Países se perguntam como a Alemanha evitou o desemprego em massa

Markus Dettmer, Frank Dohmen, Dietmar Hawranek, Janko Tietz

A Alemanha, segunda maior exportadora de bens do mundo depois da China, foi duramente atingida pelo colapso dos mercados globais. Mas o desemprego em massa que alguns temiam não se concretizou. Especialistas em trabalho de muitos países estão se perguntando como a Alemanha fez isso.

Os negócios não estavam indo bem para a Schneider, uma companhia de médio porte no Estado de Rhineland-Palatinado no oeste da Alemanha, no começo do ano. Mas a companhia, que fabrica lentes e filtros para câmeras, não demitiu nenhum de seus empregados. Em vez disso, ela colocou 230 funcionários num programa de redução de horas de trabalho, incluindo Dirk Christian, supervisor técnico de montagem.
  • Tobias Schwarz/Reuters

    Milhares de manifestantes pedem que o governo da chanceler Angela Merkel adote mais medidas contra o desemprego, durante um protesto em Berlim (Alemanha), em maio deste ano

Christian, 33, se valeu de seu tempo livre para reformar seu apartamento - e para se casar. "A redução das horas de trabalho evita a demissão", diz Christian, "o que, é claro, ajuda a tomar decisões importantes na vida, como se casar".

A Alemanha atualmente tem 1,1 milhão de trabalhadores participando de programas de redução de horas, conhecidos na Alemanha como Kurzarbeit. Entre eles estão pessoas como Christian, que não têm trabalho suficiente, mas que apesar disso não são demitidas. Elas ficam em casa por dias ou até semanas, e mesmo assim recebem de 80% a 90% de seus salários, graças aos subsídios pagos pela Agência Federal de Emprego.

Números promissores
Foi em parte por causa dos trabalhadores que estão no programa que o novo ministro do Trabalho da Alemanha, Franz Josef Jung, foi capaz de divulgar um acontecimento surpreendente na última quinta-feira. Em meio à maior crise econômica do país, que levou a quedas dramáticas no volume de pedidos em setores-chave da economia, o desemprego foi apenas meio ponto percentual mais alto em 2009 do que em 2008. "Os números atuais são encorajadores", disse Jung. Há 3,2 milhões de pessoas registradas como desempregadas na Alemanha. No começo do ano, muitos previram que este número subiria para 5 milhões até este outono.

Os números da Alemanha são particularmente impressionantes quando comparados aos de outros países. Embora a Alemanha tenha sido mais afetada pela crise econômica do que a maioria dos países industrializados, ela experimentou um aumento apenas moderado no desemprego. Países como os Estados Unidos, a França e a Espanha, por outro lado, tiveram, além de um encolhimento na economia, uma explosão no desemprego. Nos Estados Unidos, mais de 5 milhões de pessoas perderam seus empregos no período de um ano, e os acontecimentos no mercado de trabalho na França e na Espanha são igualmente desanimadores.

Sindicalistas e políticos ligados ao mercado de trabalho em muitos países estão agora prestando atenção na forma como a Alemanha está conseguindo sair da crise. Seus esforços foram obviamente bem sucedidos até agora, algo que surpreende até os próprios alemães, que previam um outono sombrio para o mercado de trabalho. "Será necessário um milagre para evitar que cheguemos aos 5 milhões de desempregados", disse o economista Michael Burda, de Berlim, numa previsão de setembro.

Havia uma "ameaça de que depois da eleição para o Bundestag, as companhias partiriam para as demissões em massa", disse o CEO da Bosch Franz Fehrenbach, mas segundo ele, isso "não acontecerá, pelo menos não na extensão que temíamos". E Berthold Huber, presidente do sindicato dos metalúrgicos IG Metall, diz: "a onda de demissões previstas não se materializou ainda".

Há explicações para esses acontecimentos surpreendentemente positivos. Entre elas estão os programas de redução de horas de trabalho, cuja duração foi gradualmente aumentada de seis para 24 meses nos últimos anos. Além disso, o governo anterior, da "grande coalizão" dos Sociais Democratas (SPD) de centro-esquerda com a União Democrática Cristã (CDU) da chanceler Angela Merkel, livrou completamente as companhias do peso de pagar contribuições de seguridade social para seus funcionários a partir do sétimo mês de expediente reduzido.

Entretanto, a redução das horas de trabalho para 1,1 milhão de trabalhadores corresponde a apenas cerca de 335 mil empregos de tempo integral. Mesmo sem os programas de redução de expediente, o desemprego dificilmente teria atingido os níveis que haviam sido previstos. Acordos entre sindicatos, conselhos empresariais e executivos corporativos proporcionaram à Alemanha um pouso relativamente seguro até agora. Bancos de horas e parcerias de trabalho forneceram às companhias alemãs uma flexibilidade excepcional. Em muitas companhias, os funcionários que fazem horas-extras durante um momento de grande produção recebem crédito no banco de horas em vez de pagamento. Essas horas podem então ser resgatadas durante uma crise, quando os funcionários trabalham menos e continuam a receber seu salário normal.
  • Volker Hartmann/AFP

    Homem aguarda na fila de serviço alemão de assistência aos desempregados, em Duesseldorf



Como sobreviver à crise sem demitir trabalhadores
Algumas companhias estavam tão bem preparadas para uma possível crise, que foram capazes de sobreviver relativamente bem a um declínio quase inacreditável nos negócios. A divisão de caminhões do Daimler Group, que emprega mais de 70 mil pessoas em todo o mundo, só conseguiu vender neste ano metade do número de caminhões que vendeu no ano passado, e mesmo assim não demitiu nenhum de seus funcionários na Alemanha.

"Na pior das hipóteses" que imaginou, Andreas Rencschler, membro do quadro administrativo da Daimler responsável pela divisão de caminhões, estava se preparando para uma queda de 30% nas vendas. Seu objetivo era garantir que a divisão de caminhões, que é particularmente suscetível às flutuações econômicas, não entrasse no vermelho no minuto seguinte à uma crise econômica. Durante a fase de crescimento, que durou até 2008, a Daimler quase não contratou novos funcionários. Em vez disso, os funcionários trabalhavam em turnos especiais e acumularam até 300 horas-extras cada em seus bancos de horas. Agora que a crise econômica cortou as vendas pela metade, os empregados estão trabalhando menos, o que fez com que seus bancos de horas ficassem negativos.

Além disso, a redução do expediente foi introduzida para parte da força de trabalho. Para outros funcionários, a gerência e o conselho de trabalhadores concordaram com uma redução de 8,75% nas horas de trabalho, com uma redução proporcional no pagamento. Além disso, a companhia agora usa cerca de 1.700 trabalhadores temporários a menos em suas fábricas de caminhão na Alemanha.

A Daimler também fabrica caminhões na Ásia, na América do Norte e do Sul. Renschler conhece os prós e contras dos vários locais de produção. A Daimler demitiu trabalhadores no Japão e nos Estados Unidos. Na Alemanha, essas medidas drásticas não estão nos planos, nem mesmo no ano que vem. "É aqui que temos a maior flexibilidade", diz Renschler.

Leis trabalhistas nos diferentes países
Nos Estados Unidos, as companhias podem usar uma ferramenta de redução de expediente em alguns Estados, como Nova York e Califórnia. Em outros lugares, como na Holanda e na maioria dos países europeus, funcionários que estão trabalhando horas reduzidas não recebem subsídios do governo para compensar por seus salários perdidos. Na Grécia e na Itália, o apoio financeiro do governo é restrito ao trabalho temporário sazonal, nos casos de hotéis e restaurantes que ficam fechados durante o inverno. Mas os trabalhadores da indústria não podem participar desses programas.

As leis trabalhistas na Áustria, Suíça, Espanha e França são mais semelhantes às da Alemanha. Mas a Áustria é o único país que segue o exemplo da Alemanha, e paga as contribuições de seguridade social para trabalhadores com jornada reduzida durante até 24 meses. Na Alemanha, uma em cada cinco companhias ajustou seu expediente de trabalho para acompanhar o volume de pedidos, acumular horas-extras e, quando o volume de pedidos está baixo, reduzir as horas de trabalho. Apenas 12% de todas as companhias se valem dessas medidas na França, 10% na Grã-Bretanha, 7% na Espanha e 6% na Itália.

Os acordos das companhias que fornecem horas de trabalho flexíveis com frequência não são possíveis em outros países. No Brasil, França e Espanha, por exemplo, há normalmente inúmeros sindicatos que não concordam entre si, e quase sempre um sindicato impede que se chegue a acordos com as companhias. Quando acontece uma crise, as demissões normalmente são a única opção dos administradores.

O fato de que muitas companhias alemãs façam todo o possível para manter sua força de trabalho tem a ver com as experiências do crescimento econômico prévio, quando, repentinamente, faltaram trabalhadores capacitados. Companhias como a Schneider em Bad Kreuznach dependem de trabalhadores capacitados. A Schneider fabrica lentes de alta qualidade, não só para câmeras e projetores de cinema, mas também para a NASA e o sistema de pedágio das rodovias alemãs.

"Se demitíssemos nossos funcionários", diz o CEO da Schneider Josef Staub, "não conseguiríamos encontrar trabalhadores capacitados durante o período de recuperação subsequente."

Primeiro, os funcionários esgotaram seus bancos de horas, nos quais haviam acumulado até 200 horas-extras cada. Depois disso, muitos foram enviados para o programa de trabalho de curto prazo, com exceção dos funcionários de pesquisa e desenvolvimento e de vendas - o motivo é que, durante o período de lentidão, os engenheiros melhoram os produtos e o pessoal de vendas trabalha ainda mais agressivamente para garantir pedidos. A estratégia funcionou, disse Staub, principalmente na Ásia.

Outra razão pela qual a Schneider evitou as demissões é que os funcionários também se mostraram flexíveis em outro aspecto: ao aceitar transferência para outros locais onde há trabalho suficiente para fazer. Alguns funcionários concordaram em ser transferidos de Bad Kreuznach para uma fábrica em Dresden, enquanto outros foram de Göttingen no centro da Alemanha para Bad Kreuznach. Aqueles para quem não havia trabalho frequentaram treinamentos financiados em parte pelo ministério do Trabalho. Agora os pedidos aumentaram novamente. Em outubro, 180 empregados, incluindo Dirk Christian, já recém-casado, saíram do programa de horas reduzidas e voltaram a trabalhar em tempo integral. A redução de horas é ideal para casos como o da Schneider.
  • Tobias Schwarz/Reuters

    Desoneração O governo anterior, da "grande coalizão" dos Sociais Democratas (SPD) de centro-esquerda com a União Democrática Cristã (CDU) da chanceler Angela Merkel, livrou completamente as companhias do peso de pagar contribuições
    de seguridade social para seus funcionários a
    partir do sétimo mês de expediente reduzido



Planejamento falho
Em outras companhias, entretanto, os programas de redução de expediente e de bancos de horas não conseguiram evitar as demissões. A fornecedora de peças automotivas Karmann, por exemplo, está demitindo metade de sua força de trabalho. A companhia entrou com pedido de proteção à falência, e se o Grupo VW não seguir adiante com os planos de adquirir a Karmann, todos os seus 1.600 funcionários remanescentes também ficarão sem trabalho. A fabricante de aço ThyssenKrupp cortou 13 mil empregos só no último ano fiscal, e de acordo com documentos de planejamento interno, a companhia cortará sua força de trabalho ainda mais no próximo ano fiscal. Ela planeja eliminar aproximadamente mais 20 mil postos de trabalho em todo o mundo, incluindo cerca de 10 mil na Alemanha, até setembro de 2010. Quando as vagas forem cortadas, elas não serão preenchidas novamente, e divisões inteiras serão vendidas ou fechadas.

Esses cortes drásticos também são conseqüência de um mau planejamento de negócios. A ThyssenKrupp havia se planejado para uma fase de crescimento. "Tudo na companhia foi expandido além do que era necessário", diz um gerente sênior.

Mas quando veio a crise, a demanda por aço e navios entrou em colapso. A ThyssenKrupp acredita que terá um prejuízo de meio bilhão de euros em seu ano fiscal mais recente. Os executivos da ThyssenKrupp dizem que há setores nos quais a Alemanha não é mais competitiva, como a construção de conteiners para navios, que agora é dominada pelas economias emergentes. Esses setores, segundo os executivos, precisam ser totalmente abandonados, e não faz nenhum sentido manter as divisões ligadas a eles funcionando artificialmente com programas de redução de expediente. Por esse motivo, a ThyssenKrupp cortou seu número de funcionários com horas reduzidas em mais da metade, de 49 mil para 20 mil.

Representantes trabalhistas da companhia, como Bruno Fischer do ThyssenKrupp Gerlach, uma subsidiária que fornece peças para fabricantes de automóveis, protestam contra a redução dos programas de redução de expediente. Fischer quer usar a redução de expediente para garantir os 950 empregos na fábrica da companhia em Homburg, no sudoeste da Alemanha, até o final de 2010, para ver se a situação melhora até lá. A gerência, por outro lado, quer cortar 350 empregos - 150 deles imediatamente, se possível. Fischer, membro do conselho dos trabalhadores, diz: "Nós faremos o protesto crescer, se for necessário."

Redução de expediente não é uma solução a longo prazo
Os acontecimentos na ThyssenKrupp mostram que as atuais estatísticas favoráveis de desemprego na Alemanha são apenas um breve momento no tempo. Elas não provam de forma alguma que a Alemanha já superou o pior da crise. O diretor-executivo da Basf Jürgen Hambrecth diz que as vendas de sua companhia ainda estão 20% a 25% mais baixas. Levará anos para que a companhia volte aos níveis de 2008. "Não saímos da crise ainda", diz Hambrecht.

Todas essas ferramentas que protegeram a Alemanha contra o aumento drástico do desemprego até agora só são efetivas por um período curto de tempo. Os programas de bancos de horas e de redução da jornada de trabalho podem ajudar a passar pela crise, mas não são substitutos para empregar toda a força de trabalho por mais um ou dois anos. Mas se as vendas não se fortalecerem até lá, eles também não conseguirão evitar as demissões.

A Agência Federal de Emprego está cautelosamente otimista para o futuro próximo. Nenhum de seus indicadores sugere que haverá demissões em massa no futuro próximo. A agência, com sede em Nuremberg, espera, todavia, um aumento leve, ajustado sazonalmente, no emprego durante os próximos meses. Mas Frank-Jürgen Weise, chefe da agência, alerta contra o otimismo exagerado. "Estamos evitando a crise com muito dinheiro", diz ele.

O governo está gastando 5 bilhões de euros (R$ 12,8 bilhões) este ano apenas nos programas de redução de horas de trabalho - 5 bilhões por um pequeno milagre no mercado de trabalho, mas com uma vida limitada. Está "totalmente claro", diz o chefe da agência de emprego, "que não veremos os efeitos reais até o ano que vem."

Tradução: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos