"Copenhague diz respeito a fazer o mínimo possível", diz Dennis Meadows

Christian Schwägerl

Com o seu livro de 1972, "The Limits to Growth" ("Os Limites ao Crescimento"), Dennis Meadows foi um dos primeiros a alertar para a crise ambiental iminente. O economista norte-americano falou a "Spiegel Online" sobre a necessidade de mudança drástica do nosso comportamento e do motivo pelo qual ele não espera muita coisa da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, em Copenhague.
  • AP

    Dennis Meadows, 67 anos, é um economista americano. Com o seu livro de 1972, "The Limits to Growth" ("Os Limites ao Crescimento"), Meadows foi um dos primeiros a alertar para a crise ambiental



Spiegel: Em 1972 você fez uma simulação do futuro da Terra, dispondo de um poder computacional inferior ao de um Blackberry. Até que ponto o seu modelo sobre os limites ao crescimento era bom?
Dennis Meadows:
Impressionantemente bom, infelizmente. Estamos no meio de uma crise ambiental, que na época previmos. A diferença é que nós perdemos 40 anos durante os quais a humanidade deveria ter agido.

Spiegel: Você foi um dos que alertou para o problema ambiental desde o lançamento do seu livro. Agora, representantes de quase 200 países estão reunidos para enfrentar a crise ambiental. Você está satisfeito?
Meadows:
Com Copenhague? Não levo aquilo a sério. Tudo não passa de uma grande armação. Estou indignado porque a situação é escandalosa. Se confiarmos em conferências, em vez de modificarmos o nosso estilo de vida, a situação ficará ruim.

Spiegel: Mas neste momento o mundo está voltado para Copenhague, para ver se os políticos apresentarão uma solução para o problema climático.
Meadows:
O mundo? Creio que 98% dos seres humanos nunca ouviram a palavra Copenhague, isso para não falar da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática que está ocorrendo naquela cidade. Se as pessoas se reunissem lá com uma mentalidade nova para alcançar algo, o quadro seria diferente. Esta conferência diz respeito, essencialmente, a fazer o mínimo - e não o máximo - possível.

Spiegel: Você pede que as pessoas façam sacrifícios pessoais para preservar o ambiente e os recursos naturais?
Meadows:
Eu não peço isso, mas digo que se não modificarmos o nosso comportamento, estaremos em sérios apuros. As pessoas estão se iludindo se acham que novas tecnologias verdes resolverão todos os problemas. Não existe um botão mágico. O problema diz respeito aos nossos estilos de vida.

Spiegel: Modificar o nosso comportamento pessoal faria com tudo ficasse melhor?
Meadows:
No que se refere à dependência do petróleo, sim. Mas no que diz respeito à mudança climática, eu acho que é tarde demais. Poderia ter sido possível prevenir uma grave mudança climática nas décadas de setenta e oitenta, mas agora não é mais. Nós já despejamos na atmosfera uma quantidade de dióxido de carbono suficiente para provocar o aquecimento global. Estamos no topo de uma montanha russa, e tudo o que dá para fazer agora é nos segurarmos com força.

Spiegel: Então, faz sentido reduzir as emissões de dióxido de carbono?
Meadows:
Sem dúvida. Mas isso não impedirá a mudança climática; só limitará o fenômeno.

Spiegel: Você parece muito pessimista.
Meadows:
Não. Nós não morreremos como uma espécie. A humanidade já sobreviveu à Era Glacial, e agora nós sobreviveremos à era do aquecimento. No entanto, eu duvido que no final deste processo haverá bilhões de nós voando pelo mundo em aviões e dirigindo carros enormes.

Spiegel: Será que nós viveremos como as pessoas mais pobres de hoje, aquelas que quase não emitem dióxido de carbono?
Meadows:
Esse não o meu modelo ideal. Eu vivi tempo suficiente em um país como o Afeganistão para saber que não quero que vivamos daquela forma no futuro. Mas nós temos que aprender a viver uma vida que permita realização e desenvolvimento, mas com o nível de emissões do Afeganistão.

Spiegel: Dá para termos nove bilhões de pessoas no planeta?
Meadows:
Não. Até mesmo sete bilhões é demais. Pelo menos se quisermos que todos tenham um padrão de vida apropriado. Se acreditarmos que é aceitável ter uma pequena elite que desfrute de um estilo de vida decente e uma grande maioria de excluídos, então a Terra poderia sustentar de cinco a seis bilhões de pessoas. Mas se quisermos que todos contem com o potencial integral de obter mobilidade, alimentação adequada e auto-desenvolvimento, então este número tem que ficar entre um e dois bilhões de seres humanos.

Spiegel: Como conseguiremos fazer isso?
Meadows:
Não tenho a menor ideia. Sou uma pessoa pautada pela ética, e não faria mal a uma mosca. O problema é que com o nosso estilo de vida atual nós estamos prejudicando as pessoas do futuro.

Spiegel: Você não tem uma receita para salvar o mundo?
Meadows:
Nós não temos que salvar o mundo. O mundo salvar-se-á a si próprio, como sempre fez. Às vezes são necessários alguns milhões de anos até que os danos sejam reparados e um novo equilíbrio seja alcançado. A questão é bem mais profunda: Como poderemos salvar a nossa civilização?

Spiegel: Como você lida com o fato de que a sua análise não foi capaz de provocar nenhuma mudança real?
Meadows:
Muito tempo atrás, eu acreditava que teríamos que alcançar uma utopia absoluta para evitarmos o colapso total. Hoje em dia tenho uma posição um pouco mais equilibrada. Para mim, pessoalmente, seria suficiente se eu deixasse o mundo um pouco melhor do que ele seria sem a minha presença. Todos deveriam repensar os seus estilos de vida e as suas pegadas de carbono e tentar pensar um passo a frente em relação ao futuro.

Spiegel: Qual tem sido a reação a esse tipo de conselho?
Meadows:
Uma editora de moda certa vez me perguntou sobre mudanças de estilo de vida. Eu perguntei quantos pares de sapato ela tinha. Ela respondeu que 18. Eu disse a ela que três pares de sapato seriam suficientes. Infelizmente, o artigo nunca foi publicado. Muitos hábitos estão profundamente enraizados e é preciso prática para nos livrarmos deles.

Spiegel: Como ocorrerão as mudanças necessárias?
Meadows:
Por meio de uma série de crises. Só quando ocorrerem mudanças climáticas abruptas e desagradáveis haverá disposição para fazer algo de fato. Temos que aproveitar essas oportunidades. Nós não as aproveitamos durante a crise financeira. A oportunidade de modificar algo foi desperdiçada, apesar da crise.

Spiegel: Algumas pessoas poderiam vê-lo como um furioso profeta do Velho Testamento.
Meadows:
Bobagem. O nosso primeiro livro trazia 13 cenários diferentes sobre como a Terra e a humanidade evoluiriam. Desses, oito ou nove eram catastróficos. Os outros não. Mas ninguém se interessou pelos cenários positivos. Eles não foram anunciados, e ninguém tentou fazer com que eles se materializassem. Eu não estou preocupado com cenários apocalípticos. No entanto, a maioria das pessoas está.

Tradução: UOL

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