UOL Notícias Internacional
 

12/07/2009

Um mundo sem armas nucleares não é um "objetivo maluco", diz especialista

Der Spiegel
Carsten Volkery
O desarmamento nuclear é um dos principais temas que Barack Obama abordou durante sua visita à Rússia esta semana. Em entrevista à Spiegel Online, o chefe da Conferência de Segurança de Munique, Wolfgang Ischinger argumenta que o sonho de um mundo livre de armas nucleares não precisa continuar sendo uma ilusão.

Infográfico

  • Veja infográfico interativo com um panorama da energia nuclear aplicada em armamentos estratégicos e na geração de energia elétrica pelo mundo

Spiegel Online: O presidente dos EUA Barack Obama está em Moscou neste exato momento para sua primeira reunião oficial com o presidente russo Medvedev. No fim da viagem, espera-se um acordo para dar continuidade ao desarmamento nuclear. Quão importantes são essas conversas se levarmos em conta o fato de que é mais provável que as ameaças venham hoje de outros lugares do mundo?
Wolfgang Ischinger:
As negociações entre os EUA e a Rússia quanto a um tratado sucessor ao Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start, em inglês) são extremamente importantes. Os dois países possuem 96% das armas nucleares do mundo. A Rússia tem 2.700 ogivas nucleares; os EUA têm 2.220. Presumo que essa reunião determinará o curso para uma redução dramática dessas armas.

Spiegel Online: Não resta muito tempo: o antigo tratado Start expira em dezembro. Em que Obama e Medvedev precisam concordar em termos concretos?
Ischinger:
Eles precisam reafirmar o objetivo político de se comprometer com o tratado até o fim do ano. E precisam retirar um grande obstáculo do caminho: a Rússia até agora rejeitou o plano norte-americano de mísseis de defesa na Europa Oriental.

Spiegel Online: A Rússia está pedindo uma mudança na política de Washington. Obama deve ceder para acelerar as negociações de desarmamento?
Ischinger:
Pelo que tenho ouvido de dentro do governo dos EUA, Obama está preparado para se aproximar dos russos. Ele imagina uma solução que poderia incluir uma defesa de mísseis conjunta dos EUA com a Rússia, com a inclusão dos europeus. Também é importante que nossos parceiros em Varsóvia e Praga não sejam deixados de fora. Mas é preciso encontrar soluções criativas para isso.

Spiegel Online: É possível realizar isso até dezembro?
Ischinger:
Sim, mas é necessária uma grande determinação política por parte de Obama e Medvedev. Muita coisa depende da reunião desta semana. Eu pessoalmente também gostaria de um sinal para o nosso plano Global Zero, em outras palavras, um programa de desarmamento nuclear que vai além da Rússia e dos Estados Unidos e inclui outras potências nucleares.

Spiegel Online: A iniciativa Global Zero, da qual você é um participante ativo, foi criada há seis meses por cem ex-diplomatas e líderes políticos. Vocês almejam um mundo livre de armas nucleares em 2030. O que o faz ser tão otimista?
Ischinger:
É claro que esse é um objetivo extraordinariamente ambicioso, e algumas pessoas balançam a cabeça em relação a ele. Mas sabemos a partir da história recente que nada é impossível na política. Para atingir um progresso significativo no desarmamento, é importante fortalecer a visão de um mundo livre de armas nucleares e respaldá-la com um programa concreto. Nossa iniciativa tem um nível de credibilidade totalmente diferente das campanhas do passado porque nós temos os antigos negociadores de alto nível e personalidades influentes dos EUA, Rússia, China e outros países envolvidos.

Spiegel Online: Ainda assim, a visão de um mundo livre de armas nucleares parece muito fora da realidade. A Coreia do Norte está impacientemente testando mísseis e quer ter uma bomba pronta em 2012, e o Irã está a pleno vapor em seu programa nuclear. Esses países veem a bomba nuclear como o único meio verdadeiro de impedir a mudança de regime. Por que eles deveriam abandonar suas ambições?
Ischinger:
É claro que esses países não suspenderão seus programas da noite para o dia só porque os EUA e a Rússia concordaram com um sucessor do Start. Mas há anos, as pessoas reclamam que as potências nucleares não foram impedidas pelo Tratado de Não-Proliferação. Vários países sentem que são pressionados enquanto outras potências nucleares continuam se armando, felizes da vida. Para conferir uma nova legitimidade ao Tratado de Não-Proliferação é necessário que os EUA e a Rússia deem o bom exemplo.

Spiegel Online: A crise no regime do Irã levou Teerã a ameaçar romper as relações diplomáticas com o Ocidente. As negociações nucleares agora viraram história?
Ischinger:
Eu apoio a política do governo alemão de estender as mãos para os iranianos. Não podemos nos retirar agora, apesar de todas as críticas em relação à repressão dos protestos. O relógio está correndo aqui, felizmente ainda não é o tique-taque da bomba. Também acho que Teerã estará preparada para retomar as negociações iniciais sobre seu programa nuclear em breve. Não é interessante para o governo iraniano se isolar completamente do mundo.

Spiegel Online: O ex-embaixador dos EUA nas ONU, John Bolton, aconselhou Israel na semana passada a atacar o Irã antes que seja tarde demais. Você vê algum perigo?
Ischinger:
O perigo aumentaria se o Ocidente rompesse as negociações com o Irã. Mas este não é o caso. Estou feliz que John Bolton não seja mais um membro do governo americano. Esse tipo de discurso é extremamente contraproducente. Isso é dar lenha à fogueira para as pessoas erradas em Teerã.

Spiegel Online: As menores potências nucleares tampouco estão muito entusiasmadas em abrir mão de seus arsenais. Os conservadores de oposição da Grã-Bretanha querem novos submarinos nucleares, na Índia e no Paquistão as armas nucleares são uma questão de orgulho nacional, e é pouco provável que Israel, cercado por inimigos, desista de sua proteção nuclear. Como você acha que essa resistência pode ser quebrada?
Ischinger:
Entendo que a resposta de países como a França, Grã-Bretanha e China até agora foi: deixe que os EUA e a Rússia reduzam seus arsenais até os nossos níveis, e então poderemos conversar. É por isso que as quatro etapas do plano Global Zero preveem que os EUA e a Rússia reduzam inicialmente seus arsenais para mil ogivas utilizáveis cada, antes que os outros Estados sejam incorporados nas negociações.

Spiegel Online: Quais serão os Estados mais difíceis de convencer?
Ischinger:
As respostas de Paris a Londres não foram totalmente negativas. A longo prazo, a China também concordará em negociar.
Beijing está se tornando cada vez mais um ator no controle de armas, como pode ser visto na forma que lidou com o Irã e a Coreia do Norte.
Será mais difícil com outros, como por exemplo o Paquistão.

Spiegel Online: Que papel os europeus podem desempenhar? Não há uma posição comum da UE, que tem duas potências nucleares e 25 não-nucleares.
Ischinger:
Dada sua antiga decisão de não se armar, a Alemanha é uma importante potência não-nuclear e tem uma credibilidade especial para pressionar pela não-proliferação. É por isso que é importante que nós vejamos a nós mesmos - e que a Europa como um todo veja a si mesma - como um motor do desarmamento no futuro.

Spiegel Online: A visão de um mundo livre de armas nucleares não é no fim das contas irrealista uma vez que o conhecimento de como construir uma arma nuclear não pode ser eliminado? Como esse autocontrole voluntário pode funcionar a longo prazo?
Ischinger:
Isso pode funcionar se houver confiança suficiente entre as nações. Para que isso aconteça precisamos de um monitoramento e verificação abrangentes. É o que prevê o plano Global Zero. E o desarmamento nuclear precisa ser acompanhado pelo desarmamento convencional. Muitos estrategistas russos dizem: o desarmamento nuclear é muito bom, mas o que acontece se nos livrarmos de todas as nossas armas nucleares e tivermos de enfrentar os EUA altamente armados com o nosso fraco exército convencional? A bomba atômica é um grande nivelador. É por isso que um mundo livre de armas nucleares só é possível se também houver um desarmamento convencional.

Spiegel Online: Então os EUA precisam abrir mão de sua superioridade militar?
Ischinger:
Inicialmente estamos pensando apenas no que pode ser atingido politicamente. Não posso continuar fazendo minha Conferência de Segurança de Munique todo mês de fevereiro com milhares de pessoas protestando nas ruas porque acham que não temos uma base moral em nossa política. A campanha Global Zero busca solucionar esse problema.
É um objetivo bom; um objetivo legítimo, não é um objetivo maluco.
Tanto Obama quanto Medvedev o endossaram em Londres em abril - um sucesso considerável depois de apenas poucos meses da nossa campanha.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,78
    4,016
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    -0,30
    93.627,80
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host