UOL Notícias Internacional
 

09/08/2009

Campanha eleitoral alemã ganha uma necessária dose de humor

Der Spiegel
David Crossland
Em Berlim (Alemanha)
A campanha eleitoral alemã foi animada por uma onda de promessas satíricas para reconstruir o Muro de Berlim, enviar os aposentados para o leste, fornecer cirurgias plásticas para todos e escolher o coelho como símbolo nacional. O humor é extremamente necessário nessa época de torpor político, dizem os comediantes.

A Alemanha vinha se esforçando bastante para manter sua política o mais neutra possível desde 1945, de forma compreensível, pode-se dizer. O consenso e os acordos prevaleceram, e os escândalos tendem a ser muito complicados ou muito triviais para manter os observadores casuais interessados por muito tempo.

Isso ficou pior nos últimos quatro anos. O debate político foi sufocado uma vez que os dois principais partidos, o conservador da chanceler Angela Merkel e o rival Social Democrata de centro-esquerda, ficaram travados numa estranha coalizão na qual tiveram que arquivar suas diferenças.

E há uma chance bem real de que a coalizão possa se repetir durante mais quatro anos depois das eleições gerais de 27 de setembro.

O que a cena política alemã precisa agora mais do que nunca é de uma injeção vitalizante de sátira, ou pelo menos de humor, e algumas tentativas experimentais estão a caminho para suprir essa necessidade.

  • Tobias Schwarz/Reuters

    O comediante alemão Hape Kerkeling formou seu próprio partido de paródia que é "conservador, liberal, de esquerda e um pouco ecológico" e promete oferecer cirurgia plástica gratuita


Um partido autêntico chamado Die Partei [O Partido, em alemão] está fazendo campanha com um programa satírico para reconstruir o Muro de Berlim, transformar a Alemanha oriental numa reserva ambiental e povoá-la com os aposentados do país.

E um dos comediantes mais conhecidos do país, Hape Kerkeling, formou seu próprio partido de paródia que é "conservador, liberal, de esquerda e um pouco ecológico" e promete oferecer cirurgia plástica gratuita para todos.

Coelho para substituir a água alemã
Seu bordão, talvez baseado numa interpretação truncada do famoso slogan de Barack Obama, é: "Yes, Weekend" [literalmente: "Sim, fim-de-semana"]. E ele quer abolir a águia como símbolo nacional e substitui-la pelo "coelho federal".

A mídia, desesperada por um pouco de leveza durante o que até agora foi uma eleição caracterizada pelo tédio, noticiou em peso a campanha de Kerkeling. Sua coletiva de imprensa em Berlim na terça-feira, para lançar uma paródia de documentário sobre sua candidatura, atraiu o tipo de atenção normalmente reservada para Merkel - canais de televisão transmitindo ao vivo e cerca de 100 repórteres que inadvertidamente se transformaram em coadjuvantes de seu golpe de relações públicas, alimentando-o com perguntas e recebendo piadas em troca.

E quanto à gripe suína? Perguntaram a Kerkeling, caracterizado como seu alter ego Horst Schlämmer, com horríveis dentes falsos, peruca grisalha e paletó sujo. Ele respondeu: "Sou contra".

Outras pérolas se seguiram. Sua primeira viagem ao exterior como chanceler seria para a Holanda, porque para chegar lá basta atravessar a fronteira perto de sua casa na pequena cidade de Grevenbroich, que incidentalmente se transformará na nova capital do país. Ele também tinha uma mensagem para a juventude de hoje: "As crianças são o nosso futuro".

Schämmer, chefe do HSP, ou Horst Schlämmer Partei [Partido de Horst Schlämmer], também promete uma renda mensal de 2.500 euros (R$ 6.600) para todos desde o nascimento.

Desesperados para animar a política
Apesar de não ser necessariamente uma sátira de vanguarda, o "número" de Kerkeling teve uma resposta positiva na Alemanha, onde há uma preocupação cada vez maior em relação à fatiga do eleitorado depois de quatro anos de torpor político. As pessoas, ao que parece, estão cansadas de promessas de campanha irrealistas e em geral sem nenhuma vivacidade política.

O programa de Kerleling não soa mais estranho do que a promessa dos Social Democratas de centro-esquerda para criar 4 milhões de empregos nos próximos dez anos, ou do que a promessa de Merkel de cortar impostos numa época de déficits orçamentários recordes.

E não há nenhum Obama à vista. Nenhum dos candidatos têm o poder para inspirar o país com uma visão grandiosa. A falta de carisma de Merkel é agora sua marca registrada, e seu desafiante Frank-Walter Steinmeier do SPD está lutando para se livrar de sua imagem de burocrata insosso.

Até o resultado parece pré-programado - Merkel, que é em grande parte vista como uma aposta segura, parece quase certa de conseguir um segundo mandato.

"Há um sentimento de exaustão pairando sobre essa campanha eleitoral, é bom que você esteja se juntando a ela", disse o colunista Franz Josef Wagner do jornal Bild, num editorial sobre Horst Schlämmer. "Se eu quisesse rir, votaria em Schlämmer. Mas temo que no mundo real não haja muito motivo para dar risada."

Os líderes d'O Partido fazem de tudo para serem diferentes. Fundado em 2004 pela equipe editorial da revista humorística Titanic, o partido participou da eleição geral de 2005 e recebeu um total de 18 mil votos. Ele fez campanha em várias eleições regionais e locais desde então, e conquistou 4,8% dos votos no distrito de Neukölln em Berlim.

Seus posteres de campanha são tão notórios que normalmente são arrancados em poucas horas - seja por rivais políticos irados ou por estudantes que querem pendurá-los em suas paredes. Um poster mostra dois jogadores de futebol, um deles usando a faixa da Alemanha Ocidental e o outro a da comunista Alemanha Oriental com o slogan: "África do Sul 2010 - Vamos levar duas equipes para a Copa do Mundo!"

O Partido também está lançando um filme este mês, descrito como um "documentário de propaganda cinematográfica" de 90 minutos sobre seu trabalho político ao longo dos últimos cinco anos.

"O que Obama pode aprender comigo"
Seu fundador e presidente, o ex-editor da Titanic Martin Sonneborn, escreveu recentemente um editorial intitulado "O que Obama pode aprender comigo", no qual ele afirma que o novo formato de propaganda fará com que a campanha do presidente dos EUA no Twitter e no Facebook no ano passado pareça ultrapassada.

"Estamos bem preparados para a eleição e a Alemanha precisa de nós", disse Sonneborn à "Spiegel Online". "Queremos fechar a maior parte das cidades pequenas e médias no leste e manter simplesmente as três ou quatro maiores. Poderíamos transferir nossos aposentados da Alemanha ocidental para lá e transformar o resto da região numa reserva de vida selvagem."

As piadas d'O Partido incluem levantar um trecho simbólico do Muro ao longo da antiga fronteira entre a Alemanha Ocidental e Oriental. Ele também causou surpresa com seu pedido de que os alemães orientais paguem impostos por terem assistido televisão da Alemanha Ocidental secretamente durante o comunismo.

Numa proposta ainda mais controversa, eles querem pôr abaixo a famosa igreja de Frauenkirche em Dresden, destruída durante o bombardeio da cidade durante a 2ª Guerra Mundial e reconstruída a duras penas depois da reunificação em 1990. "Poderíamos usar as pedras para reconstruir o Muro", explicou Sonneborn.

Um novo Muro de Berlim
Surpreendentemente, cerca de um quarto dos 6 mil membros d'O Partido estão localizados no leste da Alemanha.

"O apoio para a nossa causa está crescendo. Esse assunto causa grande comoção porque o país ainda está dividido, quase mais do que antes de 1989", diz Sonneborn.

Isso pode ser um pouco exagerado. Mas à medida que a Alemanha se prepara para celebrar o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim em novembro, pesquisas de opinião mostram que muitos orientais sentem como se fossem cidadãos de segunda classe, enquanto muitos ocidentais ressentem os bilhões que foram gastos na reconstrução do leste depois de décadas de negligência comunista.

Durante os últimos cinco anos, O Partido adotou todo o aparato de uma entidade política de verdade - ele tem um comitê executivo, associações regionais em nove dos 16 Estados alemães. E tem até mesmo uma organização jovem, a "Hintner Youth", batizada com o nome de seu secretário-geral, Thomas Hintner.

Apesar de o objetivo do partido ser humorístico, Sonneborn insiste que o sistema político da Alemanha precisa urgentemente de uma dose saudável de sátira, especialmente depois de quatro anos de torpor sob o governo de Merkel, a quem O Partido quer prender dentro da "zona econômica especial" do leste.

"Depois que o Muro caiu, a Alemanha Oriental comprou o estilo de vida do leste e muitas pessoas ficaram de fora. Elas não conseguiram encontrar seu espaço nessa sociedade. Podem dizer que estamos usando o humor para apontar esses problemas", diz Sonneborn.

Infelizmente, o funcionário alemão responsável por verificar as inscrições dos partidos para a eleição de setembro não acha graça. Ele impediu que O Partido concorresse às eleições alegando que não era sério o suficiente.

Sonneborn diz que está confiante de que a decisão será revogada numa audiência esta semana.

Tradução: Eloise De Vylder

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