Propaganda anti-islâmica gera revolta na Suíça

Michael Soukup

Um cartaz com uma muçulmana de xador, cercada por minaretes que parecem mísseis, está causando revolta na Suíça em uma campanha que antecede o referendo no próximo mês pela proibição de minaretes nas mesquitas. A campanha está se provando tão controversa que desagrada até mesmo alguns membros radicais da extrema direita do país.

Wangen Bei Olten já perdeu. O pequeno município nos sopé das montanhas do Jura se tornou lar de um minarete. Os cristãos na aldeia lutaram duro para impedi-lo - coletaram assinaturas, fizeram reclamações oficiais, falaram contra publicamente e até as comunidades católicas e evangélicas registraram sua oposição.

Nada funcionou, contudo. A mais alta corte suíça aprovou o projeto de construção da associação cultural turca local e agora o minarete de seis metros é uma prova material da vitória do Olten Türk Kültür Ocagi.

"O minarete é apenas o primeiro passo", adverte Daniel Zingg viajando por todo o país. O ex-técnico de televisão é membro da União Democrática Federal (EDU), partido cristão de extrema direita. Zingg, 53, vê os minaretes como símbolos das vitórias muçulmanas em terras recém conquistadas, precursores da introdução da lei islâmica.

Como os tempos mudaram na Suíça. Nos anos 60 e 70, políticos em Zurique e Genebra saudaram a construção de duas mesquitas como símbolos da sofisticação e abertura do país. Atualmente, os ativistas suíços contra os minaretes gostam de citar o primeiro ministro turco Recep Tayyip Erdogan: "Os minaretes são nossas baionetas. As abóbadas são nossos capacetes; as mesquitas, nossos quartéis, e os fiéis, nossos exércitos."

Daniel Zingg, por outro lado, foi citado pelo jornal suíço "Tagesanzeiger" como um "soldado de Deus contra a islamização". Até agora, seu maior sucesso foi em Langenthal, que não fica longe de Wangen Bei Olten. Ali, ele conseguiu impedir a construção de um minarete, argumentando que seria fonte de "emissões ideológicas".

Contudo, logo ele poderá ter uma vitória muito maior. No dia 29 de novembro, cidadãos suíços vão responder a um referendo sobre a proibição de construção de minaretes no país. Tal proibição não seria a primeira no mundo. Leis similares existem na Arábia Saudita e Afeganistão - contra a construção de torres de igrejas.

A iniciativa do minarete é tão radical para um país Ocidental que mesmo membros radicais do Partido do Povo Suíço (SVP), de extrema direita, estão inconfortáveis com ela. O ex-presidente do partido e atual ministro de defesa Ueli Maurer disse que não estava "totalmente feliz" com o referendo. Provavelmente fere o direito constitucional de liberdade religiosa e pode danificar ainda mais a fama internacional da Suíça, que já sofreu nos últimos meses com o fracasso UBS nos EUA e as acusações que a Suíça é um porto seguro para devedores de impostos. O caso poderia provocar o mesmo tipo de reação violenta em países muçulmanos que ocorreu com a publicação de cartuns do profeta Maomé em jornais dinamarqueses há quatro anos.

Revolta em todo o país
Como se o próprio referendo já não fosse suficientemente controverso, o SVP lançou uma campanha com material explosivo. Seu cartaz contra os minaretes mostra uma mulher carrancuda com a maior parte do rosto coberta por um xador preto, cercada de minaretes que saem da bandeira nacional suíça como se fossem mísseis. A reação era previsível. Antes mesmo de um único cartaz ser erguido, uma onda de revolta varreu a nação. A Comissão Suíça Contra o Racismo condenou ferozmente a campanha, dizendo: "É uma difamação da pacífica população suíça e ameaça a paz pública no país."

Depois disso, iniciou-se uma série de debates sobre a proibição do cartaz, que serviu de alimento instantâneo para a mídia. Basileia tornou-se a primeira cidade a proibir a exposição da propaganda em público, colocando pressão sobre outras cidades para que fizessem o mesmo. Cada vez que uma cidade falava a favor ou contra a proibição, portais on-line rapidamente informavam a novidade -acompanhando a notícia, é claro, com uma imagem do cartaz. Até agora, as cidades de Basileia, Friburgo, Lausanne, Morges, Neuenburg, Nyon e Yverdon proibiram-no. Contudo, teve permissão de exposição em Biel, Chur, Genebra, Lucerna, Olten, St. Gallen, Winterthur e Zurique.

Em agosto, o comitê da iniciativa reclamou que apenas poucos milhares de francos suíços tinham sido disponibilizados, apesar do fato de uma campanha ampla de referendo custar cerca de meio milhão de francos. O jornal gratuito "Blick am Abend" estimou que o efeito de propaganda de toda a publicidade negativa valeu meio milhão de francos. Os minaretes ficaram no topo das notícias por semanas.

Um alemão por trás da campanha de sucesso
"Quando os políticos ficam frenéticos, Alexander Segert pode descansar", disse a edição de domingo do "Neue Zürcher Zeitung". De fato, é um alemão de 46 anos que está por trás da campanha de sucesso de combate aos minaretes. O homem de Hamburgo mudou-se para a Suíça após completar seus estudos universitários. Ele trabalhou como jornalista para o jornal conservador "Schweizerzeit" e mais tarde para o jornal anti-islâmico "Bürger und Christ", ou "cidadãos e Cristo", no qual escrevia tiradas contra a sociedade liberal. "Fui ativo com o SVP em campanhas de referendos e eleições por anos", disse Segert ao Spiegel Online. Seu trabalho inclui um cartaz infame que mostra os social-democratas como ratos gulosos comendo o país. Outro chegou às manchetes em 2007, retratando três carneiros em uma bandeira suíça chutando uma única ovelha negra, com as palavras "crie segurança". Segert disse ao "NZZ am Sonntag" que também estaria disposto a conceber uma campanha dizendo "Fora alemães!"

Os catalisadores da iniciativa popular foram, espantosamente, os mini-minaretes em Wangen, que simbolizam a crescente confiança da comunidade muçulmana suíça. A população de muçulmanos no país cresceu de 56.000 em 1980 para mais de 400.000 hoje, mas até agora em grande parte praticavam sua religião de forma discreta em mesquitas pequenas. A segunda e terceira geração de imigrantes da Turquia, Bósnia e Albânia agora estão firmemente estabelecidas na Suíça. Isso está causando tensões crescentes com grandes partes da sociedade. Uma recente pesquisa no jornal "Tages-Anzeiger" revelou que 51% dos eleitores se opunham à iniciativa contra os minaretes, e 35% apoiavam-na. "Muitos eleitores indecisos podem mudar para o lado do 'sim'", concluiu o jornal.

Tradução: Deborah Weinberg

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