Procurando em vão pela mágica de Obama

Gabor Steingart

Nunca antes um discurso do presidente Barack Obama soou tão falso quanto o de terça-feira, anunciando a nova estratégia dos Estados Unidos para o Afeganistão. Parecia um discurso de campanha combinado com a retórica de Bush - deixando tanto sonhadores quanto realistas se sentindo incomodados.
  • Julie Jacobson/AP

    Barack Obama acena antes de discursar sobre sua nova estratégia para a guerra no Afeganistão

Não se pode culpar a liderança de West Point. Os comandantes da academia fizeram o melhor que podiam para assegurar que o discurso do comandante-em-chefe, Barack Obama, fosse bem recebido.

Poucos minutos antes do presidente subir ao palco dentro do Salão Eisenhower, foi pedido aos cadetes reunidos que respondessem com entusiasmo ao discurso. Mas não ajudou: a recepção dos soldados foi fria.

Mas não era preciso ser um cadete na terça-feira para sentir um pouco de náusea após ouvir o discurso de Obama. Esse foi o discurso menos verdadeiro que ele já fez. Ele falou de responsabilidade, mas quase toda sentença cheirava a tática partidária. Ele exigiu sacrifício, mas não conseguiu dizer exatamente para quê.

Trinta mil soldados americanos adicionais serão enviados ao Afeganistão e depois voltarão para casa. Os Estados Unidos vão à guerra -e de lá prosseguirão para a paz. Foi o discurso de um ganhador do Prêmio Nobel da Guerra.

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Bem a tempo para a campanha
Para cada movimento de tropas, Obama tinha um número. A força americana no Afeganistão será triplicada em relação aos anos Bush, um fato que certamente impressionará os falcões americanos. Mas apenas 18 meses depois, bem a tempo da campanha para a reeleição de Obama, o horror da guerra terminará e a retirada terá início. As pombas da paz serão soltas.

O discurso prosseguiu nessa linha. Era como se Obama tivesse pego um de seus velhos discursos de campanha e mesclado com um texto da biblioteca do ex-presidente George W. Bush. Extremistas matam em nome do Islã, ele disse, antes de acrescentar que ela é uma das "melhores religiões do mundo". Ele prometeu que a responsabilidade pela segurança do país seria em breve transferida ao governo do presidente Hamid Karzai -um governo que ele disse ser "corrupto". O Taleban é perigoso e está se tornando mais forte. Mas "a América terá que exibir força na forma como coloca um fim às guerras", ele acrescentou.

Foi uma combinação vertiginosa de aumento e retirada de tropas, de vai e vem. O ritmo acelerado lembrava o de peças sobre a Revolução Francesa. Tropas entram pela direita ao fogo barulhento de canhão e então saem à esquerda do palco. E no final, os mortos são deixados no palco.

A mágica de Obama não funciona mais
Mas neste caso, o público ficou mais perturbado do que entretido. De fato, é possível ver o fenômeno em vários lugares nas últimas semanas: a mágica de Obama não funciona mais. A atração de suas palavras se tornou mais fraca.

Veja trecho do discurso de Obama sobre o envio de tropas ao Afeganistão (em inglês)



Não foi ele que mudou, mas sim o referencial usado para avaliá-lo. Para um presidente, a unidade de medição é a vida real. Um líder é visto pelos cidadãos pelo prisma de suas vidas - seu emprego, seu orçamento familiar, onde vivem e sofrem. E no caso da guerra contra o terror, onde às vezes morrem.

Os sonhos e anseios políticos para o futuro pertencem a outro lugar. Foi onde o encantador político Obama conseguiu arrebatar com sucesso a imaginação de milhões de eleitores. É um lugar onde os políticos em campanha - particularmente aqueles com talento para oratória- gostam de se refugiar. Também é onde Obama montou seu quartel-general de campanha, em uma tenda enorme chamada "Esperança".

Em seu discurso sobre a nova estratégia americana para o Afeganistão, Obama tentou falar para ambos os lugares. Foram dois discursos em um. Foi por isso que soou tão falso. Tanto sonhadores quanto realistas se sentiram incomodados.

O presidente americano não precisa de oponentes no momento. Ele já tem a si mesmo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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