Por que um sobrevivente de Auschwitz evitou consultas médicas durante 65 anos

Christoph Schult

Há 65 anos, o infame médico de Auschwitz, Josef Mengele, removeu um rim de Yitzhak Ganon sem anestesia. Depois disso, Ganon, um judeu nascido na Grécia, jurou que jamais consultaria médicos. Um ataque cardíaco sofrido por Ganon no mês passado fez com que a história dele fosse revelada.

Yitzhak Ganon é um homem magro. O seu suéter cor de vinho é um pouco grande para ele, e as suas pernas são como varas finas dentro da calça marrom. Mas ele se cuida. Ganon está recém-barbeado, o seu bigode branco é muito bem cuidado. O homem de 85 anos de idade senta-se em um sofá cinza, com uma almofada para apoiar as suas costas. Ele está muito fraco para levantar-se por conta própria, mas ainda cumprimenta um visitante em alemão: "Guten Tag".
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    Há 65 anos, o infame médico de Auschwitz, Josef Mengele, removeu um rim de Yitzhak Ganon sem anestesia. Depois disso, Ganon, judeu nascido na Grécia, jurou jamais consultar médicos

Ele sente dificuldade em falar. "Devagar, Abba", diz a filha Iris, trazendo um copo d'água para ele. Ela conta que durante toda a vida o pai jamais reclamou de uma dor sequer.

Há um mês ele chegou da sua caminhada matinal e deitou-se. "Você está doente, papai?", perguntou Iris. "Não, só um pouco cansado", respondeu Yitzhak Ganon, antes de dormir. Mas, horas depois, ele ainda estava cansado. "Não preciso de nenhum médico", disse ele à filha.

Na manhã seguinte, a situação dele piorou. A mulher e a filha de Ganon ligaram para um médico, que diagnosticou uma infecção viral e disse a ele que fosse para o hospital. Ganon resistiu. Mas finalmente ele percebeu que a sua vida corria perigo. Em determinado momento, ele deixou de resistir às ordens médicas.

"Apenas um rim"
A família dele o levou ao hospital da sua cidade, Petach Tikva, próxima a Tel Aviv. Assim que deu entrada no hospital, ele perdeu a consciência. "É um ataque cardíaco", disse o médico. Os coágulos sanguíneos foram retirados com o auxílio de pequenos balões, e os médicos colocaram cinco stents no paciente. "Nós achamos que ele não fosse sobreviver à cirurgia", conta Eli Lev, o médico. "Especialmente porque ele só tem um rim".

Quando Yitzhak Ganon recobrou a consciência, ele contou aos médicos onde perdeu o outro rim - e por que evitou consultas médicas durante 65 anos. Um repórter do jornal israelense "Maariv" ouviu falar na história dele. E, agora, semanas após a operação, Ganon está disposto a contar a sua história a um repórter alemão pela primeira vez.

Ele estica-se e observa uma foto pendurada na parede da sala. Ela mostra a Acrópole, em Atena. "Eu vim de Arta, uma pequena cidade no norte da Grécia. O fato ocorreu em um sábado, 25 de março de 1944. Nós só contávamos com velas para celebrar o sabá, quando um oficial das SS (Schutzstaffel, "esquadrão de proteção", tropa de elite do regime nazista alemão) e um policial grego invadiram a nossa casa. Eles nos disseram que tínhamos que nos preparar para uma longa viagem".

O homem de 85 anos levanta a manga da camisa e revela o seu antebraço esquerdo. O número 182558 está tatuado em tinta azul escura.

Amarrado
O transporte para Auschwitz levou duas semanas. O pai de Ganon, que estava doente, morreu durante a viagem. Ao chegarem, eles tiveram que tirar as roupas para submeterem-se a uma inspeção. A mãe e os cinco irmãos de Ganon foram mandados para a câmara de gás.

Yitzhak Ganon foi levado para o Hospital Auschwitz-Birkenau, onde Josef Mengele, o chamado "Anjo da Morte", realizava experiências sinistras com prisioneiros judeus.

Ganon teve que deitar-se em uma mesa, onde foi amarrado. Sem nenhuma anestesia, Mengele fez uma incisão na parte inferior do seu dorso e extraiu um dos seus rins. "Eu vi o rim pulsando na mão dele e chorei como um louco", conta Ganon. "Eu gritei o 'Shema Yisrael' ("Escuta, oh Israel"; as duas primeiras palavras da seção do Torá que constitui a exposição de fé central do judaísmo). Implorei pela morte, para parar de sofrer".

Após a "operação", ele foi obrigado a trabalhar na sala de costura de Auschwitz sem o uso de nenhum analgésico. Entre outras coisas, ele teve que limpar instrumentos médicos ensanguentados. Certa vez, ele teve que passar a noite inteira em uma banheira com água gelada porque Mengele queria "testar" as suas funções pulmonares. Ao todo, Ganon passou seis meses e meio no hospital do campo de concentração.

"Apenas cansaço"
Quando não viram mais nenhuma utilidade nele, os nazistas o mandaram para a câmara de gás. Ele só sobreviveu por um golpe de sorte: na câmara de gás só cabiam 200 pessoas. Ele era o número 201.

Em 27 de janeiro de 1945, Auschwitz foi ocupado por tropas de libertação soviéticas. Yitzhak Ganon retornou à Grécia e descobriu que os seus familiares restantes - um irmão e uma irmã - haviam emigrado para Israel em 1949. Ele casou-se. E jurou que jamais faria consultas médicas. "Em toda ocasião em que esteve doente, mesmo que a situação fosse grave, ele me disse que o problema era apenas fadiga", conta a mulher de Ganon, Ahuva.

Mas Ganon ficou feliz por ter finalmente ido para o hospital após o ataque cardíaco. Uma semana depois ele sofreu um novo ataque cardíaco, e recebeu um marca-passo. "Se os médicos não estivessem por perto, eu agora estaria morto", diz Ganon, sorrindo pela primeira vez. Yitzhak Ganon sobreviveu mais uma vez.

Tradução: UOL

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