Queda do dólar faz com que indústrias deixem a Europa

Dinah Deckstein, Frank Dohmen, Dietmar Hawranek e Alexander Jung

Os empregos do setor manufatureiro têm se deslocado da Europa há anos. Mas, conforme demonstra a decisão da Daimler da semana passada de transferir a linha de produção do seu modelo Mercedes-Benz Classe C para os Estados Unidos, esse processo está se acelerando à medida que o valor do dólar cai. Companhias diversas, como a Airbus e a ThyssenKrupp, estão instalando fábricas nos Estados Unidos para melhorar a sua situação financeira.

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Os trabalhadores da fábrica da Mercedes-Benz em Sindelfingen, perto de Munique, geralmente não são do tipo rebelde. Eles têm orgulho dos seus empregos e dos carros que constroem. Mas na última quarta-feira eles estavam furiosos.

Depois que o chefe do setor de montagem lhes informou, pouco antes das 10h, que a próxima geração dos automóveis do modelo Classe C da companhia não seria mais produzida em Sindelfingen, eles saíram das instalações de produção e caminharam em direção ao Prédio 1, onde ficam os escritórios dos diretores. Mas o diretor da fábrica não teve coragem de enfrentá-los, e até mesmo o presidente da Daimler, Dieter Zetsche, preferiu que um membro da sua equipe informasse aos operários o motivo pelo qual a linha de produção do Classe C está sendo transferida para a unidade norte-americana da companhia em Tuscaloosa, no Estado do Alabama.

Os funcionários ficaram com raiva e uma sensação de impotência. Eles já haviam impedido a terceirização da produção duas vezes no passado, ao concordarem em trabalhar sem intervalos e benefícios suplementares para possibilitar uma redução dos custos trabalhistas. Mas desta vez a diretoria não estava disposta sequer a discutir a redução de custos na fábrica alemã. Já ficara evidente que os funcionários possivelmente não poderiam aceitar uma redução salarial suficientemente grande para compensar a queda do dólar.

Toda a economia de exportação da Alemanha está sofrendo como resultado do declínio da moeda norte-americana. Além da indústria automobilística, companhias como a Airbus e a siderúrgica ThyssenKrupp, bem como os fabricantes de maquinários, estão enfrentando cada vez mais problemas para vender os seus produtos nos Estados Unidos. Eles não podem elevar os preços para compensar as perdas com o câmbio, já que isso faria com que os seus produtos se tornassem demasiadamente caros. Por outro lado, não elevar os preços significa vender os produtos com prejuízo.

Contratos inefetivos contra uma queda contínua
As companhias há muito tentam proteger-se do declínio do dólar com transações de mercado futuro, nas quais elas pagam uma taxa para assegurar uma determinada relação fixa entre o dólar e o euro. Esses contratos futuros, que geralmente expiram após um ou dois anos, são úteis para a proteção contra um declínio de curto prazo do valor de uma moeda. No entanto, eles são inefetivos contra a atual queda contínua do dólar.

Isso faz com que as indústrias automotivas, as companhias siderúrgicas e as fabricantes de maquinários alemães tenham apenas uma opção: deslocar as suas linhas de produção para a zona do dólar.

Este processo está em andamento há vários anos. A Daimler, a BMW, as fabricantes de maquinários e as fornecedoras de materiais começaram a construir as suas próprias fábricas nos Estados Unidos já em meados da década de noventa. De forma geral, essa tendência não tinha até o momento resultado em perdas de empregos alemães, principalmente porque as fábricas norte-americanas produziam apenas modelos adicionais. Mas aquilo foi apenas o primeiro passo. Agora a BMW e a Daimler estão ampliando as suas fábricas nos Estados Unidos, e os empregos que estão sendo criados lá substituem os dos trabalhadores alemães. Os empregos europeus passaram a ser ameaçados pelo dólar fraco.

A BMW já decidiu que no futuro montará o seu veículo utilitário esportivo X3 nos Estados Unidos. O único motivo pelo qual a decisão da companhia automobilística de Munique não provocou nenhum protesto significativo foi o fato de este modelo já estar sendo produzido sob contrato pela empresa fornecedora de autopeças Magna, em Graz, na Áustria, e não em uma fábrica alemã da BMW.

Transferindo a produção
Para os funcionários da Mercedes, por outro lado, a perda do Classe C em Sindelfingen é algo difícil de suportar. Isso é um exemplo de como o dólar fraco só provocará a aceleração da perda de empregos do operariado na Alemanha - e não apenas na indústria automobilística. Outras companhias, como a siderúrgica ThyssenKrupp, também estão transferindo a sua produção para os Estados Unidos.

Segundo a análise do presidente da companhia, Ekkehard Schulz, a empresa não conseguiria permanecer competitiva no longo prazo com as suas unidade de produção na tradicional zona industrial da Alemanha, o Vale do Ruhr. Será cada vez mais difícil atender ao atraente mercado norte-americano com exportações da Alemanha, argumenta Schulz.

A ThyssenKrupp já investiu quase sete bilhões de euros (R$ 18,3 bilhões) em duas novas usinas siderúrgicas em outros países, que deverão iniciar as suas operações nos próximos meses, uma no Brasil e a outra no sul dos Estados Unidos. As usinas processarão tipos especiais de aço utilizados na indústria automotiva, e em parte pelas fábricas da Mercedes-Benz e da BMW nos Estados Unidos.

Pouca gente espera que essa tendência se reverta em um futuro próximo. Será difícil para o dólar recuperar a sua antiga força como uma moeda global. "Estou relativamente pessimista", diz Michael Burda, professor de economia da Universidade Humboldt, em Berlim.

Um novo equilíbrio
A confiança na economia norte-americana foi permanentemente abalada por fatores como os índices de desemprego de dois dígitos, um setor bancário debilitado e uma dívida nacional que cresce rapidamente. Neste cenário, só faz sentido que o valor do dólar despenque ainda mais. O valor de uma moeda reflete de forma consistente a vitalidade, ou a fraqueza, de determinada economia.

Ao mesmo tempo, o declínio do dólar é também o resultado de um processo de ajustamento pelo qual a economia global está passando. O velho sistema simbiótico - os Estados Unidos consomem, e o Extremo Oriente fornece o financiamento - ficou abalado com a crise financeira. A economia global se inclina na direção de um novo equilíbrio, usando taxas de câmbio como elemento de propulsão.

Conforme explica Burda, um dólar barato ajuda os norte-americanos a retornarem a um regime de exportar mais e importar menos, o que por sua vez os ajuda a manterem-se solventes. "A forma mais rápida de chegar lá é por meio da taxa de câmbio", afirma Burda. E é por isso que os Estados Unidos pouco estão fazendo para conter o declínio do dólar. A desvalorização da moeda proporciona ao país uma forma elegante de pagar as suas dívidas.

Isto ocorre em detrimento dos europeus, à medida que a moeda destes valoriza-se. Essa valorização torna-se um fardo pesado para a economia de exportação da Europa, particularmente para a epítome do projeto pan-europeu, o grupo de aviação EADS e a sua subsidiária, a Airbus.

A Airbus depara-se com um dilema, já que as suas aeronaves são compradas com dólares, ainda que os mais importantes centros de produção da empresa fiquem na França, na Alemanha e na Espanha. Conforme disse várias vezes o diretor executivo da EADS, Louis Gallois, quando o dólar desvaloriza-se dez centavos em relação ao euro, o prejuízo para o grupo empresarial é de um bilhão de euros.

Êxodo incontível
Para manter-se competitiva, a Airbus passou a terceirizar partes dos seus setores de produção, pesquisas e desenvolvimento, bem como a construir fábricas em países de mão-de-obra barata. No outono de 2008, a companhia começou a montar jatos da sua série A320 em Tianjin, na China. Atualmente a Airbus opera centros de engenharia em cerca de dez países fora da Europa, incluindo Rússia, Índia e Estados Unidos.

No momento o êxodo parece ser incontível. Segundo muitos prognósticos o euro poderá até continuar subindo. Ansgar Belke, um economista da cidade de Essen, no oeste da Alemanha, enxerga sinais de um "aumento significante" e acredita que uma taxa de câmbio de US$ 1,70 por euro é realista.

Isso não pressagia boas coisas para a Alemanha, o principal exportador mundial em 2008 e atualmente o segundo, perdendo apenas para a China. Embora somente cerca de 13% das exportações alemãs sejam enviadas para a zona do dólar, a competitividade está caindo nas indústrias mais importantes: maquinários, produtos químicos, eletrônicos e, acima de tudo, a indústria automobilística.

Na segunda-feira, Zetsche, o presidente da Daimler, apresentou-se aos cerca de 15 mil funcionários em Sindelfingen para explicar por que a produção do Classe C teria que sair da Alemanha. Ele também prometeu que os 1.800 empregos eliminados pela terceirização da produção do Classe C serão compensados por 2.000 empregos em outras áreas.

Em 2006, um discurso similar, no qual ele anunciou a eliminação de 6.000 empregos, transcorreu bem. Os empregados da Daimler demonstraram ter fé no plano de Zetsche e ofereceram a ele o seu apoio. Mas desta vez foi diferente. Durante os protestos da semana passada, funcionários carregavam cartazes que diziam: "Zetsche tem que sair". E, na última segunda-feira, ele foi recebido com vaias e assovios.

Tradução: UOL

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