À espera do veredicto pelo homicídio de Meredith Kercher

Alexander Smoltczyk Em Perugia (Itália)

É aguardado para esta semana o veredicto no processo por homicídio de Meredith Kercher, a estudante de intercâmbio britânica que foi esfaqueada na Itália em 2007. Os principais réus, Amanda Knox e Raffaele Sollecito, podem ser sentenciados à prisão perpétua se forem considerados culpados.

O papel dos jurados talvez seja mais fácil quando o crime deixa alguma pista no semblante do perpetrador. Mas o rosto de Amanda Knox, jovem americana, não traz traços do assassinato brutal do qual está sendo acusada. Será por que é inocente?
  • Tiziana Fabi/AFP

    A norte-americana Amanda Knox é escoltada por policiais para a corte de Perugia, na Itália

Meredith Kercher, estudante de 21 anos de Southwark, que fica perto de Londres, estava estudando na Itália como parte do programa de intercâmbio Erasmus, da União Europeia. Seu corpo foi encontrado no dia 2 de novembro de 2007 no apartamento que dividia na Via della Pergola, em um subúrbio de Perugia. Ela tinha sido esfaqueada até a morte. Nos últimos dois anos, um tribunal em Perugia vem tentando encontrar o perpetrador com as poucas evidências encontradas no apartamento.

O assassinato de Kercher não teria atraído a atenção mundial se não envolvesse outra questão existencial: é possível que duas pessoas basicamente agradáveis, jovens, atraentes e promissoras estuprem e brutalmente assassinem uma amiga -sem motivo aparente, sem justificativa ou compaixão?

"Anjo inocente"
"Sim", diz Giuliano Mignini, promotor do caso, em seu discurso de seis horas. Ele conta os detalhes do crime antes de atingir o clímax: sim, diz ele, Amanda Knox cometeu o homicídio, levada por seu narcisismo e pela "frieza", agindo por "motivos desprezíveis", porque estava cheia de ódio de um "anjo inocente". Os outros dois réus, Raffaele Sollecito e Rudy Guede, foram influenciados por Knox, diz Mignini.

Mignini está pedindo prisão perpétua para Knox, inclusive nove meses de confinamento solitário - o tipo de sentença normalmente usado para os chefões da máfia. Knox, que está sentada a dois metros de Mignini, tem cerca de 1m60. Ela está com cabelos soltos e usa uma jaqueta com capuz. Um guarda de ombros largos está atrás dela.

Por horas, Knox escuta os promotores como se estivesse ouvindo uma palestra: atenta, com as sobrancelhas ligeiramente unidas, tomando notas ocasionalmente. Depois de um tempo, ela perde a atenção, desenhando flores e rabiscando em seu bloco de notas.

Para apresentar sua teoria aos jurados, Mignini fez um filme de animação de 23 minutos com a progressão dos eventos segundo sua visão, algo como um Second Life. Mostra avatares com uma semelhança impressionante aos modelos de vida real cometendo o assassinato.

Homicídio brutal
De acordo com a versão dos eventos de Mignini, Knox e seu namorado, Sollecito, um jovem italiano de família rica, tinham passado a noite juntos no apartamento de Perugia, onde encontraram Rudy Guede, imigrante da Costa do Marfim que ganhava a vida traficando pequenas quantidades de drogas.

Pouco após as 23h, os três réus aparentemente decidiram tomar um último drinque no apartamento da Via della Pergola, onde Mercher Kercher já tinha ido dormir. Kercher, de acordo com o promotor, estava chateada porque Knox tinha trazido para casa dois homens, algo que aparentemente já tinha feito antes. De acordo com Mignini, surgiu uma discussão entre as duas sobre seus estilos de vida diferentes e sobre o aluguel que não tinha sido pago. Então, Knox teria batido cabeça de Kercher contra um armário, diz Mignini.

A animação do promotor descreve o crime da seguinte forma: Kercher cai no chão e os outros três começam a despi-la. Kercher luta, Sollecito pega seu canivete e Knox pega uma faca na cozinha. Guede tenta estuprar Kercher, Sollecito a fere e Knox finalmente a mata cortando sua garganta. Os três fogem do apartamento. Mais tarde, Knox e Sollecito voltam para fingir um assalto e limpar suas digitais.

O indiciamento é baseado em evidências circunstanciais e em poucos testemunhos. As testemunhas incluem um albanês que alega ter visto o casal naquela noite. Os investigadores encontraram traços misturados do DNA de Knox e de Kercher em cinco pontos. O DNA de Knox foi encontrado no cabo da faca de cozinha e na lâmina foi encontrado um pequeno traço do sangue de Kercher. A faca tinha sido cuidadosamente limpa, quase cuidadosamente demais. Entretanto, havia pouco sangue para permitir um teste suficiente da amostra.

Sem confissão ou motivo
Guede é o único suspeito que admitiu ter estado na cena do crime naquela noite. Ele alega que teve diarreia e estava sentado no vaso quando o homicídio foi cometido. Em outubro de 2008, Guede foi condenado a 30 anos de prisão. Ele não implicou Knox e Sollecito na época, mas agora pela primeira vez testemunhou que viu Knox e Sollecito fugindo da cena do crime juntos.

Sollecito está sentado a poucos metros de sua antiga namorada. Com o laptop aberto e debruçado sobre documentos, ele nem olha para o promotor nem faz contato visual com Knox. Sollecito não prestou testemunho no julgamento. As duas equipes de defesa já impediram que qualquer um dos réus incriminasse os outros.

Os advogados de defesa repetidamente argumentaram que a única evidência é circunstancial e que não há provas claras, nem confissão ou motivo. Eles devem sua vitória mais importante ao trabalho forense mal feito. Por exemplo, apesar dos investigadores terem encontrado traços do DNA de Sollecito no sutiã da vítima, este ficou jogado na cena do crime por dias após o assassinato. Além disso, as autoridades não mudaram de luvas quando mexeram nas evidências. São erros sérios.

Questões chave
Giulia Bongiorno, advogada e assessora jurídica do partido Povo pela Liberdade, do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, faz parte da equipe de defesa. Ela já defendeu com sucesso o ex-primeiro-ministro Giuliu Andreotti contra acusações de envolvimento com a máfia. Tampouco esses advogados de alto perfil têm respostas para certas questões.

Nem Knox nem seu namorado Sollecito têm um álibi para o momento do assassinato. Os promotores têm evidências que os dois desligaram seus telefones celulares ao mesmo tempo, antes do assassinato, depois os religaram de madrugada -apesar de os dois terem dito que dormiram até 10h da manhã.

Na Itália, as circunstâncias que acompanham um crime muitas vezes são levadas mais a sério do que na Alemanha, particularmente quando os réus se contradizem. Knox inicialmente afirmou -sob pressão da policial que a questionou, disse - que tinha visto Patrick Lumumba, seu chefe no bar chamado "Le Chic", na cena do crime naquela noite. Como resultado dessa declaração, Lumumba passou 10 dias na prisão antes de ser inocentado.

Os jornais italianos deram relatos detalhados do comportamento de Knox imediatamente após o assassinato de sua colega de quarto, de como deu cambalhotas e fez ginástica na sala de espera na delegacia de polícia. Seu comportamento no tribunal também não ajudou. Ela flertou com jornalistas e parecia mais interessada em sua aparência do que nas acusações.

"Uma morte nojenta"
Os jurados ficaram chocados quando pediram que Knox explicasse os detalhes do assassinato em seu primeiro interrogatório, e por que foi capaz de imitar os gritos de Kercher quando estava sendo morta. Knox, falando na gíria de estudante, disse: "Foi uma morte nojenta. Eu imaginei uma morte lenta, uma morte, chocante, asquerosa, nojenta."

O rosto de Madonna de Knox também comove aqueles que querem ajudar a proteger. As pessoas que se identificam com ela dizem que não poderia ter cometido o crime.

Um grupo mundial chamado "Amigos de Amanda Knox" está trabalhando incessantemente para descobrir as supostas maquinações do que chama o "tribunal de bruxa de Perugia". O "inquisidor" Giuliano Mignini foi atacado de forma tão veemente na imprensa que entrou com uma ação por difamação contra dois jornalistas americanos. A batalha sobre quem tem a autoridade de interpretar o significado de certos sites na Internet está sendo duramente travada. Para os defensores de Knox, quanto mais avassaladora são as evidências circunstanciais, mais sutil a conspiração contra ela. Os pais de Knox, que são divorciados, contrataram inclusive um consultor de relações públicas para ajudá-los a se prepararem para as aparições na televisão.

Pagando um preço
O anúncio do veredicto deve ser feito no final desta semana, após um longo julgamento que cobrou um alto preço de todos os envolvidos, não apenas dos réus.

Dois dos advogados de Sollecito puseram fim à sociedade depois de uma briga; vários pesquisadores forenses chamados para testemunhar saíram do caso em protesto contra a estratégia da defesa. A mãe de Kercher está tomando remédios psiquiátricos enquanto o pai, um jornalista, foi forçado a escrever um livro sobre o caso para cobrir as custas legais.

Os pais de Knox estão arruinados devido aos gastos com advogados e com as viagens entre Seattle e Perugia. Quando estão na Itália, ficam em um hotel barato e vivem à base de lanches que trazem com eles.

Em entrevista à televisão norte-americana, o pai de Knox disse que acredita que Amanda estará em casa para o Natal. Poucas pessoas compartilham sua opinião.

Tradução: Deborah Weinberg

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