Dívida grega representa um risco para o euro

Wolfgang Reuter

À medida que os indicadores econômicos foram melhorando, a preocupação com a crise econômica diminuiu. Mas o próximo grande problema pode estar se aproximando. O déficit público da Grécia está aumentando rapidamente e o país pode tornar-se insolvente. O efeito sobre a moeda comum da Europa poderia ser terrível.

Em ocasiões passadas, Josef Ackermann, o presidente do Deutsche Bank, declarou claramente várias vezes. Ele disse repetidas vezes que o pior havia passado. Porém, a crise financeira acabou atingindo com intensidade ainda maior a economia mundial.
  • Reuters

    Temor Presidentes de bancos centrais da zona do euro já especulam, a portas fechadas, sobre o que aconteceria se os gregos começassem imprimir euros sem a aprovação do BC Europeu

Entretanto, na semana passada, Ackermann dizia algo totalmente diferente. Embora vários indicadores estejam novamente com tendência de alta, ele afirmou em uma reunião sobre a economia alemã em Berlim que a chanceler Angela Merkel, os ministros de Estado, os presidentes de empresas e os líderes empresariais não devem se iludir. Ackermann alertou enfaticamente que a situação financeira poderá se deteriorar novamente. "Algumas bombas-relógios ainda estão ativadas", disse Ackermann à plateia, observando que os problemas crescentes de pequenos países altamente alavancados poderiam provocar novos abalos financeiros. E, depois disso, quase que casualmente, Ackermann citou pelo nome a "criança problema" do mundo financeiro europeu: a Grécia.

Ackermann não é único que tem essa opinião. Praticamente desapercebida pela população, uma questão retornou à lista de problemas principais na última semana. Um problema que foi motivo de grande preocupação no ápice da crise financeira, mas que, à medida que o otimismo sobre a economia começou a crescer, acabou sendo esquecido: o medo de uma bancarrota de dimensão nacional na zona do euro. E ainda o temor de que tal bancarrota, caso ocorra, possa destruir a moeda comum europeia.

A Grécia sempre esteve no topo da lista de países em risco. Mas agora esse perigo parece maior do que nunca.

Seguro contra um calote
Os sismógrafos dos departamentos de negócios dos bancos de investimentos detectaram os tremores iniciais semanas atrás. Hoje, quando o código "Greece CDS 10Yr" aparece nos terminais Bloomberg, uma curva na parte inferior da tela aponta nitidamente para cima. Ela reflete o preço que os bancos atualmente estão cobrando por seguros de dez anos dos títulos do governo grego contra um calote.

O preço desses ativos saltou drasticamente desde que o ministro grego das Finanças, Giorgos Papakonstantinou, anunciou três semanas atrás que o déficit orçamentário do seu país chegaria a 12,7% do produto doméstico bruto neste ano, e não aos 6% inicialmente previstos - e sendo bem superior ao limite de 3% previsto pelas regras da União Europeia.

Uma segunda curva é uma imagem invertida da primeira. Ela mostra o preço dos títulos governamentais do país da zona do euro. Esta curva apresenta uma tendência evidente de queda.

A Grécia já paga quase 2% a mais do que a Alemanha em juros sobre a sua dívida. Em outras palavras, com uma dívida total de 270 bilhões de euros (US$ 402 bilhões, R$ 707 bilhões), a Grécia estará pagando cinco bilhões de euros (R$ 13 bilhões) a mais em juros anuais do que estaria caso ela fosse a Alemanha. E, como as agências especializadas estão ameaçando rebaixar a classificação de crédito do país, que já é ruim, a situação provavelmente só piorará.

Os ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais dos países da zona do euro estão alarmados e impotentes diante dessa situação. "O problema grego funcionará como um teste ácido da moeda da União Europeia", opina uma autoridade governamental graduada em Berlim.

Não é possível encontrar compradores
A Grécia já acumulou uma dívida enorme que será difícil, ou mesmo impossível, saldar. O governo tomou emprestado o equivalente a mais de 110% da produção econômica do país no decorrer dos anos, e se os investidores perderem a confiança nos títulos, um colapso econômico poderá atingir a Grécia já no ano que vem.

Em 2010 os devedores governamentais em Atenas terão que refinanciar uma dívida total de cerca de 25 bilhões de euros (R$ 65 bilhões) - ou seja, pagar o que devem usando dinheiro obtido por meio de empréstimos junto aos mercados financeiros. Mas, caso não se encontrem compradores para as suas securities, a Grécia não terá escolha a não ser declarar insolvência - assim como fizeram nas últimas décadas México, Equador, Rússia e Argentina.

Isso coloca Bruxelas em uma situação difícil. As regras da União Europeia proíbem os 27 membros do bloco de emprestar dinheiro a outros membros para que estes tapem buracos nos seus orçamentos ou paguem juros de dívidas.

E mesmo se houvesse uma maneira de contornar essa proibição, as consequências disso seriam desastrosas. A falta de preocupação com a disciplina orçamentária em países como Espanha, Itália e Irlanda espalhar-se-ia como um incêndio pelo continente inteiro. A lição seria clara: Por que economizar, se outros acabarão pagando a dívida?

Um efeito dominó
Por outro lado, se Bruxelas deixasse que os gregos enfrentassem o problema por conta própria, as consequências poderiam ser terríveis. A confiança no euro seria abalada, e a união seria submetida a um teste crucial. Muitos perguntariam: qual a vantagem de uma moeda comum se alguns dos Estados membros pagam as dívidas e outros não?

Além do mais, existe a ameaça de um efeito dominó. Se um membro da zona do euro cair, os especuladores testarão a estabilidade de outros potenciais candidatos à bancarrota. Isso poderia destruir a moeda da União Europeia. "Devido a este risco sistêmico, nós acreditamos que se um país estiver enfrentando um problema relativo à amortização da sua dívida, ele receberá ajuda", afirma um economista do banco suíço UBS.

Um calote de um país do grupo do euro não preocupa os responsáveis pela política monetária no Bundesbank, o banco central alemão. "Qual o problema se a Grécia deixar de pagar as suas dívidas?", perguntou um dos membros da diretoria executiva em um recente banquete em Frankfurt. "O euro é suficientemente forte para aguentar esse tranco". Segundo ele, a ameaça real seria se Bruxelas viesse em socorro dos gregos. "Nesse caso a união monetária transformar-se-ia em uma união inflacionária".

Mas não se sabe se os políticos são capazes de persistir com uma abordagem tão inflexível. Os preços dos títulos governamentais gregos já despencaram uma vez no passado, até que o então ministro alemão das Finanças, Peer Steinbrück, para horror do Bundesbank, comprometeu-se publicamente a ajudar os gregos caso necessário. Não se sabe se o governo alemão adotaria hoje exatamente a mesma posição.

A bancarrota poderia ser prevenida?
Uma bancarrota nacional na Grécia teria um grave impacto sobre a Alemanha, onde muitos bancos investiram pesadamente nos altamente rentáveis títulos do tesouro grego - após terem pegado dinheiro emprestado para comprar os títulos junto ao Banco Central Europeu ou outros bancos centrais a juros de 1% a 2%. Enquanto os gregos permanecerem insolventes, não será fácil ganhar dinheiro com esse investimento.

A próxima reunião do Banco Central Europeu ocorrerá em 17 de dezembro. "O assunto estará na agenda", dizem autoridades em Frankfurt. O tempo é fundamental.

Presidentes de bancos centrais da zona do euro já estão especulando, a portas fechadas, sobre o que aconteceria se os gregos começassem a imprimir euros sem a aprovação do Banco Central Europeu. Não há resposta a essa pergunta, e isso deixa os banqueiros centrais de Lisboa a Dublin ainda mais nervosos do que já estão.

Manipulando os números do orçamento
E mais desconfiados. Em 2004, descobriu-se por acidente que a Grécia só conseguiu qualificar-se para ingressar na união monetária ao manipular os números do seu orçamento. Os gregos só atenderam aos critérios de Maastricht uma vez desde a introdução do euro, em 2006.

Mas até mesmo os números apresentados naquela ocasião podem ter sido manipulados. Naquela época, os gregos conseguiram aumentar o seu produto interno bruto oficial em substanciais 25%, em parte porque incluíram o mercado negro e a prostituição na sua produção econômica. Isso reduziu o índice de déficit - pelo menos no papel - para 2,9%.

Os números que representam o déficit orçamentário da Grécia estão sendo constantemente revisados para cima. A mais recente alteração, de cerca de 7%, é um recorde para a Europa - e ela ocorre em um país que foi relativamente pouco afetado pela crise financeira. Neste ano, a economia grega encolherá cerca de 1,2%, dizem os economistas do país. No ano que vem eles esperam que a economia volte a crescer, ainda que de forma modesta.

Especialmente irritante para os outros países da União Europeia é o fato de a Grécia ter obtido lucros durante décadas com a sua inclusão na união. Ano após ano, as transferência líquidas feitas por Bruxelas excederam os pagamentos efetuados na direção oposta em valores que variaram de três a seis bilhões de euros (R$ 7,76 bilhões a R$ 15,51 bilhões). Esses números, também, foram muitas vezes encarados com suspeição. Em certas ocasiões, a área declarada para subsídios agrícolas estava incorreta e as condições para aprovação não foram atendidas.

Palavras decididas
Não obstante, os políticos da União Europeia veem-se de mãos atadas. "O jogo acabou", declarou recentemente o presidente do grupo do euro, Jean-Claude Juncker, apenas para retroceder e assegurar à Grécia que esta contaria com a sua solidariedade. "Não tenho a menor desconfiança de que a Grécia possa falir - quem quer que esteja especulando sobre tal coisa está se auto-iludindo", declarou Juncker.

As suas palavras resolutas foram dirigidas aos diretores de bancos de investimentos em Londres, Frankfurt e Nova York. Eles sabem muito bem que a Grécia está de fato à beira da falência, mas o que eles não sabem é se a União Europeia, conforme insinuou Juncker, correrá em socorro do país, que é um Estado membro da organização. Em outras palavras, a mensagem de Juncker foi que aqueles que especularem sobre a perspectiva de bancarrota poderão se dar mal.

Agora a União Europeia adotou uma abordagem mais dura em relação à Grécia. Três semanas atrás, o governo em Atenas recebeu uma reprimenda de Bruxelas, seguida por uma outra na semana passada. Até o momento, porém, o governo grego tem demonstrado pouca inclinação a tomar qualquer medida significativa. Ele não pretende reduzir o déficit no momento, mas apenas chegar a 9,1% no ano que vem. Isso é muito pouco para muitos ministros europeus das Relações Exteriores. Conforme anunciou recentemente o ministro da Finanças grego, Giorgos Papakonstantinou, o país necessitará de pelo menos quatro anos para controlar o seu déficit "sem colocar em risco a recuperação econômica".

Mas em quatro anos o déficit governamental do país será de cerca de 400 bilhões de euros (R$ 1,3 trilhão), ou aproximadamente 150% do produto interno bruto do país. O pagamento dos juros desta dívida, mesmo às atuais taxas de cerca de 5%, devorará pelo menos um terço dos gastos do governo.

O diretor de um banco de investimentos de Londres está apostando na continuidade da queda dos preços dos títulos gregos no curto prazo, e ao mesmo tempo aguarda o momento exato de recomeçar a comprar as securities do país. Ele brinca: "Se uma pessoa tem uma dívida de mil euros (R$ 2.600), ela tem um problema. Mas se uma pessoa tem uma dívida de 10 milhões de euros (R$ 26 milhões), o banco dela é que tem um problema. E o banco, neste caso, é a Europa".

Tradução: UOL

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