Estufas urbanas pretendem ajudar a combater a mudança climática

Jess Smee

Com seu imenso domo de vidro, a Plantagon Greenhouse [Estufa Plantagon] não pareceria fora de lugar num filme de ficção científica. E se tudo correr bem, uma delas logo poderá surgir numa cidade próxima de você. Nesses tempos de aquecimento global, argumentam seus criadores, a questão não é se isso se tornará realidade, mas sim quando

Em meio aos arranha-céus, há uma esfera gigante de vidro que abriga um misterioso caminho em espiral. À primeira vista, a estrutura pode parecer uma espaçonave alienígena ou uma fantasia de arquitetura modernista. Mas, na verdade, é uma resposta pouco comum para a mudança climática e os desafios da urbanização.

Essa estrutura com jeito de OVNI é uma ambiciosa versão da estufa clássica. Com cem metros de altura, ela foi projetada para abrigar plantas em sua plataforma em espiral, cuidadosamente iluminada e aquecida. As plantas são plantadas na base da esfera e sobem gradualmente até serem finalmente colhidas no topo. A ideia da estufa Plantagon Greenhouse vem de uma companhia suíço-americana de mesmo nome - e ela está confiante de que sua espalhafatosa criação irá se transformar em realidade um dia.

"Nós evoluímos bastante a partir da mesa de projetos", disse o diretor executivo da Plantagon, Hans Hassle, para a "Spiegel Online". "Esperamos construir a primeira estufa Plantagon nos próximos três anos."

O projeto foi imaginado há duas décadas pelo inventor e especialista em agricultura ecológica sueco Åke Olsson. Mas gora, com o apoio da Plantagon, uma empresa comandada pela companhia de consultoria Swecorp Citizenship AB e pelos Índios Norte-Americanos da Nação Onondaga, ele finalmente parece estar se tornando viável.

A Plantagon, que se diz a primeira companhia do mundo a criar um sistema prático de agricultura urbana nessa escala, está atualmente negociando com 15 cidades para construir suas estufas verticais. Hassle recusa-se a dar mais detalhes sobre as possíveis localizações desse domo futurístico, mas afirma que as negociações envolvem cidades espalhadas por quatro continentes. A Plantagon já tem um acordo para construir uma Plantagon Greenhouse na Índia, disse ele.

Repensando os negócios
Com o preço do maior modelo de estufa estimado em cerca de US$ 104 milhões (R$ 180 milhões), os custos de projetos como este são gigantescos - mas as mudanças ambientais que o mundo enfrentará nos próximos anos também. Os dados sobre o aquecimento global, combinados com o crescimento populacional, falam por si mesmos. O preço dos alimentos subiu no mundo inteiro, a mudança climática está reduzindo a quantidade de terras aráveis, e o Banco Mundial estima que a demanda por alimentos no mundo será o dobro em 2030.

Da mesma forma, a pressão sobre os estoques de alimentos será maior nos ambientes urbanos. No momento, mais da metade da população do mundo vive em cidades - um número que deve aumentar para 80% em 2050. Essas previsões levaram a Plantagon à conclusão de que a única forma de assegurar que as cidades em expansão do futuro tenham o suficiente para comer seja encaixar a produção de alimentos na paisagem urbana - e logo.

"Nós de fato precisamos mudar nossos valores para sobreviver", disse Hassle. "Esperar uma solução política - como a UE aperfeiçoar sua abordagem quanto à agricultura - levará simplesmente muito tempo."

Na visão de Hassle, a Plantagon é apenas um passo dentro de uma grande reavaliação sobre como as empresas devem funcionar. Numa declaração que ele escreveu junto com o Oren Lyons, um defensor internacional dos direitos dos povos nativos americanos, ele argumentou que chegou o momento de deixar de lado a ganância a curto prazo e usar o capitalismo como uma ferramenta para o bem-estar social, e não só para o lucro.

"Hoje, muitas das maiores economias do mundo são corporações, e não Estados-nação, e essa situação confere uma responsabilidade enorme sobre seus donos, seus conselhos e administradores", escreveram eles na declaração "Business As Usual Is Over" [algo como "O Fim do Antigo Modelo de Negócios"].

Salvação ou ilusão?
À medida que o aquecimento global ganha prioridade na agenda internacional, a Plantagon não é a única a sonhar com projetos urbanos aparentemente excêntricos para garantir nosso suprimento de alimentos no futuro.

Entre seus contemporâneos há um projeto convenientemente intitulado DragonFly. Ele constite numa estufa vertical de 600 metros de altura com formato de asas de libélula. A estrutura de 132 andares foi criada pelo designer belga Vincent Callebaut, que a concebeu como uma resposta para as previsões de falta de alimentos. Seu formato arrojado foi planejado para abrigar animais de criação e uma ampla variedade de culturas. Ilustrações impressionantes de seu projeto, que simulam sua localização na Ilha Roosevelt em Nova York, fazem os arranha-céus da cidade parecerem anões.

Apesar de ainda existirem dúvidas sobre a viabilidade de muitas visões arquitetônicas como estas, de acordo com Hassle, o projeto da Plantagon está pronto para ser construído. A companhia realizou um estudo de viabilidade, e previu que a maior versão da estrutura levaria três anos para recuperar o investimento inicial, enquanto as versões menores da estufa levariam cerca de dez anos.

Hassle também está convencido de que trazer a produção de alimentos para as cidades será uma necessidade dentro de três ou quatro décadas. "Isso terá que acontecer", insiste. "Do contrário, não teremos o suficiente para comer; é simples assim."

"Pode ser que não sejamos nós a construir isso", acrescentou, "mas alguém terá de fazê-lo".

Tradução: Eloise De Vylder

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