"Precisamos de novos bancos", diz historiador britânico

Alexander Jung e Thomas Schulz

Em uma entrevista a "Der Spiegel", Niall Ferguson, historiador da Universidade Harvard, fala sobre a história turbulenta do dinheiro, a inevitabilidade da crise financeira e a influência fatal que os matemáticos têm sobre o sistema monetário.
  • Dewald Aukema/Chimerica Media/Bloomberg News

    Niall Ferguson: "É difícil imaginar um sistema financeiro que jamais enfrentasse a ameaça
    de um colapso. Isso se deve à natureza humana"



Spiegel: Professor Ferguson, você poderia nos mostrar o conteúdo da sua carteira?
Ferguson:
Se você quiser, sem problemas. Dê uma olhada. Tenho cerca de US$ 100s comigo.

Spiegel: Por que as pessoas consideram tão valiosos esses pedaços de papel com impressão verde?
Ferguson:
Esses pedaços de papel são também notas promissórias. Há 4.000 anos, na antiga Babilônia, tabletes de argila cumpriam essa função. Atualmente nós usamos cédulas bancárias. Essas cédulas só valem aquilo que os outros estão dispostos a fornecer em troca por elas. Dinheiro diz respeito a confiança, não importa que forma ele tenha, seja feito de argila, ouro, papel ou um monitor de computador com uma tela de cristal líquido.

Spiegel: O dólar norte-americano perdeu cerca de 86% do seu poder de compra nos últimos 50 anos. Por que uma depreciação em tal escala não abala a confiança no papel-moeda?
Ferguson:
É simples: porque o papel-moeda é muito fácil de usar. Ele proporciona às pessoas uma commodity que pode ser trocada, e uma unidade matemática que é padronizada e geralmente aceita. Isto é algo pelo qual estamos dispostos a aceitar uma certa dose de inflação. É o preço que pagamos para termos um sistema de papel-moeda.

Spiegel: O sistema totalmente baseado em papel não é tão antigo. O dólar foi atrelado ao ouro até 1971. Os metais preciosos não são uma forma bem melhor de pagamento?
Ferguson:
De fato, nos dias de hoje ter dólares na sua carteira de investimentos parece algo atraente, e o ouro possui um atrativo especial. Recentemente eu vi a máscara mortuária de Agamenon em Atenas. Embora tenha sido feita no século 16 antes de Cristo, ela não perdeu nada do seu esplendor. No entanto, não creio que o ouro venha a ter novamente uma função monetária. Por exemplo, pense em como seria pouco prático ter que pagar pelo seu voo até Boston usando ouro. Quanto custou a passagem?

Spiegel: Um pouco menos de 400 euros.
Ferguson:
A preços atuais, isso é o equivalente a quase meia onça de ouro, ou seja, cerca de 15 gramas. Agora, imagine só a quantidade de ouro que você teria que pagar por uma única maçã.

Spiegel: Mas, apesar disso, houve uma relação estreita entre dinheiro e metais preciosos durante séculos, ou até milênios. Por que esse vínculo foi rompido?
Ferguson:
Porque esse sistema revelou-se extremamente inflexível. Se o volume total de dinheiro depender da disponibilidade de metais preciosos, tal volume simplesmente não poderá ser aumentado. Assim, uma carência de ouro ou prata pode limitar o crescimento econômico. O vínculo com o ouro traz consigo o perigo de deflação. Em outras palavras, uma queda constante dos preços que desaceleraria a economia. Por exemplo, o padrão ouro foi uma das causas da deflação sofrida pela Alemanha no início da década de 30.

Spiegel: Você quer dizer que a queda de República de Weimar foi provocada em parte por fatores financeiros?
Ferguson:
A história financeira da Alemanha desempenhou um papel significante na ascensão de Adolf Hitler ao poder. No início do século 20, a Alemanha possuía o melhor sistema educacional do mundo, uma certa tradição democrática e o sufrágio universal. Por que então o fascismo espalhou-se pela Alemanha? Em grande parte devido à série de traumas financeiros que o país sofreu em rápida sucessão: a hiperinflação de 1922 e 1923 e a deflação que acompanhou a crise financeira global de 1929.

Spiegel: Então, que papel o dinheiro desempenha na nossa história, se é que ele desempenha algum papel?
Ferguson:
A ascensão do homem está vinculada a um aumento da importância do dinheiro. O escambo - a troca direta de uma commodity por outra - não era muito eficiente. As deficiências começaram a aparecer com a divisão do trabalho, quando certos indivíduos tornaram-se agricultores, alguns artesãos e outros comerciantes. O dinheiro ajudou-os a negociar entre si. Eu acredito que o dinheiro é a fonte - ou melhor, a parteira - de todo grande avanço feito no decorrer da história.

Spiegel: Essa é uma teoria interessante. Você tem como prová-la?
Ferguson:
A glória de Florença, o boom na arquitetura e no mercado de artes durante o Renascimento, por exemplo, baseou-se no fato de que os Medicis eram banqueiros e fizeram a sua fortuna trocando dinheiro. Sem os Medicis, Botticelli não teria tido a oportunidade de pintar alguns dos seus quadros mais famosos. Ou vejamos a Revolução Francesa. Ela foi, pelo menos indiretamente, uma consequência dos problemas financeiros em que a monarquia se meteu por causa das campanhas militares de Luís XIV, o "Rei Sol". A batalha foi em parte um embate entre dois sistemas financeiros. Os franceses financiaram os seus conflitos militares com saques, enquanto que os britânicos usaram o mercado de ações e contraíram empréstimos. Isso ajudou o Reino Unido a tornar-se uma superpotência.

"A ascensão nunca é inteiramente linear"
Spiegel: A impressão que se tem é que grande parte da história do dinheiro gira em torno do financiamento de guerras.
Ferguson:
As demandas de guerras desempenharam de fato um grande papel. Talvez os Estados tenham começado pela primeira vez a pegar empréstimos quando os venezianos descobriram no século 13 que poderiam financiar as suas guerras mais facilmente tomando dinheiro emprestado dos seus cidadãos do que impondo impostos a eles. Aí está a raiz do mercado de ações. Existe um segredo financeiro por detrás de todo grande acontecimento histórico.

Spiegel: Sem dúvida deve haver também outras influências sobre a progressão da história, as inovações técnicas, por exemplo. O dinheiro não tende a exercer uma influência mais destrutiva?
Ferguson:
Eu creio que o desenvolvimento de sistemas monetários pode ser mais bem comparado a uma cadeia de montanhas. A ascensão nunca é inteiramente linear. Há descidas no meio do percurso, algumas delas acentuadas, mas no longo prazo a direção é nitidamente para cima. Até mesmo os alemães que viveram os períodos de grande inflação, de deflação e as reformas monetárias de 1948 experimentaram subsequentemente uma maior prosperidade do a que conheceram no início do século 20.

Spiegel: Você poderia de forma igualmente fácil alegar que a história do dinheiro é uma série de desastres, falências estatais e perda de dinheiro, não é verdade?
Ferguson:
Quem fizer isso estará focando-se nos momentos da história caracterizados por crises. Isso é compreensível, porque os crashes das bolsas de valores e as desvalorizações monetárias geram manchetes de jornal. Porém, a realidade é que esse tipo de acontecimento constitui-se em exceção, e a estabilidade é a regra, ainda que ela implique em matérias jornalísticas bem mais entediantes.

Spiegel: Mas você não diria que a nossa vida é modelada principalmente por desastres individuais, cujas origens podem também ter uma origem financeira? Tais crises não são inevitáveis?
Ferguson:
É difícil imaginar um sistema financeiro que jamais enfrentasse a ameaça de colapso. Isso deve-se principalmente à natureza humana. Nós frequentemente chegamos a conclusões falsas quanto ao futuro. Os nossos cérebros não estão exatamente à altura dos computadores do século 21. Nós estamos mais bem preparados para caçar animais selvagens no Serengeti. A nossas percepção é extremamente seletiva, e as nossas atitudes mudam esporadicamente. Em determinado minuto somos gananciosos, no próximo ficamos temerosos.

Spiegel: Esse comportamento irracional não é o motivo pelo qual nós só reconhecemos os sintomas das crises quando é muito tarde?
Ferguson:
Na maioria dos casos sim. A instabilidade tem sido parte do sistema financeiro desde que os antigos mesopotâmios começaram a calcular o preço dos grãos com base nas suas previsões relativas à próxima safra. Como você sabe, os especialistas também fizeram previsões erradas sobre a atual crise financeira.

Spiegel: Que aspectos da crise financeira atual são similares aos das crises anteriores?
Ferguson:
A origem da crise é típica: ela começou com um excesso de dinheiro barato, era fácil obter empréstimos, e criou-se uma bolha - neste caso, no mercado imobiliário dos Estados Unidos - que acabou estourando.

Spiegel: Essa bolha poderia ter sido evitada?
Ferguson:
É difícil dizer quando exatamente uma bolha ficou grande demais. Algumas bolhas nunca estouram, permanecendo simplesmente mais ou menos do mesmo tamanho. Outras expandem-se por muito tempo, e depois explodem com um estrondo real. Em 1996, o então presidente do US Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Alan Greenspan, alertou para esta "exuberância irracional", mas a bolha da internet continuou crescendo por mais quatro anos.

Spiegel: Os especialistas também fizeram advertências sobre a bolha imobiliária dos Estados Unidos durante anos, mas pouca gente poderia ter adivinhado as consequências globais do colapso daquela bolha. O que essa crise em particular tem de especial?
Ferguson:
Primeiro, os derivativos desempenharam um papel excepcional, especialmente os credit default swaps, ou swaps de crédito. Segundo, as agências de classificação cometeram um erro notável: elas concederam classificação máxima de crédito a apenas um punhado de companhias, mas classificaram como inofensivos milhares de produtos financeiros estruturados que acabaram revelando-se extremamente duvidosos.

Spiegel: O que acontecerá com o sistema financeiro? Como ele mudará?
Ferguson:
Até onde eu a entendo, a história financeira é essencialmente o resultado da seleção natural. A crise faz parte desse processo evolucionário, e a seleção natural dentro do mercado é a sua força propulsora. A alteração de condições pode fazer com que sistemas complexos entrem em colapso. Assim como ocorreu com os dinossauros, as grandes instituições financeiras estão agora enfrentando dificuldades para lidar com uma mudança drástica no ambiente em que viviam.

"Não se trata de mais regulação, e sim de melhor regulação"
Spiegel: Então, você acredita que, assim como ocorre na natureza, somente o mais apto e mais adaptável sobrevive no mundo financeiro?
Ferguson:
Em princípio, sim. Os protagonistas estão competindo por recursos limitados. Alguns deles têm sucesso por meio da inovação e, desta forma, impedem que se desenvolva uma monocultura.

Spiegel: O presidente alemão Horst Köhler disse: "Os mercados financeiros transformaram-se em um monstro que precisa ser reduzido de tamanho".
Ferguson:
Esse é um comentário tolo. Seria possível, da mesma forma, alegar que a democracia é um monstro. Os nossos sistemas financeiros são simplesmente um reflexo da nossa atividade econômica, e o espelho não é culpado por refletir as nossas falhas. Não devemos demonizar os mercados financeiros. Estamos simplesmente vendo os mercados livrarem-se de tudo o que é "inadaptável e inviável", conforme disse certa vez o economista Joseph Schumpeter.

Spiegel: Mas esse processo é bastante doloroso. Um maior controle estatal não poderia ter prevenido os piores excessos? Desta forma, a culpada pela crise financeira é a desregulação?
Ferguson:
Esse é o argumento popular. Eu creio que isso é bobagem. O processo de desregulação teve início no início da década de 80, e de lá para cá a economia global experimentou um grande crescimento. Além disso, houve também problemas financeiros nas décadas anteriores, quando os mercados eram regulados com muito mais rigor. De forma geral, os bancos são as instituições mais rigidamente reguladas, mas foi neles que a crise começou. O banco de hipotecas Fannie Mae, por exemplo, opera sob a fiscalização direta do Congresso dos Estados Unidos. Portanto, não se trata de mais regulação, e sim de melhor regulação.

Spiegel: No que os reguladores do setor bancário deveriam prestar atenção?
Ferguson:
Eles deveriam prestar uma atenção maior na liquidez. Os bancos concederam empréstimos de longo prazo, mas só eram capazes de obter por si próprios dinheiro em curto prazo. Muitas instituições contraíram dívidas enormes - às vezes 30 ou 40 vezes maior do que o seu capital de equity. Caso surja a seguir um gargalo para o crédito de curto prazo, tal comportamento conduzirá inevitavelmente a um colapso. Além disso, os reguladores não deveriam ter deixado os bancos crescerem tanto. Neste momento, várias grandes instituições encontram-se praticamente falidas. Elas são bancos zumbis: uma metade está morta, mas a outra metade está viva, graças às injeções de dinheiro aplicadas pelo Estado. Precisamos avaliar seriamente por quanto temos seremos capazes de continuar com essa política.

Spiegel: Você está sugerindo que o Estado deveria deixar que os bancos problemáticos falissem?
Ferguson:
Alguns são provavelmente muito grandes para isso. Mas alguns deles deveriam ser contidos de uma maneira controlada. Caso eles continuem recebendo auxílio estatal, os subsídios distorcerão a competição. O sucesso do sistema financeiro depende da sua capacidade de inovar. Precisamos de novos bancos. E temos que procurar formas de desenvolver o nosso sistema monetário.

Spiegel: O que você quer dizer com isso?
Ferguson:
O destino de várias economias mundiais depende neste momento do comportamento do dólar. Se o dólar se desvalorizar, o que é bastante provável, isso será especialmente doloroso para países como o Japão e a Alemanha, cujas exportações tornar-se-ão mais caras. Portanto, interessaria à Alemanha que o sistema monetário fosse modificado.

Spiegel: Como poderia ser um tal sistema novo?
Ferguson:
Talvez um pouco como a situação no século 19, quando havia várias moedas de reserva: a libra esterlina, o dólar norte-americano, o marco alemão e o franco francês. Dessa forma, o domínio do dólar poderia ser reduzido bastante em favor do euro, do iene japonês ou da moeda chinesa, o yuan.

Spiegel: Isso significa que podemos aprender lições com a história das crises financeiras e do dinheiro?
Ferguson:
É claro que podemos aprender com o passado. Desde a Grande Depressão nós sabemos como são perigosas as crises bancárias. Podemos agradecer às nossas estrelas da sorte pelo fato de o US Federal Reserve ser dirigido por Ben Bernanke, um homem que passou toda a sua carreira acadêmica estudando as minúcias da Depressão da década de 30. Foi por isso que ele soube exatamente o que fazer quando a crise surgiu.

Spiegel: Mas nem todo banqueiro ou administrador conta com tal conhecimento histórico.
Ferguson:
Exatamente. As companhias estão repletas de matemáticos que à vezes calculam o "valor que está em risco" baseados em dados de apenas três anos. Quando os modelos não seguem sequer o período de um ciclo normal de negócios nem levam em consideração todos os protagonistas, concentrando-se apenas nos valores das ações ao final do trimestre, não é de surpreender que as pessoas decidam que não existe risco. As lições da história foram ignoradas em todos os níveis.

Spiegel: Então você acha que as companhias deveriam empregar mais historiadores e menos matemáticos?
Ferguson:
Isso não as prejudicaria em nada. História financeira deveria ser pelo menos uma parte significativa de todo currículo de estudos sobre negócios. Esse tipo de conhecimento é demasiadamente importante para deixá-lo a cargo de especialistas como eu. Infelizmente, a maioria das pessoas que leem livros sobre história financeira consiste de banqueiros aposentados. Teria sido melhor se eles tivessem lido esses livros mais cedo.

Spiegel: Professor Ferguson, obrigado por esta entrevista.

Sobre Niall Ferguson
O historiador britânico Niall Ferguson, 45, é atualmente professor da Universidade Harvard. O seu livro mais recente é "The Ascent of Money -- A Financial History of the World" ("A Ascensão do Dinheiro: Uma História Financeira do Mundo"), publicado pela editora Penguin Press, de Nova York. O livro tem 432 páginas e custa US$ 29,95 (R$ 54,12).


Tradução: UOL

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