Jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo viram foco de desentendimento internacional

Siobhán Dowling

Não é frequente que o esporte se torne objeto de disputas diplomáticas. Mas duas partidas eliminatórias para a Copa do Mundo e altamente polêmicas fizeram com que nesta semana o futebol se tornasse manchete global. A Argélia e o Egito viram-se envolvidos em uma séria disputa, enquanto o governo irlandês fazia reclamações a Paris.

"Algumas pessoas acreditam que o futebol seja uma questão de vida e morte... Posso garantir a vocês que esse esporte diz respeito a algo bem mais sério do que isso", afirmou certa vez o lendário dirigente do Liverpool, Bill Shankly.
  • EFE

    Polícia tenta dispersar torcedores egípcios reunidos diante da embaixada da Argélia no Cairo


Isso se tornou mais evidente nesta semana, quando nações inteiras agitaram-se com fúria e ressentimento após duas partidas bastante polêmicas que eram parte das eliminatórias para a Copa do Mundo da África do Sul. As emoções ficaram tão intensas que a cobertura dos jogos saltou das editorias de esporte para tornarem-se notícia de primeira página. E governos de países da Europa e do Norte da África apressaram-se com satisfação a embarcar nas controvérsias futebolísticas para afastarem-se um pouco dos problemas políticos e econômicos domésticos.

Enquanto a controvérsia em torno da partida entre a Irlanda e a França girou em torno de um incidente durante um jogo, quando o flagrante domínio da bola com a mão por parte de Thierry Henry classificou "Les Bleus", a hostilidade entre Egito e Argélia foi provocada por violentos incidentes fora de campo. O enorme protesto na Irlanda fez com que o governo solicitasse uma repetição do jogo, e o primeiro-ministro irlandês Brian Cowen chegou até a levar a questão ao presidente francês Nicolas Sarkozy.

Enquanto isso, a Argélia, uma ex-colônia da França, está às voltas com um intenso desentendimento diplomático com o Egito devido ao vandalismo de torcedores. A Argélia classificou-se para a Copa do Mundo na noite da última quarta-feira ao derrotar os egípcios por 1 a 0. O jogo de desempate fez-se necessário depois que uma vitória do Egito no sábado passado, no Cairo, colocou as seleções dos dois países no mesmo patamar no topo do grupo.

Orgulho nacional

A fúria cresceu no Egito em resposta a notícias de ataques contra torcedores egípcios após o jogo da quarta-feira, que foi disputado no vizinho Sudão. Na noite de quinta-feira e, novamente, na manhã da sexta-feira, manifestantes reuniram-se em frente à Embaixada da Argélia no Cairo, atirando pedras e coquetéis Molotov contra a polícia e queimando bandeiras argelinas.

Na quinta-feira o Egito chamou de volta o seu embaixador na Argélia para consultas e convocou o enviado argelino no Cairo, Abdelkader Hadjar, para protestar oficialmente contra os ataques. Esta foi a segunda convocação do gênero recebida por Hadjar em um período de sete dias. Ele havia sido convocado na semana passada, depois que torcedores argelinos atacaram casas e estabelecimentos comerciais egípcios em Argel após a vitória dos Faraós no sábado.

As tensões vinham se acumulando depois que o ônibus da equipe argelina foi alvo de ataques antes da partida no Cairo - um incidente que a Federação das Associações Internacionais de Futebol (Fifa) está no momento investigando.

A Argélia, o país que tem no capitão francês Zinedine Zidane o seu cidadão favorito, foi tomado de um frenesi de febre futebolística ao tentar se classificar para a Copa do Mundo. O grande país norte-africano, que tem uma população de 34 milhões de habitantes, participou pela última vez da maior competição internacional de futebol em 1986, pouco antes de mergulhar em uma sangrenta guerra civil entre islamitas e o governo, um conflito interno que provocou a morte de mais de 150 mil pessoas. Agora o país está jubilante, já que a atenção mundial em relação à Argélia se focará em algo que não seja guerra e sofrimento. "A Argélia não significa terrorismo, imigração ilegal e miséria social", proclamou com satisfação o jornal "Soir d'Algerie", na última quinta-feira. "Somos finalmente um país capaz de alçar-se ao nível das grandes nações do mundo".

No futebol, tais expressões de orgulho são comuns. "A Copa do Mundo é o torneio usado pela maioria dos países para se autoavaliar", explica Alan Bairner, especialista em esporte e identidade nacional da Universidade Loughborough, no Reino Unido.

"Esta é a forma mais visível como as nações são representadas no cenário global", diz ele. E a classificação para a Copa do Mundo significa que a Argélia "chegou lá". Ele observa que é muito significativo o fato de que vários jogadores nascidos na França e descendentes de argelinos estejam neste momento decidindo jogar pela Argélia. Isso faz parte de uma nova autoconfiança, segundo a qual os países deslocam-se "para além da situação colonial".

É claro que esse orgulho nacional alimentado pelo futebol está ajudando a desviar as atenções de problemas mais graves. O presidente Abdelaziz Bouteflika tem enfrentado uma convulsão social devido a uma série de problemas, desde o desemprego até o aumento do preço dos alimentos, e é provável que a classificação para a copa distraia a população por algum tempo. Nacer Jabi, um sociólogo da Universidade de Argel, disse à agência de notícias "Reuters": "Por um breve período, no momento da vitória e da euforia, as pessoas se esquecerão dos seus problemas".

Isto não é algo que se possa dizer aos desapontados torcedores de futebol da Irlanda. Neste momento em que o país enfrenta uma drástica redução de verbas para o próximo orçamento, padece de um desemprego crescente e é obrigado a engolir um programa de socorro aos bancos profundamente impopular, o governo teria sido perdoado por torcer para que o orgulho irlandês pudesse brilhar na África do Sul no próximo mês de junho e desviar parte das atenções que atualmente se concentram nas agruras econômicas da Irlanda. "A Irlanda está mergulhada nas profundezas da crise econômica", afirma Barnier. "E a classificação para a Copa do Mundo teria sido o grande impulso do qual o país necessita".

Os olhos irlandeses não estão sorrindo

Foi então que surgiu a "main de Dieu" (mão de Deus, em francês) de Henry. A seleção irlandesa pode ter apresentado o melhor desempenho na quarta-feira, mas quando o capitão francês controlou a bola duas vezes com a mão antes de passá-la para William Galas para que este marcasse o gol, as esperanças dos irlandeses foram destruídas. O ódio manifestando desde então fez com que Thierry Henry se tornasse a figura mais difamada do esporte mundial. O grupo do Facebook "Nós Odiamos Thierry Henry" conta com milhares de membros e o jogador francês tornou-se um dos principais temas da rede social Twitter na quinta-feira.

Inevitavelmente, teorias conspiratórias já estão surgindo. Alguns acusaram a Fifa de tentar assegurar que, por ser um país pequeno, a Irlanda ficasse em desvantagem em relação à França, uma nação de 65 milhões de habitantes, e que foi a vencedora da Copa do Mundo de 1998, além de ter disputado a final da Copa de 2006. A Fifa modificou as regras de desempate selecionando equipes para a fase de classificação segundo as suas colocações mundiais, em uma tentativa de garantir que as grandes potências futebolísticas não se eliminassem mutuamente.

O governo irlandês não perdeu tempo em se pronunciar vigorosamente contra a mão de Henry. O incidente foi discutido na quinta-feira no parlamento irlandês e o ministro dos Esportes, Martin Culen, escreveu ao presidente da Fifa, Sepp Blatter, rogando a este que marcasse uma outra partida, enquanto o primeiro-ministro Cowen comentou a questão com Sarkozy às vésperas da noite em que haveria a reunião de cúpula da União Europeia. Sarkozy manifestou a sua simpatia pelos argumentos dos irlandeses, mas recusou-se a se deixar arrastar para a polêmica. "Não me peçam para substituir o juiz, nem as autoridades francesas de futebol, nem as autoridades futebolísticas europeias: me deixem bem aqui onde eu estou", disse o presidente francês.

Entretanto, qualquer centelha de esperança de que a partida pudesse ser disputada novamente devido aos intensos protestos populares foi apagada. Na sexta-feira (20), a Fifa divulgou um comunicado dizendo: "O resultado não pode ser modificado, nem a partida jogada novamente... As decisões são tomadas pelo juiz, e essas decisões são definitivas".

Tradução: UOL

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