A luta desesperada de Medvedev contra a corrupção

Uwe Klussmann e Matthias Schepp

Não é todo dia que um membro graduado do círculo mais interno do poder escreve um livro revelador no qual ele descreve o fim do próprio sistema que criou. E isso explica por que um livro, escrito sob um pseudônimo, mas que acredita-se ser obra de um certo Vladislav Surkov, está causando furor em Moscou. Surkov é o principal ideólogo do Kremlin ou, conforme o descreve o general aposentado da KGB, Alexei Kondaurov, seu ex-parceiro político, um "gênio do cinismo".

O romance, "Okolonolya" ("Próximo a Zero"), está sendo classificado como "ficção de gangsterismo", mas os gângsters políticos descritos nas suas
112 páginas são muito reais. O autor pinta um quadro chocante da capital russa, com o seu comércio de "escritórios, medalhas e bônus". É um local no qual as verbas do governo são sugadas e injetadas nos bolsos de mulheres, amantes e sobrinhas. "A corrupção e o crime organizado, ao lado das escolas e da polícia, são os pilares da ordem social", explica um oficial do serviço de inteligência que é colega do personagem principal.

Provavelmente não existe nenhum outro país europeu - nem a Itália de Silvio Berlusconi, nem a Romênia pós-comunista - no qual os cargos políticos e a riqueza estejam tão fortemente entrelaçados quanto na Rússia. "Esse mal criou raízes profundas no nosso país e assumiu formas particularmente repugnantes", disse o presidente Dmitry Medvedev em uma entrevista a "Der Spiegel" no início de novembro. O suborno e o nepotismo são encontrados em todas as estruturas públicas, desde o sistema de saúde até os tribunais. No ano passado, a Rússia ficou empatada com o Quênia, Bangladesh e a Síria no 147º lugar na Lista de Percepção da Corrupção elaborada pela Transparência Internacional.

"Desde a liderança política até os governos locais, nós estamos emaranhados na corrupção", afirmou Medvedev, acrescentando que este mal tornou-se bastante aceito pela população russa. "Nos países de vocês, na Europa, os motoristas não retiram automaticamente as carteiras dos bolsos ao serem parados por um policial de trânsito", disse o presidente aos jornalistas. Segundo Medvedev, a ideia de que o suborno se constitui em crime precisa ser assimilada pelos cidadãos.
  • AFP

    O presidente Dmitry Medvedev tem tomado medidas para combater a corrupção, mas os seus apelos para melhorar a situação não têm surtido efeito



Prisões arbitrárias
Alguns dias depois, um perturbado policial da cidade portuária de Novorossiysk, no Mar Negro, fez denúncias na internet. Alexei Dymovsky, da divisão de combate ao narcotráfico, denunciou os depoimentos obtidos por meio de extorsão, provas forjadas e prisões arbitrárias. Ele escreveu que gravou 150 horas de declarações comprometedoras feitas por seus colegas e superiores, e disse que desejava falar com o primeiro-ministro Vladimir Putin em pessoa. Pouco depois, um ex-policial da República de Komi acrescentou os seus comentários, escrevendo a respeito "das investigações fabricadas contra cidadãos inocentes". Aquele foi um raro exemplo de funcionários públicos rebelando-se publicamente contras os seus superiores e as condições em que se encontram as instituições policiais na Rússia. Dymovsky foi imediatamente demitido.

Segundo a pesquisa, os únicos indivíduos que os russos temem mais do que a própria polícia são os terroristas. Somente 30% da população acredita que os policiais respeitam a lei. De fato, a corrupção permeia todos os aspectos da vida cotidiana na Rússia, o país de maior área territorial do mundo. Um cidadão russo precisa pagar propina para marcar uma cirurgia com um bom médico, comprar para a filha preguiçosa as notas escolares necessárias para que ela seja aceita em um curso universitário ou convencer funcionários públicos entediados a prorrogar o prazo de validade de seu passaporte para uma viagem planejada de férias.

Os empresários evitam inspeções constantes por parte do corpo de bombeiros e das agências de saúde pública e meio ambiente entregando envelopes com dinheiro a funcionários públicos. Segundo um estudo feito pela Fundação Ciência da Informação para a Democracia, com sede em Moscou, todos os anos, na Rússia, paga-se um total de US$ 319 bilhões
(R$ 548 bilhões) em propinas. Com uma população de
142 milhões de habitantes, isso equivale a uma média de mais de US$ 2.000 (R$ 3.400) por pessoa.

5% para as autoridades
Em um pequeno escritório no subsolo, perto do Kremlin, Vladimir Ryzhkov, um político oposicionista e ex-membro do parlamento russo, está compilando uma lista de casos em que burocratas arrancaram propinas de companhias. Em Krasnoyarsk, uma cidade siberiana de cerca de um milhão de habitantes, uma companhia que fabrica móveis teve que desembolsar dezenas de milhares de rublos em propinas para que funcionários do governo certificassem os seus produtos. Em Izhevsk, uma cidade menor situada entre o Rio Volga e os Montes Urais, uma companhia de construção civil paga uma taxa ilegal de 5% às autoridades por cada contrato firmado.

Funcionários públicos e políticos ocultam estes seus lucrativos negócios usando parentes e laranjas. "A maioria dos burocratas faz negócios por fora", acusa Ryzhkov. A construção de alguns quilômetros de novas estradas custa ao contribuinte russo quatro vezes mais do que na Europa.
Isso se deve em parte aos invernos rigorosos do país, mas, também, em grande escala, ao fato de o pagamento de propinas ser a regra, e não a exceção, em se tratando de concessão de contratos pelo governo.

Para Ryzhkov, a separação entre o poder político e a corrupção econômica não passa de conversa fiada. "Se a revista de negócios 'Forbes'
publicasse uma lista honesta dos russos mais ricos, a metade da lista seria composta por ministros e outras autoridades governamentais", afirma Ryzhkov.

Processos contra jornalistas
Como proprietária de uma companhia de construção civil, a mulher do prefeito de Moscou, Yury Luzhkov, amealhou uma fortuna de bilhões de dólares. O prefeito, que está no cargo há 17 anos e é também um membro graduado do partido de Putin, o Rússia Unida, explica que o sucesso da mulher se deve aos seus excepcionais talentos empresariais. Luzhkov deve ter percebido esses talentos quando a sua atual mulher ainda era a sua secretária. O casal tem movido com sucesso processos judiciais contra os jornalistas que acusam os dois de praticar nepotismo.

Como o povo russo sabe que os seus líderes continuam a encher os bolsos com dinheiro público, o apelo de Medvedev por uma reforma moral de pouco adianta no âmbito da sociedade como um todo. Para que se perca toda a esperança, basta observar mais detalhadamente o parlamento do país, a Duma. Ao contrário do parlamento alemão, ou Bundestag, a Duma não é um conjunto de advogados e funcionários públicos, mas sim um clube de celebridades e milionários. Além de ex-atletas famosos, as cadeiras do parlamento russo estão preenchidas pelos novos ricos e, ocasionalmente, por sombrios "bisnesmeni". É um segredo de Polichinelo o fato de que muitas cadeiras nos parlamentos custaram aos seus donos milhões de dólares.

Após o colapso da União Soviética e o período de capitalismo descontrolado da década de 90, uma ordem social com traços feudais estabeleceu-se na Rússia; um sistema no qual os líderes políticos comportam-se como senhores feudais no controle das suas propriedades.

O primeiro-ministro Putin arrumou empregos para amigos e aliados em companhias governamentais recém-criadas. O seu colega, Medvedev, ansioso para expandir a sua própria base de poder, está atualmente perseguindo esse indivíduos. Em um caso específico, a procuradoria-geral investigou a Companhia Russian Venture, que teria embolsado irregularmente cerca de 600 milhões de euros (R$ 1,54 bilhão), o que resultou na renúncia do diretor da empresa.

Reino dos ricos
Mais de 100 milhões de euros (R$ 257 milhões) em verbas da companhia estatal de aviões OAK e das suas subsidiárias foram desviados para a aquisição de companhias de construção naval no leste da Alemanha, que foram subsequentemente privatizadas por meio de companhias offshore. Os estaleiros, nos portos bálticos de Warnemünde e Wismar, faliram. A procuradoria pública de Moscou está atualmente investigando o caso.

Membros da Duma relatam casos de ministros que só aprovaram verbas para a modernização de aeroportos de províncias depois que companhias associadas a eles receberam contratos de construção antecipadamente, sem licitação.

Até mesmo o Partido Comunista encontrou o seu nicho no novo capitalismo russo e no reino dos ricos. Enquanto o presidente do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, criticava incansavelmente a "legitimidade do capitalismo crítico" no "Pravda", o jornal do partido, os seus colegas na Duma obtinham grandes vantagens do sistema. O seu colega de partido Igor Edel é uma prova viva de que é possível atacar o "capitalismo burocrata" e, ao mesmo tempo, beneficiar-se dele. Edel, um ex-comerciante atacadista, administra uma companhia estatal de construção de estradas na área de Moscou. Ele é também membro do parlamento.

Muito tarde para consertar?
Os jornais de Moscou de vez em quando publicam matérias sobre as disparidades entre os salários dos políticos e os seus dúbios rendimentos secundários. Em um determinado caso, Lyubov Sliska, o vice-presidente da Duma, que ganha um salário mensal equivalente a 1.600 euros (R$ 4.100), declarou que 85 mil euros (R$ 218 mil) em dinheiro vivo, bem como relógios e joias caros, foram levados da sua casa em um roubo ocorrido em 2006. E, conforme foi anunciado pelo respeitado jornal empresarial "Wedomosti", o presidente tchetcheno Ramzan Kadyrov foi visto usando um relógio de 200 mil euros (R$ 514 mil), enquanto que o vice-prefeito de Moscou, Vladimir Resin, aparentemente exibe um magnífico relógio DeWitt Pressy Grande Complication - que custa cerca de 700 mil euros (R$ 1,8 milhão). Os relógios de 7.000 e 21 mil euros (R$
18 mil e R$ 54 mil) usados, respectivamente, pelo primeiro-ministro Putin e o presidente Medvedev, são, em comparação, francamente modestos.

Medvedev está introduzindo novas leis para o controle da corrupção - na tentativa de acabar com a autêntica zombaria que esta prática se constitui para com os seus planos de reforma e modernização. Ele está aposentando governadores que durante anos administraram os seus distritos como se fossem senhores feudais e está exigindo que os ministros e autoridades do governo revelem os seus bens.

Medvedev é também o patrão de Vladislav Surko, o vice-chefe da administração do Kremlin, e o suposto autor do romance "Próximo a Zero".
O livro-revelação termina com a sentença otimista: "Não é muito tarde para consertar a situação". Será que não?

Tradução: UOL

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