Al Qaeda mata oito vezes mais muçulmanos do que não muçulmanos

Yassin Musharbash

Pouca gente negaria que alguns muçulmanos também são vítimas do terror islamita. Mas um novo estudo do Centro de Combate ao Terrorismo, dos Estados Unidos, revela que a grande maioria das vítimas da Al Qaeda consiste, na verdade, de muçulmanos.

Na batalha contra os descrentes, pode-se também matar muçulmanos? Até mesmo a rede terrorista Al Qaeda está perturbada diante desta questão.
  • AP

    Mulher muçulmana lamenta a morte do filho, depois de um atentado suicida em Bagdá (Iraque)

Abu Yahya al-Libi, um dos principais ideólogos da Al Qaeda, desenvolveu a sua própria teoria teológica de danos colaterais que permite que militantes matem muçulmanos quando isto for inevitável.

Até mesmo os seguidores iraquianos do grupo terrorista de Osama Bin Laden, que são conhecidos por serem especialmente violentos, alegam que também ponderam essa questão. Por exemplo, em uma mensagem assumindo responsabilidade por uma ataque executado em Bagdá, em agosto último, o grupo desejou aos sunitas feridos na "operação" uma recuperação rápida e manifestou a esperança de que aqueles que foram mortos fossem aceitos por Deus como "mártires".

Mas ainda que tais comunicados apologéticos da Al Qaeda demonstrem que a rede terrorista se apresenta como uma defensora da verdadeira fé que enfrenta problemas com conceitos religiosos, eles transmitem também a impressão de que as mortes de muçulmanos, apesar de lamentáveis, seriam casos isolados. Os fatos, porém, contam uma história diferente.

Entre 2004 e 2008, por exemplo, a Al Qaeda assumiu responsabilidade por 313 ataques, resultando na morte de 3.010 pessoas. E ainda que esses ataques tenham incluído incidentes terroristas no Ocidente - em Madri, em 2004, e em Londres, em 2005 - somente 12% dos indivíduos mortos (371 mortes) eram ocidentais.

Relatório revela que os terroristas mataram mais muçulmanos do que não muçulmanos
É claro que não é nenhuma surpresa o fato de a Al Qaeda matar mais muçulmanos do que não muçulmanos - especialmente indivíduos do mundo islâmico. Mas um novo relatório feito pelo Centro de Combate ao Terrorismo, da Academia Militar dos Estados Unidos, em West Point, em Nova York - que reuniu esses e outros dados relevantes em um relatório, "Deadly Vanguards: A Study Of al-Qaida's Violence Against Muslims " ("Vanguardas Mortais: Um Estudo Sobre a Violência da Al Qaeda Contra Muçulmanos"), revela nitidamente esta discrepância.

Os autores do estudo admitem que o relatório provavelmente omite várias vítimas muçulmanas. Mas esse foi o preço pago pela metodologia rigorosa, utilizada na tentativa de evitar acusações de tendenciosidade.

Os pesquisadores só contabilizaram os ataques pelos quais a Al Qaeda assumiu responsabilidade, a fim de evitarem acusações de que estariam fazendo com que a organização parecesse ser pior do que de fato é. Mesmo assim, sabe-se que a Al Qaeda não assume responsabilidade por todos os ataques perpetrados, o que significa que muitas vítimas provavelmente não constaram do relatório. Além do mais, os pesquisadores só incluíram incidentes anunciados pela mídia árabe e basearam-se nos resultados publicados por veículos de comunicação dos países árabes - por acreditarem que tais meios de comunicação são mais respeitados no mundo muçulmano do que a mídia ocidental. No entanto, nem sempre isto é verdade.

Números imprecisos e categorias inexatas
O maior potencial para a imprecisão no relatório, porém, reside no fato de ele classificar as vítimas em apenas duas categorias: ocidentais e não ocidentais. A premissa é que ocidental significaria também não muçulmano, e vice versa. Mas há vários problemas com tal categorização. Nem todo indivíduo que vive no mundo muçulmano é muçulmano: no Iraque, a Al Qaeda desfechou ataques contra curdos, iazidis e cristãos. Além disso, muitas das vítimas muçulmanas são na verdade - e deliberadamente - xiitas. A Al Qaeda, que é um grupo sunita, considera os xiitas descrentes.

Infelizmente os novos relatórios não costumam diferenciar entre muçulmanos sunitas e xiitas, explica Scott Helfstein, um dos criadores do relatório. É este também o motivo para as categorias não ocidental e ocidental. "Para os jornalistas é fácil relatar a nacionalidade das vítimas, mas eles raramente - ou nunca - identificam a religião delas", escreveu Helfstein em uma resposta por e-mail às questões formuladas por "Spiegel Online". Os redatores do relatório estavam bem conscientes desse problema. "Mas não conseguimos contorná-lo", explica Helfstein.

De fato, os autores do relatório encaram de frente as deficiências da sua metodologia. Em uma determinada passagem, eles removem completamente dos seus cálculos os ataques ocorridos no Iraque e no Afeganistão, o que faz com que a percentagem de ocidentais mortos em ataques da Al Qaeda suba para 39%, um número bem mais significante. Porém, quando os ataques de Madri e Londres são removidos das estatísticas, a parcela de ocidentais mortos volta a cair para 13%.

Talvez o fato mais significativo, caso sejam examinados os ataques ocorridos em 2007 e não sejam levados em consideração aqueles perpetrados no Iraque e no Afeganistão, seja a descoberta de que a percentagem de não ocidentais assassinados pela Al Qaeda subiu para 99%. Em 2008, esse índice foi de 96%.

Não ocidentais têm uma probabilidade 38 vezes maior de serem assassinados
Ou, colocando-se as coisas de outra forma, entre 2006 e 2008, os não ocidentais tiveram uma probabilidade 38 vezes maior do que os ocidentais de serem assassinados em um ataque da Al Qaeda.

"Como a Al Qaeda possui capacidade limitada de atacar os seus inimigos ocidentais, o grupo mantém a sua relevância atacando países de maiorias muçulmanas", conclui o estudo.

As conclusões a que chegaram Helfstein e os outros co-autores do relatório não mudarão o rumo dos acontecimentos. Mesmo assim elas são valiosas, já que fornecem uma base numérica para que se determine a razão entre vítimas da Al Qaeda muçulmanas e não muçulmanas.

Mesmo assim, os críticos sem dúvida observarão que o estudo foi feito pelo Centro de Combate ao Terrorismo, uma organização que faz parte de uma escola militar norte-americana. Nos últimos anos, o Centro de Combate ao Terrorismo publicou vários estudos excelentes sobre o terrorismo. Mas como a instituição está de fato fornecendo argumentos, apoiados por pesquisa científica, para a luta contra o terrorismo aos governantes, políticos e militares nos Estados Unidos, ela não pode ser considerada estritamente neutra. Isso também se aplica a este caso, especialmente porque várias autoridades norte-americanas começaram recentemente a enfatizar o fato de que a Al Qaeda é especialmente violenta contra muçulmanos, podendo basear-se agora em dados concretos para apoiar os seus argumentos.

Essa falta de neutralidade não modifica o fato de que as conclusões fundamentais do relatórios são corretas e significativas. Os autores concluem que, se forem comparadas as estatísticas anuais de 1995 a 2003 (excluindo os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos como um acontecimento isolado), chega-se à conclusão de que a luta da Al Qaeda em nome dos muçulmanos oprimidos não faz jus a essa causa.

Tradução: UOL

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