"Ataques de aviões não-tripulados dos EUA são contraproducentes", diz premiê paquistanês

Em entrevista ao "Spiegel", o primeiro-ministro do Paquistão, Yousuf Raza Gilani, fala sobre o combate ao terrorismo em seu país, o futuro do Afeganistão e por que os ataques de aviões não-tripulados americanos fazem mais mal do que bem.
  • AFP

    Yousuf Raza Gilani: "É claro que há militantes paquistaneses [no Taleban], mas as insurgências são movidas por elementos estrangeiros



Spiegel: Primeiro-ministro, o Paquistão está cada vez mais afligido por ataques terroristas. Nas últimas semanas, o número de assaltos aumentou notavelmente. Além disso, seu governo está em guerra com militantes no Waziristão. O senhor ainda gosta de ser primeiro-ministro?
Gilani:
Assumi uma responsabilidade especial em uma situação única do meu país. O Paquistão é um Estado que está na linha de frente em um conflito que vai decidir a paz, o progresso e a prosperidade não apenas do Paquistão ou do Sul da Ásia, mas do mundo todo. Então, você pode imaginar qual é o meu papel. Pessoalmente, sinto que é nosso dever cumpri-lo com sucesso. Quanto as nossas atividades militares no Waziristão do Sul, eu primeiro segui uma política de diálogo e desenvolvimento. Mas quando o país foi desafiado pelos militantes, não houve opção senão uma ação militar.

Spiegel: Muitas pessoas no Paquistão consideram essa abordagem uma guerra contra o próprio povo do país.
Gilani:
As pessoas que estamos combatendo são militantes. Eles não são do Paquistão; são uzbeques, tchetchenos, árabes e afegãos. Eles cooperam com agentes estrangeiros para perturbar a paz no Paquistão.

Spiegel: O senhor está dizendo que não há paquistaneses no Taleban?
Gilani:
É claro que há militantes paquistaneses, mas as insurgências são movidas por elementos estrangeiros.

Spiegel: Deixe-me adivinhar: o senhor acredita que o serviço de inteligência indiano está por trás disso.
Gilani:
De fato, até certo ponto há muita interferência no Afeganistão. Essa opinião não é apenas nossa, mas também dos EUA.

Spiegel: Mas não há prova de envolvimento indiano.
Gilani:
Não estou dizendo que há. Porém, a insurgência no Afeganistão foi analisada por muitos especialistas, inclusive por centros de estudo americanos, e eles mencionaram isso.

Spiegel: O senhor está falando sobre o Afeganistão, mas o Paquistão foi repetidamente descrito como o "lugar mais perigoso do mundo". O senhor não acha que é fácil demais dizer que apenas elementos estrangeiros são os responsáveis?
Gilani:
O mundo se concentra sempre no terrorismo no Paquistão. Isso, é claro, prejudicou a reputação de nosso país. Não devemos esquecer que há tantas outras áreas e avenidas que vão bem no Paquistão. Apesar de todas as coisas que estão acontecendo aqui, há tantos lugares que não são afetados pelo terrorismo. Estamos dando muita segurança para os empregados aqui, também para os que vêm de outros países. Há muitos engenheiros, por exemplo. Infelizmente, vemos muitas oportunidades perdidas para investimento por causa desse foco no terrorismo - que prejudica não apenas o Paquistão, mas também os investidores estrangeiros. Não dá para ver que há muito desenvolvimento no Paquistão?

Spiegel: O senhor está desapontado com a opinião do mundo sobre o Paquistão?
Gilani:
O Paquistão não deveria ser retratado apenas como um país em guerra. Quando houve a invasão soviética no Afeganistão, muitos aliados combateram os invasores. Fazíamos parte dessa aliança. Após essa guerra, o mundo esqueceu desta região, e o vácuo foi preenchido por militantes. Estamos enfrentando esses problemas até hoje. Eles foram jogados sobre nós.

Spiegel: Já que vocês estão permitindo que os EUA executem ataques com mísseis de aviões não-tripulados contra militantes em território paquistanês ao longo da fronteira com o Afeganistão, porque não os deixam ajudá-los com soldados em território paquistanês?
Gilani:
Não impedimos que eles nos ajudem. De fato, temos uma cooperação multidimensional com os EUA, em defesa e inteligência, mas também nas áreas econômica, comercial, de desenvolvimento, educação em saúde e até em assuntos culturais. Esses ataques de aviões não-tripulados, contudo, são contraproducentes.

Spiegel: Verdade? O líder do Taleban paquistanês, Baitullah Mehsud foi morto por um avião não-tripulado americano. Isso não é um sucesso?
Gilani:
A orientação política e militar foi muito bem sucedida em isolar os militantes das tribos locais. Contudo, quando há um ataque de avião não-tripulado na região, eles se unem novamente. Essa é uma tendência perigosa, e é minha preocupação e do exército. Também é contraproducente no sentido que está criando muito sentimento antiamericano em todo o país. Para combater os militantes no Waziristão, contudo, temos que levar o público conosco. Não se pode entrar em uma guerra sem o apoio das massas. Precisamos de enorme apoio popular para combater o terrorismo. Mas não conseguimos isso se há interferência americana, que não pedimos.
  • Rizwan Tabassum/AFP

    Ativista paquistanês do partido fundamentalista islâmico Jamaat-i-Islami participa de um protesto em Karachi contra a presença americana no país e os ataques com mísseis em áreas tribais

Spiegel: Não importa o que os americanos façam, sempre haverá um sentimento antiamericano.
Gilani:
Neste instante, toda a nação está defendendo nossa ação militar porque sente que o terrorismo é uma ameaça.

Spiegel: Nas últimas poucas semanas, visitaram Islamabad a secretária de Estado, Hillary Clinton, o assessor nacional de segurança, James Jones, e o diretor da CIA, Leon Panetta. Foram tentativas de melhorar a imagem dos EUA aqui?
Gilani:
A guerra no Waziristão é nossa. Quando há interferência americana, como no caso dos aviões não-tripulados, o público começa a pensar que é uma guerra dos outros. Às vezes, o sentimento público é bastante antiamericano. Por isso estamos convencendo Washington que deveria haver mais cooperação nos campos de defesa e inteligência. E cooperação significa cooperação, não agir sem nosso consentimento. Ao mesmo tempo, também precisamos de um equilíbrio regional. Não deve haver uma impressão que os americanos estão fazendo algo para os indianos. Se isso acontecesse, então a opinião pública se voltaria totalmente contra os americanos.

Spiegel: O senhor é a favor da presença dos EUA no Afeganistão? Quando se retirar, não haverá equilíbrio algum na região.
Gilani:
A estabilidade do Afeganistão é de interesse do Paquistão. Estamos lidando com milhões de refugiados no Paquistão, e eles estão aqui há décadas. Agora eles se fundiram a nossa sociedade, estão fazendo negócios aqui e seus filhos cresceram aqui. Há muita atividade na fronteira também. Por isso precisamos de um Afeganistão estável. As pessoas devem poder voltar para seu país com dignidade.

Spiegel: Então o senhor apoia a nova estratégia do presidente Barack Obama, dos EUA, de primeiro aumentar o número de soldados para depois deixar o Afeganistão em um futuro próximo?
Gilani:
Defendemos qualquer política que seja do interesse do povo afegão. O principal objetivo deve ser a estabilidade da região.

Spiegel: O retrato que o senhor está traçando não é exatamente ideal para atrair mais investimento estrangeiro. Nesta semana o senhor está visitando a Alemanha para tentar realizar exatamente isto. O que o senhor vai dizer às empresas alemãs?
Gilani:
Novamente, não devemos nos ater ao terrorismo. O país inteiro não está sendo atacado por terroristas. Somente áreas específicas -aquelas próximas à fronteira com o Afeganistão -são afetadas e temos muito sucesso em lidar com a situação. Em nenhum lugar no mundo há 2 milhões de refugiados sendo enviados de volta as suas casas em 10 semanas, como aconteceu após nossa ação militar no vale Swat neste verão. Isso não tem precedentes na história mundial. Portanto, estamos confiantes até sobre o Waziristão do Sul. Já assumimos redutos militantes, o que nunca aconteceu antes na região. Ao mesmo tempo, há muito investimento já chegando ao Paquistão.
  • Tyler Hicks/The New York Times

    Soldados paquistaneses organizam patrulha por áreas tribais de Jaamat, no Waziristão do Sul



Spiegel: Isso não parece suficientemente convincente para empresas alemãs.
Gilani:
Temos um relacionamento especial com a Alemanha. O Paquistão e a Alemanha foram os primeiros países no mundo a assinarem um tratado de investimento bilateral, em 1959. Por que não deveríamos continuar esse bom relacionamento? A Alemanha já é nosso quarto maior investidor; a União Europeia é o número um.

Spiegel: O senhor pode imaginar o que o público alemão diria se fabricantes de armas alemães investissem no Paquistão?
Gilani:
Estamos buscando investimentos em todos os campos. Temos muitas oportunidades, por exemplo, no setor agrícola ou nos campos de geração de energia e infra-estrutura.

Spiegel: Houve muitas reportagens nos últimos meses sobre os planos do Paquistão de comprar submarinos alemães, algo muito controverso na Alemanha dada a situação política no Paquistão. O senhor também planeja falar sobre a compra de submarinos durante sua visita a Berlim? Ou o seu governo já decidiu comprar submarinos franceses em vez disso?
Gilani:
Vai levar algum tempo. O general do exército com quem falei sobre isso na quinta-feira disse que estamos avançando. Isso está relacionado a várias questões de defesa, não apenas com a questão da qual você está falando, mas posso garantir que há uma cooperação de defesa com a Alemanha e que estamos já no processo de assinar um memorando com os alemães.

Spiegel: Senhor primeiro-ministro, muito obrigado pela entrevista.

Tradução: Deborah Weinberg

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