"Todo mundo deve ter o direito ao crédito", afirma Muhammad Yunus, Nobel da Paz de 2006

Friederike Ott

Os empréstimos de microcrédito revolucionaram o mundo das finanças nos países em desenvolvimento. Agora Muhammad Yunus, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz por trás do conceito, quer ver programas semelhantes no mundo industrializado. Em uma entrevista à "Spiegel Online", ele explica por que os pobres da Alemanha precisam ter acesso ao crédito.
  • Reuters

    Nobel da Paz Muhammad Yunus, que mostrou o êxito dos programas de microcrédito nos países em desenvolvimento, agora quer aplicar seu conceito também nações industrializadas

Spiegel: Sr. Yunus, o senhor fornece microcrédito para pessoas nos países em desenvolvimento por meio do Grameen Bank. Um programa semelhante é necessário na Alemanha?
Muhammad Yunus:
Certamente. Mesmo na Alemanha, há muita gente excluída do sistema bancário, como os desempregados. Os banqueiros os veem como um risco alto demais. Mas são exatamente essas pessoas que precisam de empréstimos.

Spiegel: Por quê? O desempregado recebe apoio do Estado.
Yunus:
Este é o sistema habitual nos países ricos, como a Alemanha. Mas não há incentivo para geração de nova renda com o auxílio desemprego. Afinal, o próximo pagamento virá no próximo mês. Isso tira a iniciativa das pessoas. Também poderia ser dado microcrédito ao desempregado, permitindo que abra seu próprio negócio. Pessoas capazes não deveriam ficar sentadas diante da televisão, como zumbis, sem nada para fazer. Seu potencial e capacidade não são utilizados, a criatividade delas é desperdiçada.

Spiegel: O senhor concederia microcrédito a todos os desempregados?
Yunus:
Todo mundo deve ter o direito ao crédito. Você poderia dizer que dará a alguém 100 euros ou emprestar 500 euros. É uma melhor forma de distribuir dinheiro. Se apenas metade das pessoas pagarem o empréstimo, então já será um sucesso. E se a pessoa que recebe o empréstimo é bem-sucedida, isso encorajará outras. Orgulho dá retorno.

Spiegel: Já existem muitas oportunidades para os desempregados receberem subsídios do Estado para abertura de um negócio. O banco KfW, uma instituição federal, já concede pequenos empréstimos. Por que ainda assim a Alemanha precisa de microcrédito?
Yunus:
Os programas públicos geralmente têm procedimentos burocráticos rígidos, dos quais não há desvio. Algumas pessoas levantam seu capital neste sistema e então contornam as regras. Não por precisarem dos empréstimos, mas porque sabem como enganar o sistema. Outros não conseguem o empréstimo porque não se encaixam em certo perfil. Além disso, o Estado não está necessariamente interessado em sustentabilidade quando fornece crédito. Finalmente, o dinheiro é financiado pelos contribuintes.

Spiegel: Isso significa que o microcrédito deve vir de instituições privadas?
Yunus:
Eu não quero usar a palavra "privada"? Isso significa que o emprestador espera ganhar dinheiro com o empréstimo. Eu vejo o microcrédito como um empreendimento social. Isso significa que você trata de um certo problema social com um empreendimento. Os lucros são então reinvestidos no empreendimento social. Além disso, os custos precisam ser cobertos. É por isso que cobramos juros.

Spiegel: A taxas elevadas. O Grameen Bank às vezes cobra até 20%.
Yunus:
É claro que uma taxa de juros baixa é boa. Mas quando uma instituição precisa se autossustentar, então não podemos oferecer uma taxa de juros que não permita à instituição ser administrada de forma sustentável.

Spiegel: O senhor também criou programas para mendigos nos países em desenvolvimento, sem cobrança de juros. Esses empréstimos são pagos?
Yunus:
Sim. A taxa de pagamento é na verdade bem alta. Nós não cobramos juros porque não queremos aplicar pressão. Os mendigos devem se sentir à vontade tomando o empréstimo.

Spiegel: E de onde vem a motivação para pagamento do empréstimo?
Yunus:
Se o mendigo paga o empréstimo, então ele recebe um novo empréstimo com as mesmas condições. Segundo nossa experiência, funciona.

Spiegel: Isso também funcionaria com os moradores de rua na Alemanha?
Yunus:
É algo que deveríamos tentar. Seria uma nova situação e, é claro, não posso dizer se funcionaria. Eu também não daria um empréstimo a cada mendigo, mas tentaria primeiro com um. Se funcionar, então é possível estender o crédito a outra pessoa. Quando uma começa, outra a segue. Funcionou em Bangladesh e em muitos outros países.

Spiegel: Que critérios o senhor estabeleceu para dar empréstimos aos mais pobres entre os pobres?
Yunus:
Nós primeiro tentamos entender por que alguém se torna um mendigo. Geralmente há um ponto de virada na vida deles. É fácil dizer que mendigos não querem trabalhar, mas é possível que não seja totalmente verdadeiro. Então nós discutimos com eles o que poderiam fazer, elaboramos um plano de negócios e fornecemos o financiamento.

Spiegel: Todo mendigo tem uma ideia de negócios?
Yunus:
O espírito humano é infinitamente criativo. Se você ficar pensando em algo, no final você encontrará uma solução.

Spiegel: O microcrédito parece funcionar muito bem porque há a pressão moral da comunidade sobre a pessoa que recebe o empréstimo. Mas a cultura alemã é muito individualista e as pessoas frequentemente vivem no anonimato. Ainda assim o microcrédito funcionaria aqui?
Yunus:
Veja Nova York. Lá, os moradores geralmente desconhecem seus vizinhos. Quando alguém morre, geralmente passa desapercebido. Mas o microcrédito está funcionando lá. Por meio de programas, nós reunimos as pessoas e, de repente, elas têm amigos. É de onde vem a pressão da comunidade.

Spiegel: O senhor já encontrou um país onde o microcrédito não funcionou?
Yunus:
Não. As pessoas precisam de dinheiro. Nós vivemos em um mundo onde o dinheiro é importante.

Spiegel: Há filiais do Grameen Bank, que o senhor fundou em 1983, em vários países do mundo. Quando o senhor abrirá uma filial na Alemanha?
Yunus:
Me perguntam muito por que ainda não há uma filial na Alemanha. Mas eu não viria de Bangladesh e diria: "Eu quero introduzir o microcrédito aqui". Alguém precisa vir até mim e dizer: "Ei, você pode nos ajudar com isto?"

Spiegel: E ninguém ainda pediu ao senhor?
Yunus:
Algumas poucas pessoas certa vez me procuraram para pedir ajuda na criação de uma espécie de banco de microcrédito ecológico na Alemanha. Mas elas perderam o interesse e tinham outras coisas na cabeça.

Spiegel: Muitas empresas são ativas em empreendimentos sociais -outra ideia que começou com o senhor. A Basf vende mosquiteiros que até mesmo os muito pobres podem comprar, a Danone vende iogurte barato rico em vitaminas, enquanto a Veolia criou um empreendimento social que vende água barata. Que empresa o senhor convencerá agora a adotar um empreendimento social?
Yunus:
Eu não convenci ninguém. Eu espero que elas me procurem. Elas nem mesmo têm que trabalhar comigo. Elas podem agir por iniciativa própria. Eu não quero expandir meu banco, mas sim espalhar a ideia.

Spiegel: A Adidas anunciou recentemente que também atuará na área de empreendimento social. O senhor procurou a Adidas ou a empresa pediu seu conselho?
Yunus:
O pessoal da Adidas me procurou. Eles me perguntaram o que poderiam fazer e então eu disse que precisavam ter uma meta, uma missão. Ela poderia ser: ninguém no mundo corre por aí sem um par de calçados. Os calçados devem ter preço acessível e, é claro, isso o torna um empreendimento social.

Spiegel: Por que calçados são tão importantes?
Yunus:
Muitas pessoas não sabem que calçados podem protegê-las de doenças. Muitos parasitas entram no corpo pelos pés. Se todas as crianças andassem calçadas, nós poderíamos prevenir muitas doenças. Se a Adidas tiver sucesso nessa idéia, então outras empresas a seguirão. Há um novo tipo de concorrência surgindo -a concorrência de ajudar outras pessoas.

Spiegel: Por que os empreendimentos sociais funcionam?
Yunus:
Há dois lados em cada pessoa: egoísmo e abnegação. A parte abnegada é tão forte quanto a egoísta, nós apenas não reconhecemos isso ainda. Muitos empreendimentos são baseados no egoísmo, mas por que não podemos construir uma empresa baseada na abnegação? Ajudar os outros é uma alegria. Nós não queremos abolir o capitalismo, mas completá-lo. Egoísmo e abnegação pertencem igualmente a ele.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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