como o dia nacional de luto pelo jovem palauense que morreu no Afeganistão lutando ao lado dos soldados americanos na guerra contra os agentes do terrorismo. Nossa disposição de cooperar com os Estados Unidos é muito maior do que a transferência dessas pessoas. Nossa emancipação colonial do Japão foi paga com o sangue de muitos americanos jovens e corajosos. Então temos orgulho de fazer isso e de expressar nossa gratidão, e esperamos que o mundo veja a reação de Palau como a oferta de uma solução, e não a criação de um problema.

Spiegel Online: Você vê o pedido dos EUA em parte como uma forma de diminuir a pressão das relações dos EUA com a Alemanha e outros aliados sobre o mesmo assunto?
Toribiong:
Depois de meu encontro em Palau em 4 de junho com Daniel Fried, ele voou para a Austrália para fazer o mesmo pedido. Minha compreensão é que os Estados Unidos estão explorando todas as possibilidades para resolver a situação dessas pessoas, que a meu ver se tornaram uma espécie de párias. E talvez Palau, que não tem inimigos, pode ser um lugar onde elas possam encontrar liberdade e talvez um lugar de residência permanente.

Spiegel Online: Quando os EUA estavam negociando enviar prisioneiros para a Alemanha, o ministro de Interior Wolfgang Schäuble pediu provas de que eles não eram perigosos, observando que alguns haviam estado em campos de treinamento terroristas no Afeganistão. Por que o senhor não compartilha das mesmas preocupações?
Toribiong:
Temos uma população de 20 mil pessoas e cerca de 6 mil residentes estrangeiros. Há cerca de 445 muçulmanos de Bangladesh que agora vivem em Palau, e eles têm vivido entre nós sem nenhum incidente. Na minha visão, 17 chineses étnicos não representarão nenhuma ameaça a Palau. Eles estarão sem armas aqui e não terão nenhuma organização. Acredito que eles não serão uma grande fonte de preocupação para nós. Eles serão como todo mundo: se violarem a lei, serão colocados na prisão.

Spiegel Online: Como ex-embaixador de Palau em Taiwan, o senhor está consciente das repercussões que isso pode ter nas relações de seu país com a China? Já há indícios de alguma reação adversa?
Toribiong:
A China protestou dizendo que a transferência desses detentos para Palau seria ilegal. Minha posição é que, de acordo com o pacto de livre-associação, os Estados Unidos deveriam assumir a responsabilidade e tentar apaziguar a China ou pelo menos explicar que Palau aceitou essas pessoas para garantir seus direitos humanos enquanto sua situação futura é negociada e determinada.

Tradução: Eloise De Vylder

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