"É perigoso pensar que a crise financeira ficou para trás", diz o diretor do FMI

Gregor Peter Schmitz e Gabor Steingart

O diretor do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, 60, fala ao "Spiegel" sobre a dificuldade de Wall Street em aprender com a crise financeira, sobre o futuro da economia global e de suas ideias sobre um novo papel para o FMI como rede de segurança financeira mundial.
  • Carl de Souza/AFP

    Dominique Strauss-Kahn: "Não vejo o FMI
    como policial, mas sim como médico. Damos conselhos ao paciente sobre como ficar saudável"



Spiegel: No dia seguinte à falência do banco de investimento Lehman Brothers, a crise imobiliária norte-americana tornou-se um terremoto que foi sentido pela economia global. As pessoas que causaram a crise aprenderam com os eventos de setembro último?
Strauss-Kahn:
Poucos meses antes da falência do Lehman Brothers, o secretário do Tesouro na época, Hank Paulson, organizou um jantar para membros do governo e meia dúzia de empresários de grandes bancos de investimento americanos. Quase ninguém sabia dos problemas do Lehman na época, mas o Bear Stearns já havia caído, e os problemas no setor financeiro eram evidentes. No jantar, um dos banqueiros nos disse: "Veja, de fato fomos gananciosos demais. Precisamos conter nossa ganância com maior regulamentação."

Spiegel: Parece bom. Mas o senhor tem certeza que...?
Strauss-Kahn:
Sei o que vai perguntar: não, não tenho certeza. Não sei se ele diria a mesma coisa hoje.

Spiegel: A maior parte dos banqueiros parece estar arrojada de novo. Novamente, milhões estão sendo dados em bônus, como recompensas por acordos financeiros altamente arriscados. Os banqueiros prefeririam ser deixados em paz pelos políticos novamente.
Strauss-Kahn:
Bem, a fraqueza humana é mais forte que a razão.

Spiegel: O presidente-executivo do Goldman Sachs disse após a crise que foi uma "tempestade perfeita" e que você não pode fazer nada para se proteger contra uma tempestade perfeita.
Strauss-Kahn:
Essa metáfora está enganada. A sociedade humana não é uma força da natureza. A crise financeira foi um evento catastrófico, mas criado pela mão humana. A lição que precisamos aprender é que, mesmo uma economia de livre mercado precisa de alguma regulação, de outro modo não pode funcionar. Todas essas ideias sobre a desregulamentação -que mais desregulamentação é sempre melhor e que o mercado pode resolver todos os problemas- ficam bem no papel, mas não funcionam na realidade.

Spiegel: Ludwig Erhard, a mente por traz do "Wirtschaftswunder", o milagre econômico do pós-guerra alemão, percebeu isso há 60 anos. Ele então cunhou o termo "economia de mercado social".
Strauss-Kahn:
Erhard é uma lenda alemã, e suas ideias estão atraindo cada vez mais seguidores no mundo todo. São poucas as pessoas hoje que dizem que não deveria haver mercado. E também são poucas as que defendem ausência de regulamentação. Acho muito interessante que, durante esta crise, todos os governos -liberais ou conservadores- tomaram medidas similares, que foram do estímulo fiscal à re-estruturação do setor bancário.

Spiegel: Neste sentido também, na realidade, pouco mudou. Nos círculos políticos americanos, a motivação pela reforma parece estar desaparecendo.
Strauss-Kahn:
Em geral, compartilho parte de seu ceticismo. Lembro-me muito bem do primeiro relatório sobre as lições da crise. Na reunião do G-7 na primavera de 2008, os problemas do setor financeiro já estavam evidentes. Todos nós concordamos com a maior parte das propostas de reforma, mas 17 meses depois, apenas parte foi implementada. É claro que não é uma tarefa fácil, mas isso me preocupa, particularmente quando penso nos corretores de Wall Street.

Spiegel: O senhor está sugerindo que não terão incentivos para mudarem seu comportamento arriscado?
Strauss-Kahn:
Qual é o sentido de políticos, acadêmicos e autores tirarem lições desses eventos se não alcançarem o jovem corretor no banco? Sem regras, o corretor provavelmente vai recorrer ao seu antigo comportamento. Vai tentar tomar mais riscos para ganhar mais recompensas, porque outra pessoa cobrirá o risco. Isso foi precisamente o que aconteceu há um ano.

Spiegel: Mas a atual resposta à crise não está criando novos riscos? Os banqueiros agora sabem que o governo vai sair em seu resgate quando tudo der terrivelmente errado. Os economistas chamam isso de "risco moral", ou seja, quando os indivíduos têm um incentivo para serem irresponsáveis porque sabem que não serão punidos por seus erros. A queda do Lehman Brothers foi necessária como medida educativa?
Strauss-Kahn:
De uma perspectiva do risco moral, talvez seja a decisão correta deixar um banco falir. Mas as consequências sistêmicas têm que ser levadas em conta e, neste caso, foram severas. Acho que a maior parte das pessoas hoje diria que deixar o Lehman falir não foi uma boa ideia. Mas falar do passado é sempre mais fácil do que prever o futuro. Na época, muitos fatores e cenários precisavam ser considerados em um tempo curtíssimo. Os políticos precisavam tomar uma decisão e precisavam ser rápidos.

Spiegel: Isso significa que, na próxima vez, os diretores-executivos das empresas vão saber que podem contar com o resgate do governo? Por que mudariam seu comportamento?
Strauss-Kahn:
Você se esquece que muitos banqueiros de investimento perderam seus empregos. De qualquer forma, concordo que o sistema de compensação dentro das instituições financeiras deve ser reconsiderado. Fico particularmente interessado no elo entre os incentivos que os corretores têm para tomarem riscos e o impacto que isso tem na economia global, não nas questões éticas - apesar de certamente me perturbarem como cidadão. Contudo, alterar o sistema de compensação não é suficiente - os requerimentos de capital no setor financeiro têm que ser aumentados.

Spiegel: Então, um ano após a queda do Lehman, a sua avaliação é um pouco pessimista.
Strauss-Kahn:
Seria injusto dizer que nada aconteceu, mas é correto dizer que o que aconteceu foi suficiente. Estou esperando que a reunião de cúpula do G-20 em Pittsburgh forneça um novo ímpeto.

Spiegel: O senhor está satisfeito com as conquistas do FMI nesta crise?
Strauss-Kahn:
O FMI tem três papéis diferentes. O primeiro é tentar emitir advertências de crises iminentes. Antes desta crise, não fomos tão claros quanto deveríamos neste quesito. Não falamos suficientemente alto.

Spiegel: Não seria mais honesto dizer que o FMI simplesmente perdeu esse bonde?
Strauss-Kahn:
Quando tudo começou a desmoronar, o FMI foi a primeira instituição entre todos os bancos centrais e grupos de estudo no todo a advertir que esta crise seria muito ampla e severa. Naquela época, fomos fortemente criticados por sermos pessimistas demais.

Spiegel: E o segundo papel do FMI?
Strauss-Kahn:
A segunda parte de nosso trabalho é aconselhar os políticos. Neste quesito, cumprimos nosso papel. Afinal, as principais respostas à crise - estímulo fiscal e re-estruturação do setor bancário, em alguns casos até mesmo assumindo bancos - foram geradas aqui. Foram muito controversas porque foram caras, mas tivemos sucesso. O terceiro papel é nossa função clássica: fornecemos recursos a países em crise financeira.

Spiegel: O FMI tem recursos suficientes para cumprir seu papel no futuro?
Strauss-Kahn:
Hoje temos o compromisso firme dos países membros de US$ 500 bilhões (em torno de R$ 1 trilhão) em recursos adicionais. Temos recursos suficientes para realizar nossas responsabilidades de empréstimo -apesar de estarem se tornando maiores, já que estamos agora lidando com regiões inteiras, não apenas países específicos. Em um mundo globalizado, a crise ultrapassa fronteiras muito mais rápido.

Spiegel: Quanto do dinheiro anunciado em Londres já foi gasto?
Strauss-Kahn:
Cerca de US$ 165 bilhões (R$ 330 bilhões) já foram prometidos a países em necessidade. Isso é o dobro do que emprestamos na crise asiática em meados dos anos 90.

Spiegel: O senhor se preocupa que o FMI poderia ficar sem fundos em breve?
Strauss-Kahn:
No momento, temos fundos suficientes. Mas pode haver um papel adicional para nós no futuro. Para esta nova função, vamos precisar de recursos adicionais.

Spiegel: Qual seria essa função?
Strauss-Kahn:
No passado, muitos países evitaram buscar o FMI porque não queriam se submeter às condições associadas aos nossos empréstimos. Após a crise da Ásia e da América Latina, estes países juntaram enormes reservas em moedas. Isso é compreensível de um ponto de vista político, mas é ruim para suas próprias economias e ruim para a economia global, porque esse dinheiro não está sendo usado para o trabalho, está essencialmente imobilizado. Seria muito melhor ter uma rede de segurança financeira global coordenada pelo FMI que poderia ser usada pelos países em necessidade financeira.

Spiegel: Um tipo de seguro global contra crises financeiras?
Strauss-Kahn:
Exatamente. Não estou dizendo que os países terão 100% de seguro e que não devam ter reserva alguma. Mas faria sentido usar o FMI como um fundo de resgate global. Isso economizaria recursos nacionais e ajudaria a criar estabilidade no sistema econômico global.

Spiegel: Exigiria fundos adicionais, porém. Quanto?
Strauss-Kahn:
Se nossos países membros concordarem com essa função para o Fundo, os recursos adicionais terão que ser calculados. Mas certamente seria muito mais do que temos atualmente.

Spiegel: Muitos gostariam de ver o FMI no papel de um super-fiscal, uma espécie de polícia mundial para o sistema financeiro global. Isso não o interessa?
Strauss-Kahn:
Essa ideia veio de jornalistas, não do FMI. Não queremos o papel de estabelecer padrões. Não temos pessoal suficiente, nem temos o conhecimento adequado. Não vejo o FMI como policial, mas como médico. Damos conselhos ao paciente sobre como ficar saudável. Se adoecer, damos remédios.

Spiegel: Os pacientes, ou seja, os países em geral não gostam do remédio. Muitas vezes reclamam que é amargo demais.
Strauss-Kahn:
Isso também acontece com os médicos de verdade, certo? O Fundo muitas vezes é aquele médico que diz ao paciente para parar de beber porque está doente. O paciente não gosta, mas para de beber - e se sente mal. Ele então culpa o médico por isso.

Spiegel: Contudo, durante a atual crise, vocês foram um médico flexível. Vocês aconselharam os EUA a beberem mais: tomem outro gole de sua garrafa da dívida!
Strauss-Kahn:
Na crise, nossa função e a dos governos é comparável a de bombeiros. Todos nós vimos que a casa estava pegando fogo. Foi preciso jogar muita água para apagar o incêndio. É claro que depois temos que enxugar, mas é melhor ter ensopado a casa do que deixá-la virar cinza.

Spiegel: O senhor tem alguma ideia de quando a casa vai ficar seca novamente, de como as intervenções do governo poderão ser interrompidas? Há alguma estratégia de saída?
Strauss-Kahn:
Concordo, precisamos de uma estratégia de saída e estamos trabalhando nisso. Mas discordo se a sua pergunta implica que devemos considerar sua implementação imediata.

Spiegel: Quantos trilhões de dólares a mais os governos devem continuar a bombear em suas economias?
Strauss-Kahn:
Para muitos - não apenas pessoas comuns, mas também altos políticos - a crise financeira já ficou para trás. Essa forma de pensar é perigosa. A crise econômica mundial continua, apesar de a Alemanha e França terem tido alguns números de crescimento positivos no último trimestre. Contudo, o desemprego deve aumentar por ao menos outro ano e provavelmente terá um pico no meio de 2010. Então, a crise financeira não apenas foi seguida por uma crise econômica, mas também por uma crise social que ainda não atingiu seu clímax.

Spiegel: A pergunta, contudo, permanece: qual é a estratégia de saída? Os bancos centrais e ministérios de finanças serão capazes de puxar todo esse dinheiro adicional dos mercados antes da inflação mundial comer as economias e o poder de compra de bilhões de pessoas?
Strauss-Kahn:
Vamos ter que tirar liquidez do mercado. Não há questão sobre isso.

Spiegel: Mas como?
Strauss-Kahn:
Possivelmente com uma combinação de aumento nas taxas de juros e fim de intervenções diretas por bancos centrais.

Spiegel: Ou o senhor e outros aceitam tacitamente a inflação? Afinal, também ajuda a encolher o valor das dívidas, inclusive as federais.
Strauss-Kahn:
Neste tipo de crise, nenhuma medida é sem risco. Mas a questão é: onde estão os maiores riscos? Em minha opinião, o risco que a demanda seja abafada prematuramente é muito maior hoje do que o risco da inflação.

Spiegel: Pela primeira vez em décadas, os consumidores americanos estão economizando mais. Isso significa que estão cortando o consumo. Isso é bom ou ruim?
Strauss-Kahn:
Ambos. Durante as últimas décadas, os consumidores americanos serviram de motor para o crescimento econômico global. O consumidor americano agora está mudando de comportamento, ao menos a geração entre 25 e 45 anos. Estão economizando mais. Essa tendência vai continuar? Não sei. Mas, se continuar, vai gerar uma nova pergunta. Quem tomará o papel do consumidor americano desempenhou pelos últimos 25 anos?

Spiegel: Consumidores chineses, talvez?
Strauss-Kahn:
Não é evidente que isso vá acontecer, e se acontecer, não vai resolver todo o problema. Os chineses investem primariamente em bens básicos, educação e infra-estrutura. A demanda do consumidor americano é concentrada em outros tipos de bens, especialmente na área de alta tecnologia.

Spiegel: Mas economizar mais não é um bom conselho aos consumidores americanos, após décadas vivendo de crédito?
Strauss-Kahn:
O que é bom para o indivíduo pode criar novos problemas para a economia global. Temos que encontrar novas fontes de crescimento. Não podemos simplesmente dizer que os brasileiros, indianos e chineses vão continuar a consumir mais.

Spiegel: O economista americano e prêmio Nobel Paul Samuelson tem outra solução. Seu conselho aos EUA é desacelerar. Diminuir o capitalismo. De acordo com Samuelson, o crescimento econômico deveria ser menor no futuro, porém mais sustentável.
Strauss-Kahn:
Samuelson está certo - o crescimento provavelmente será menor no futuro. Mas quem quer que sugira a desaceleração do crescimento deve também admitir que isso levará a um índice de desemprego mais alto no mundo.

Spiegel: Obrigado pela entrevista, senhor Strauss-Kahn.

Tradução: Deborah Weinberg

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