"O povo no Afeganistão quer mudança", diz o candidato presidencial Abdullah Abdullah

Susanne Koelbl

Na semana passada, o presidente afegão Hamid Karzai concordou em submeter-se a um segundo turno contra seu opositor Abdullah Abdullah. Contudo, muitos estão preocupados que a segunda votação possa ser tão corrompida quanto a primeira. O "Der Spiegel" conversou com Abdullah sobre as fraudes, a necessidade de boa governança e o desejo afegão por mudança.
  • Tyler Hicks/The New York Times

    Tão logo acabou as eleições, o candidato Abdullah Abdullah denunciou as supostas fraudes. Em coletiva de imprensa, segurou um livro inteiro com cédulas preenchidas, aparentemente antes do dia do pleito, todas em favor do presidente Karzai



Spiegel: Há três anos, o presidente afegão Hamid Karzai demitiu-o do cargo de ministro de relações exteriores. Agora o senhor é rival dele no segundo turno. Há uma sensação gratificante?
Abdullah:
Em 2004 decidi não votar nele. Temos ideias diferentes, visões diferentes. Ele acredita em um sistema forte centralizado. Eu acredito em um sistema parlamentar, que é mais descentralizado. Ele acredita nos indivíduos, eu acho que os partidos devem se tornar mais influentes em uma democracia. Eu acredito em uma Comissão Eleitoral Independente verdadeiramente independente, em uma Comissão Constitucional Independente e no judiciário. Ele não. Há, como você vê, uma série de diferenças. A única coisa que temos em comum, praticamente, é que nós dois somos candidatos nas eleições presidenciais.

Spiegel: Ainda assim, em um telefonema recente o senhor congratulou o presidente Karzai por aceitar os resultados eleitorais - após ele anunciar que ia submeter-se ao segundo turno. Foi uma provocação sutil?
Abdullah:
Eu agradeci a ele por aceitar os resultados, mesmo que sua aceitação tenha demorado. Eu disse que um capítulo agora está atrás de nós e que outro capítulo está à nossa frente. Durante a campanha, eu falei ao público sobre Karzai e os fracassos do governo. Então também pode ter havido algumas coisas entre nós. Mas como sou candidato e ele é o atual presidente, é preciso manter as linhas de comunicação abertas.

Spiegel: Nas primeiras semanas após as eleições, vocês dois eliminaram a possibilidade de um governo de união nacional. Na semana passada, houve rumores em Cabul que, sob certas circunstâncias, o senhor estaria preparado para trabalhar junto com Karzai. Há alguma verdade nisso?
Abdullah:
Posso lhe garantir que são apenas rumores. Quero mudança, não apenas um acerto de compartilhamento de poder.

Spiegel: Há uma boa possibilidade que Karzai vença facilmente o segundo turno. Se isso acontecer, o senhor novamente ficará com pouca influência na oposição. Sustentará isso?
Abdullah:
De acordo com a Comissão de Reclamações Eleitorais, a diferença entre o resultado dele e o meu é de cerca de 17%. Deve-se mencionar que o método usado pela Comissão somente identificou uma parte da fraude, mas não tudo. Os verdadeiros resultados teriam sido bem diferentes. Eu via que as pessoas queriam mudança neste país. O segundo turno vai fortalecer a crença do povo no processo eleitoral. É uma necessidade para o ambiente político e vai criar novo momento.

Spiegel: Não foi apenas o partido de Karzai que cometeu fraude. Alguns de seus partidários também foram culpados, mesmo que as irregularidades não tenham sido em ampla escala. O senhor nega isso?
Abdullah:
Houve irregularidades também do nosso lado, não nego. Mas fraude seria uma palavra forte demais para descrever o que ocorreu.

Spiegel: O segundo turno, como o primeiro, novamente custará cerca de US$ 200 milhões (R$ 400 milhões) em dinheiro de doadores internacionais e vai exigir um esforço hercúleo na organização e segurança. Como se pode ter certeza de que será correto e levará a um governo legítimo?
Abdullah:
Esta é uma questão muito séria. Vou propor certas recomendações para aumentar a transparência das eleições, porque as fraudes amplas podem acontecer novamente. Isso não é aceitável. As pessoas na Comissão Eleitoral Independente (CEI) que demonstraram partidarismo, que violaram a lei e trabalharam em favor de um candidato devem ser removidas. Quem participou da corrupção na CEI precisa ser substituído. A CEI precisa ser verdadeiramente independente. Isso é uma obrigatoriedade.

Spiegel: A relação entre os americanos e o presidente Karzai está tensa há algum tempo. O senhor é o candidato preferido dos EUA?
Abdullah:
Felizmente, eles não tinham de fato nenhum candidato favorito. Há cinco anos, era diferente. Naquela época, os EUA claramente apoiavam Karzai. Desta vez, ficaram de lado no processo. Gostei disso. Após a conferência com a imprensa quando os resultados finais foram anunciados, o presidente Barack Obama ligou para mim e para Karzai. Foi uma ligação de cortesia e ele elogiou minha postura, minha atitude responsável. Mas foi uma conversa curta.

Spiegel: A decisão de Obama sobre a nova estratégia do general McChrystal para o Afeganistão está suspensa, esperando um governo legítimo. O Taleban ainda pode ser detido? Como?
Abdullah:
Por anos, venho dizendo que você precisa de um parceiro confiável no Afeganistão. Alguém que possa cumprir o que diz, ou não terá sucesso. A estratégia do general McChrystal está certa, mas é preciso dois para bailar. A outra parte são os afegãos - se fracassarem, não vai funcionar. A legitimidade deve ocorrer pelo processo eleitoral, por meio de eleições livres, justas e transparentes. Assim, as pessoas no Afeganistão terão uma chance de mudança.

Spiegel: Karzai quer negociar com a liderança do Taleban, oferecendo participação no governo se pararem de lutar. Isso funcionaria?
Abdullah:
Acreditar que as negociações com o "Quetta shura" (conselho governante do Taleban) trará paz ao Afeganistão é uma ilusão. Essas pessoas estão destruindo o país, como podemos fazer as pazes com elas? O que é preciso é buscar alcançar o povo do Afeganistão, porque o governo está perdendo seu apoio. Esse é uma das suas principais falhas. Essencialmente, é preciso uma boa governança, que sirva ao povo e que seja responsável. Precisamos de governadores eleitos, e não nomeados. Precisamos combater a corrupção. Ou seja, de todo um pacote de medidas para conquistar a confiança das pessoas.

Spiegel: Uma campanha de eleição é extremamente cara. Como vocês levantaram dinheiro? Em Cabul, dizem que o seu orçamento era de dezenas de milhões de dólares, com grande parte vinda do Irã. Isso é correto?
Abdullah:
(Risadas) Não diria que desejaria isso. Não, certamente posso confirmar que dinheiro estrangeiro não estava envolvido. As contribuições das pessoas foram enormes, muito mais altas que minhas expectativas. Elas investiram em um programa político diferente. Querem mudança.

Tradução: Deborah Weinberg

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