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18/09/2009

Uma onda de homofobia varre o mundo muçulmano

Der Spiegel
Juliane von Mittelstaedt e
Daniel Steinvorth
Na maioria dos países islâmicos, homens e mulheres homossexuais sofrem ostracismo, perseguição e, em alguns casos, são assassinados. Regimes repressivos frequentemente atiçam as chamas do ódio em uma tentativa de superar os radicais islâmicos na disseminação do "pânico moral".

Homens barbados o sequestraram no centro de Bagdá, o jogaram em um buraco escuro, o acorrentaram, urinaram nele e bateram nele com um cano de ferro. Mas o pior momento para Hisham, 40 anos, ocorreu no quarto dia da provação, quando os sequestradores telefonaram para sua família. Ele ficou apavorado de que contariam para sua mãe que ele é gay e este ter sido o motivo de seu sequestro. Se o fizessem, ele nunca mais poderia ver sua família de novo. A vergonha seria insuportável para ela.

"Façam o que quiserem comigo, mas não contem para eles", ele gritou.

Em vez de humilhá-lo aos olhos de sua família, os sequestradores exigiram um resgate de US$ 50 mil, uma soma imensa para uma família comum iraquiana. Seus pais teriam que se endividar e vender todos as posses de seu filho para levantar o dinheiro necessário para assegurar sua liberdade. Logo após terem recebido o resgate, os sequestradores jogaram Hisham para fora do carro em algum ponto no norte de Bagdá. Eles decidiram não atirar nele e o deixaram partir. Mas eles lhe deram um recado: "Esta é sua última chance. Se virmos você de novo, nós o mataremos".

Isso foi há quatro meses. Hisham mudou-se para o Líbano. Ele disse para sua família que decidiu fugir da violência e terror em Bagdá e que encontrou trabalho em Beirute. Não é preciso dizer que ele não revelou o fato de que está impossibilitado de viver no Iraque devido aos esquadrões da morte que estão caçando homens de "aparência efeminada".

Em Bagdá, uma nova série de assassinatos teve início neste ano, perpetrados contra homens suspeitos de serem gays. Eles frequentemente são estuprados, sua genitália é cortada fora e seus ânus fechados com cola. Seus corpos são deixados em aterros sanitários ou jogados nas ruas. A organização sem fins lucrativos Human Rights Watch, que vem documentando muitos desses crimes, fala de uma campanha sistemática de violência envolvendo centenas de assassinatos.

Restaurando os 'valores morais religiosos'
Acredita-se que um videoclipe mostrando homens dançando uns com os outros em uma festa em Bagdá, em meados de 2008, tenha provocado esta série de sequestros, estupros e assassinatos. Milhares de pessoas o assistiram pela internet e celulares. Líderes religiosos islâmicos começaram a criticar a crescente presença de um "terceiro sexo", que supostamente os soldados americanos teriam trazido consigo. Os seguidores do líder radical xiita Muqtada al Sadr, em particular, sentiram que havia a necessidade de uma ação visando restaurar os "valores morais religiosos".

Em sua fortaleza, a área de Bagdá conhecida como Sadr City, milicianos vestidos de preto patrulham as ruas, à procura de qualquer um cuja "aparência não máscula" ou comportamento possibilite identificá-lo como sendo homossexual. Frequentemente cabelo comprido, camisetas e calças justas ou um certo modo de andar representam sentença de morte para as pessoas em questão. Mas não é apenas o exército Mahdi que está caçando e matando gays. Outros grupos como as milícias sunitas ligadas à Al Qaeda e os serviços de segurança iraquianos também estão envolvidos.

  • Alaa Al Marjani/AP

    Seguidores do líder radical xiita Muqtada al Sadr (foto) sentiram que havia a necessidade de uma ação para restaurar "valores morais religiosos", por isso começaram a perseguir homossexuais



Os homossexuais no Iraque podem estar enfrentando uma situação excepcionalmente perigosa, mas eles sofrem ostracismo em quase toda parte no mundo muçulmano. As organizações de direitos dos gays estimam que mais de 100 mil homens e mulheres gays atualmente são discriminados e ameaçados nos países muçulmanos. Milhares deles cometem suicídio, vão para a prisão ou se escondem.

Os egípcios iniciaram a repressão
Mais de 30 países islâmicos possuem leis que proíbem a homossexualidade e a tornam um crime. Nas maioria dos casos, as punições variam de chicotadas até prisão perpétua. Na Mauritânia, Bangladesh, Iêmen, partes da Nigéria e Sudão, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Irã, homossexuais condenados também podem ser sentenciados à morte.

  • Alaa Al Marjani/AP

    Ex-líder da Malásia, Anwar Ibrahim (foto) foi sentenciado a 9 anos de prisão por supostamente cometer "sodomia" com o chofer de sua esposa

Nos países muçulmanos onde a homossexualidade não é contra a lei, homens e mulheres gays são ainda assim processados, presos e, em alguns casos, assassinados. Apesar de há muito conhecido por sua cena gay aberta, o Egito iniciou recentemente uma dura repressão. As vidas dos homossexuais são monitoradas por um tipo de esquadrão que recruta informantes e emprega escutas telefônicas. Tão logo a polícia acumula o tipo de evidência que precisa, ela acusa as vítimas de "devassidão".

Na Malásia, a homossexualidade é usada como arma política. Em 2000, o líder de oposição Anwar Ibrahim foi sentenciado a nove anos de prisão por supostamente cometer "sodomia" com o chofer de sua esposa, assim como com um ex-redator de discursos. Em 2004, a condenação foi derrubada na apelação e ele foi absolvido. Em meados de 2008, acusações foram feitas contra ele em um caso semelhante, quando um assessor o acusou de sodomia. O caso ainda está em andamento.

Por algum tempo, Anwar era o favorito do ex-primeiro-ministro Mahathir Mohamad e estava sendo preparado para sucedê-lo no cargo, até entrarem em atrito em 1998. Dez anos e algum tempo depois, em 28 de agosto de 2008, Anwar conseguiu ser empossado de novo como membro do Parlamento malasiano. Mas foi o mais longe que conseguiu em seu retorno à política.

Até mesmo no liberal Líbano, os homossexuais correm risco de serem sentenciados a um ano de prisão. Por outro lado, Beirute tem a única organização gay e lésbica no mundo árabe (Helem, que significa 'sonho' em árabe). Há cartazes nas paredes do escritório do Helem no centro de Beirute, fornecendo informação sobre Aids e dicas sobre como lidar com a homofobia. A existência do Helem está sendo tolerada por ora, mas o Ministério do Interior ainda não lhe concedeu uma permissão oficial. "E é difícil imaginar que algum dia receberemos uma", disse Georges Azzi, o diretor administrativo da organização.

Os islamitas são a força cultural dominante
Em Istambul, há uma cena gay livre, um dia da Parada Gay e até mesmo muçulmanos religiosos estão entre os fãs da diva pop transexual Bülent Ersoy e da falecida cantora gay Zeki Müren. Mas fora do mundo do show business é considerado tanto uma desgraça quanto uma doença ser uma götveren ou "rainha". No exército turco, a homossexualidade é causa de reprovação no exame médico. Para identificar qualquer um tentando usar a homossexualidade como desculpa para escapar do serviço militar, os médicos do exército pedem fotos ou vídeos dos recrutas praticando sexo com um homem. E precisam estar no papel "passivo". Na Turquia, estar no papel ativo é considerado másculo o bastante para não ser prova de homossexualidade.

Parece que uma onda de homofobia varreu o mundo islâmico, um local antes amplamente conhecido por sua mentalidade aberta, onde a literatura homoerótica era escrita e amplamente lida, onde os papéis dos gêneros não eram tão estreitamente definidos e, como nos tempos da Grécia antiga, onde os homens frequentemente buscavam a companhia de rapazes.

Os islamitas agora são força cultural dominante em muitos desses países. Eles incluem figuras como o popular pregador egípcio Yussuf al Qaradawi, que sataniza na televisão os gays como pervertidos. Há quatro anos, o grão-aiatolá xiita Ali al Sistani emitiu uma fatwa (trata-se de um pronunciamento legal no Islão emitido por um especialista em lei religiosa, sobre um assunto específico) dizendo que os gays devem ser assassinados da forma mais brutal possível. Esses líderes de opinião religiosa baseiam seu ódio por gays na história de Lot no Alcorão: "Cometeis abominações como ninguém no mundo jamais cometeu antes de vós, procurando sensualmente os homens, em vez das mulheres. Realmente, sois um povo transgressor". O povo de Lot sofreu a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra por seus pecados. O Profeta Maomé diz várias vezes que condena esses atos do povo de Lot e até mesmo chega a pedir pena de morte.

Puritanismo europeu exportado às colônias
A história de Lot e os versos relacionados no Alcorão não foram interpretados como referências não ambíguas ao sexo homossexual até o século 20, disse Everett Rowson, professor de Estudos Islâmicos da Universidade de Nova York. Esta reinterpretação foi resultado de influências ocidentais - sua fonte o puritanismo dos colonialistas europeus que introduziram seu conceito de moralidade sexual nos países recém-conquistados.

O fato é que metade das leis em todo o mundo, que proíbem atualmente a homossexualidade, derivam de uma única lei, que os britânicos aprovaram na Índia em 1860. "Muitas posturas em relação à moralidade sexual, que são consideradas idênticas às do Islã, são culpa mais da rainha Vitória do que do Alcorão", disse Rowson.

Mais do que qualquer outra coisa, é a politização do Islã que tem levado à atual perseguição aos gays. A moralidade sexual deixou de ser um assunto privado. Ele é regulada e disposta pelos governos.

'Os regimes querem controlar a vida privada dos cidadãos'
"Os mais repressivos são regimes seculares como os do Egito ou Marrocos, que estão sob pressão dos radicais islâmicos e tentam superá-los em valores morais", disse Scott Long, do Human Rights Watch. "Além disso, a perseguição dos homossexuais mostra que um regime tem controle sobre a vida privada dos cidadãos - um sinal de poder e autoridade." Por vários anos, um senso de "pânico moral" foi fomentado sistematicamente em muitos países muçulmanos.

O Irã é um caso desses, onde os homossexuais são perseguidos de forma mais ou menos regular desde a Revolução Islâmica. Desde que o presidente Mahmoud Ahmadinejad assumiu o poder, houve certamente um aumento dessa perseguição, apesar de o fato de Ahmadinejad nunca se cansar de enfatizar que não há homossexuais em seu país.

A mera suspeita de que alguém possa ter cometido "atos não naturais" é suficiente para que a pessoa seja sentenciada a chicotadas no Irã. Se pega mais de uma vez, a pessoa pode ser sentenciada à morte. Segundo as estatísticas oficiais, 148 homossexuais foram sentenciados à morte e executados até o momento. O número verdadeiro é sem dúvida muito maior do que este. O último caso deste tipo a chamar atenção pública foi o de Makwan Moludsade, 21 anos, que foi enforcado em dezembro de 2007. Ele foi acusado de ter estuprado três garotos vários anos antes. Os homossexuais quase sempre são acusados de outros crimes como estupro, fraude ou roubo para melhor justificar sua execução.

'Se tivesse ficado, eles teriam me matado'
Como resultado desta situação, milhares de gays e lésbicas fugiram do Irã. Para a maioria deles, a primeira opção é a Turquia. "Eu não tive escolha a não ser fugir", disse Ali, um médico de 32 anos. "Se tivesse ficado, eles teriam me matado."

Ali foi cuidadoso. Ele raramente ia a festas, usava cafés de internet diferentes para sessões de bate-papo online e não contou seu segredo para ninguém, nem mesmo para os membros de sua família. Tudo ia bem até que um dia o pai de seu amigo os flagrou se beijando. Dois dias depois, Ali perdeu seu emprego no hospital e então foi atropelado por um carro, no que pareceu ser um ataque deliberado. Logo depois ele recebeu um telefonema dizendo: "Nós queremos ver você enforcado".

O que ele não sabia era que o pai do seu amigo era um alto oficial da Guarda Revolucionária Iraniana.

Ali foi ao banco, sacou suas economias e tomou um trem para a Turquia, onde pediu asilo. De lá para cá ele vive em um minúsculo apartamento em Kayseri, Anatólia Central, um dos 35 exilados iranianos gays naquela cidade.

Arsham Parsi, 29 anos, de Shiraz, fugiu do Irã há quatro anos. Um homem pequeno com barba e óculos, ele já foi um dos mais procurados no Irã por vários anos, após criar a primeira rede gay do país em 2001. Seus membros se comunicavam uns com os outros apenas por e-mail e muito poucas pessoas sabiam seu nome real.
Mas, no final, sua identidade ainda assim foi revelada. Parsi conseguiu escapar, mas por muito pouco. Ele recebeu um visto para o Canadá, onde fundou a Organização Gay Iraniana, que atualmente conta com 6.000 membros no Irã. Entre eles, estão numerosos transexuais ou pessoas que se consideram transexuais. Parsi estima que "quase metade de todas as operações para mudança de sexo são requisitadas por homossexuais".

Boom de operação de mudança de sexo no Irã
A perseguição de gays levou a um boom da demanda por operações de mudança de sexo no Irã. Mais operações deste tipo são realizadas na República Islâmica do que em qualquer outro lugar no mundo, fora a Tailândia. Esses procedimentos foram aprovados pelo próprio aiatolá Khomeini em 1983. Khomeini definiu a transexualidade como doença que pode ser curada por meio de uma operação. De lá para cá, milhares de pessoas pediram este tipo de tratamento e o governo iraniano até mesmo cobre parte dos custos.

"Parentes e médicos pedem aos homossexuais que se submetam à operação para normalizar sua orientação sexual", disse Parsi. Desta forma, foi possível para um alto líder religioso xiita financiar a transformação física de seu secretário em uma mulher e então se casar com ele.

O ultraconservador Reino da Arábia Saudita é o único país árabe onde a sharia é o único código legal, segundo o qual os homossexuais são açoitados e executados. "Os homossexuais são mais livres aqui do que no Irã", disse Afdhere Jama, que viajou por sete anos pelo mundo islâmico realizando pesquisa para se livro "Cidadãos Ilegais".

Homens e mulheres gays desfrutam de um espaço surpreendente na sociedade saudita. Os jornais publicam histórias sobre sexo lésbico nos toaletes escolares, enquanto é um segredo aberto que certos shopping centers, restaurantes e bares em Jidda e Riad são pontos de encontro gays.

"Há vários homens sauditas que mantêm relacionamentos sexuais com rapazes antes de se casarem ou quando suas esposas estão grávidas", disse Jama. Nestes casos, praticar sexo com outro homem é frequentemente a única forma de ter sexo. Casos extraconjugais com mulheres são quase impossíveis. "No Ocidente, os homens em questão seriam considerados gays, mas em países como a Arábia Saudita é mais difícil de categorizá-los", notou Jama. A maioria dos muçulmanos tem dificuldade em entender o conceito ocidental de "identidade gay". Em seus países não há algo como um estilo de vida gay ou um movimento gay.

Fatores culturais e políticos
Daayiee Abdullah, 55 anos, é um imã. Ele usa turbante, tem barba e é gay. Ele é um dos únicos dois imãs no mundo que são assumidamente gays. Ele optou voluntariamente por seguir o caminho do Islã. Criado como batista em Detroit, Estados Unidos, ele fez amizade com muçulmanos chineses quando estudava em Pequim e então se converteu ao Islã. "Eles disseram que não seria um problema para mim, sendo gay, ser um bom muçulmano."

O imã Abdullah e muitos outros como ele têm uma interpretação um tanto diferente da história de Lot. Segundo eles, aqueles a quem Deus condenou não eram homossexuais, mas sim estupradores e ladrões. Não é a homossexualidade que o Alcorão proíbe, mas sim o estupro. "A rejeição dos gays é resultado de fatores culturais e políticos", ele disse. "Assim como assassinatos em nome da honra e casamentos arranjados. Eles também não estão no Alcorão."

Abdullah vive na capital americana, Washington, D.C., e faz as orações em funerais de gays, particularmente quando morrem de Aids, algo que nenhum outro imã está disposto a fazer. Ele realiza casamentos de mesmo sexo e, nos últimos 11 anos, fornece conselho religioso em um fórum online chamado "Homens Gays Muçulmanos".

Ele recebe regularmente ameaças de morte, mas agora ri delas, dizendo: "Como dois homens se amando representam uma ameaça às fundações estabelecidas por Deus?"

Tradução: George El Khouri Andolfato

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