A fábrica de guerra dos fuzileiros navais dos EUA

Marc Pitzke, em Parris Island

Todos os anos, 21 mil novos recrutas são transformados em guerreiros no campo de treinamento dos Corpo de Fuzileiros Navais em Parris Island. Como o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, está enviando mais tropas para o Afeganistão, dentro de apenas alguns meses muitos deles estarão embarcando em um avião para a zona de combate.

Os comandos berrados pelo sargento ecoam pelas árvores. A boca dele está a apenas alguns centímetros do rosto do recruta, soltando saliva e suor. As veias do sargento estão dilatadas; os braços tatuados fazem volume sob a camiseta.
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    Todos os anos, 21 mil novos recrutas são transformados em guerreiros no campo de treinamento dos Corpo de Fuzileiros Navais em Parris Island. Em meses, eles poderão lutar no Afeganistão

"Você quer voltar para casa?", grita o sargento. "Não senhor!", responde o recruta, de forma seca.

"Você quer que eu conte a sua mãe?".

"Não senhor!".

"Comece de novo!".

"Sim senhor!".

Este é um dia úmido e enevoado em Parris Island, uma ilha pantanosa do Estado da Carolina do Sul, na região do Deep South (literalmente, "Sul Profundo", região formada pelos Estados da Carolina do Sul, Geórgia, Alabama, Mississípi e Louisiana) dos Estados Unidos. Quando o sol nasce, várias dezenas de adolescentes com face de aparência infantil, todos uniformizados, já se apresentaram em uma floresta de pinheiros onde são guiados impiedosamente pelos instrutores por um percurso de obstáculos que os castiga. Eles são obrigados a pendurar-se em cordas e barras, equilibrar-se em troncos de árvore e rastejar na lama. Os recrutas escalam muros e atravessam valas cheias de água. Uma placa próxima diz "Praça Leatherneck" (o termo leatherneck - literalmente, "pescoço de couro" - é usado informalmente para designar um fuzileiro naval).

Todas as vezes em que os jovens perdem o fôlego e são incapazes de completar a última barra ou flexão de braços, ou ainda quando não executam uma saudação perfeita, a gritaria recomeça. "Volte para casa!", o instrutor ordena a um recruta que fracassa pela terceira vez. O recruta é dispensado, mas ele deverá tentar novamente no dia seguinte - tentar até que acabe conseguindo.

Focados com orgulho na missão
Isto não é nenhuma brincadeira. Parris Island é o famoso campo de treinamento do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (United States Marine Corps, ou USMC) - uma instalação de fama mítica dedicada ao treinamento de um ramo das forças armadas que se considera o mais duro do mundo. É nesta área fechada ao público, de frente para Port Royal Sand, no Oceano Atlântico, que os recrutas transformam-se em fuzileiros, em um curso de 12 semanas que é capaz de fazer com que homens crescidos chorem. O objetivo é fazer jus ao lema lendário: "The Few. The Proud. The Marines" ("Os Poucos. Os Orgulhosos. Os Fuzileiros Navais.").

Nesta semana vemos um regime de treinamento com tonalidades políticas. É quase certo que aqueles que conseguirem chegar a Parris Island irão para o Iraque ou, talvez mais provavelmente, para o Afeganistão, em uma questão de meses.

Embora a atenção da maioria dos norte-americanos tenha se desviado da guerra, os fuzileiros navais focam-se com orgulho na missão.

"Iraque!", berra o instrutor.

"Fallujah!", respondem os recrutas.

"Afeganistão!".

"Kandahar!".

Após semanas de intensa deliberação, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deveria ordenar o envio de cerca de 30 mil soldados adicionais para o Afeganistão na terça-feira (01/12). Muitos dos primeiros a seguirem para aquele país serão membros do Corpo de Fuzileiros Navais. Obama pretendia explicar a sua estratégia ao povo norte-americano em um pronunciamento televisionado na terça-feira feito na Academia Militar dos Estados Unidos em West Point. No entanto, os combatentes desta guerra vêm de outros lugares - como o sujo campo de treinamento em Parris Island.

Os garotos que caminham penosamente por esta floresta têm 17 ou 18 anos de idade. Eles são pálidos e têm espinhas no rosto, e estão ainda tentando ingressar na sua nova realidade. Eles chegaram aqui há apenas 15 dias - na calada da noite, vindos de cidades de todos os Estados Unidos.
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    Recrutas Embora a atenção da maioria dos
    norte-americanos tenha se desviado da guerra, os fuzileiros navais focam-se com orgulho na missão



"De uma forma ou outra"
A "Praça Leatherneck" é onde se separa o joio do trigo. No treinamento, que também é conhecido como "curso de confiança", todos têm que completar com sucesso uma série de testes físicos e mentais - incluindo as mulheres. Parris Island é o único local em que o Corpo de Fuzileiros Navais treina recrutas do sexo feminino.

"O recruta tem que concluir isso aqui, de uma forma ou outra", explica o sargento Chris Stephenson, 30, um dos instrutores do local. "Nós estamos treinando para o campo de batalha".

Ele sabe sobre o que está falando. Como a maioria dos militares de Parris Island, Stephenson é veterano de guerra. Atualmente ele preserva a sua voz para os gritos fazendo gargarejos todas as manhãs com suco de limão.

"Pare de futucar o rosto!", grita Stephenson para um pobre recruta que coça o nariz.

A gritaria durante o treinamento é uma espécie de tradição. O Centro de Recrutas do Corpo de Fuzileiros Navais em Parris Island transforma civis em soldados, e seres humanos em guerreiros, desde 1915. O próprio campo, que fica duas horas ao sul de Charleston, é uma cidade militar completa - dotada de alojamentos de tijolos, belas casas para os oficiais, uma igreja e até mesmo um cinema - tudo isso cercado por pântanos infestados de jacarés.

Todas as semanas Parris Island produz centenas de novos fuzileiros navais. A instalação é uma autêntica linha de produção para a guerra. Todos os anos mais de 21 mil homens e mulheres são formados pelo campo, após completarem um treinamento cujo objetivo principal é destituí-los de suas individualidades.

Cinco mil calorias diárias
"Nós os quebramos", afirma a tenente-coronel Gabrielle Chapin, uma oficial pequena e forte, que usa os cabelos escuros enrolados em uma massa compacta. "E depois nós os reconstruímos".

Um dos recrutas é Eric Fisher. Fisher, que é do Estado de Virgínia, está sentado no "Chow Hall", conforme é conhecido o cavernoso refeitório, durante um intervalo para o almoço entre o treinamento de combate e aulas de história. O prato dele está cheio com galinha, batatas fritas, salada, um pedaço enorme de bolo de chocolate e uma banana. Os oficiais dizem que um recruta de Parris Island queima diariamente 5.000 calorias.

O flautista e a guerra
Fisher, 18, é acima de tudo um fã da música. "Clássica, orquestral, qualquer coisa", diz ele. O seu compositor favorito é John Philip Sousa, o "Rei das Marchas" dos Estados Unidos, cuja música "Stars and Stripes Forever" ("Estrelas e Listras para Sempre") é a marcha oficial do país. Fisher é capaz de tocá-la de cor na sua flauta.

Mas antes de começar a sua carreira como flautista de concertos, este rapaz negro de face angelical decidiu experimentar uma outra ocupação - a de soldado de elite, um emprego à prova de crises econômicas. Qual o papel desempenhado pela recessão na decisão dele? "Cinquenta por cento, senhor", diz ele.

Pronto para seguir para a guerra? Ele não sente alguma hesitação - por exemplo - quanto ao Afeganistão? "Não senhor", garante Fisher com um sorriso raro e tímido. "Estou pronto para servir o meu país".

"Transformação impressionante"
Esta é uma frase que aqui se ouve por toda a parte - de recrutas, dos oficiais e do coronel Eric Mellinger, o comandante de Parris Island, que retornou ele próprio em julho de um período de serviço no Afeganistão. "Nós pegamos um civil e o transformamos em um fuzileiro naval pronto para combate", explica o coronel. "Aquilo que fazemos aqui é realmente miraculoso. É uma transformação impressionante".

Alguém poderia também chamar o curso de lavagem cerebral. O processo tem início no momento em que os novos recrutas chegam em ônibus, vindos do aeroporto de Charleston. "Você come, dorme e respira em equipe!", grita um instrutor para os recrutas que estão em fila no prédio de recepção. "As palavras 'eu' e 'meu' não constam mais do vocabulário de vocês!".

"Capacidade física e mental. Qualidades de liderança. Nenhum registro criminal". Essas, segundo o sargento Earl Blue, são as exigências básicas para o ingresso no Corpo de Fuzileiros Navais. Blue é um recrutador. Ele viaja pelo país, visitando diariamente escolas de segundo grau e estimulando os alunos a participarem do esforço de guerra. Se os estudantes têm menos de 18 anos, ele tem que solicitar a permissão dos pais. Mas, em todos os casos, Blue gosta de conversar com os pais. "Até mesmo um fuzileiro naval necessita de uma opinião positiva da família", explica o sargento.

Especialmente quando eles retornam do front. Os horrores da guerra são raramente discutidos em Parris Island - pelo menos quando há visitantes por perto. "Essa é uma força composta inteiramente de voluntários", explica a tenente-coronel Chapin, evitando uma pergunta sobre como os fuzileiros navais estão sendo psicologicamente preparados para o combate. "Não tenho mais nada a declarar sobre isso".

Há estresse envolvido
Por ordem do Corpo de Fuzileiros Navais, todos os oficiais em Parris Island precisam ser treinados em "gerenciamento de estresse" e em "conscientização quanto ao suicídio", entre outras coisas. "Nós reconhecemos que há estresse envolvido. Sim, esta dinâmica está presente", admite o coronel Mellinger. "Não há nenhum embaraço quanto a isso. Eles não têm por que sentir vergonha".

"Nós conversamos sobre morte e coisas desse tipo. Sim senhor", diz o recruta Fisher. "Tudo o que aprendemos tem um propósito". Porém, não há dúvidas quanto ao processo, acrescenta o colega de pelotão de Fisher, John Smith, um jovem de 18 anos de Atlantic City. Matar ou morrer? "Este é o meu trabalho". Smith decidiu se alistar em 11 de setembro de 2001, quando ainda estava na sexta série.

A cerimônia de formatura dos últimos 528 recrutas ocorre no pátio de paradas, varrido pelo vento, em frente a centenas de familiares. Há discursos, marchas e orações feitas pelo capelão. "Oh, Deus, nós o agradecemos por nos dar a força e a disciplina necessárias para que nos tornemos fuzileiros navais dos Estados Unidos". O mascote do centro de treinamento também é exibido; um cão da raça buldogue chamado Hummer (que tem a patente de cabo).

"Alguém tem que fazer isso"
Quando a cerimônia termina, os novos fuzileiros navais se apressam a abraçar os familiares, que eles não veem e com quem não falam há meses. Alguns mal conseguem conter as lágrimas. Eles obtêm uma licença de dez dias até se apresentarem às suas unidades. A maioria será enviada ao front "dentro de um ano", afirma o coronel Mellinger.

"Me sinto muito bem quanto a isso", diz o recruta recém-formado no curso David White, ajeitando o seu uniforme. "Agora eu verei o mundo". O pai dele, enxugando os olhos úmidos, não compartilha dessa empolgação. "Estou um pouco assustado", diz ele. "Este é o meu filho mais velho".

A seguir ele se controla, dá um sorriso corajoso e acrescenta: "Ele está servindo o seu país. Alguém tem que fazer isso".

Tradução: UOL

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