Conseguirá Obama conter a sede de gasolina dos norte-americanos?

Klaus Brinkbäumer

Nenhum governo dos Estados Unidos foi tão sério quanto o de Obama nas suas advertências sobre os perigos da mudança climática. Mas os norte-americanos estão divididos: metade deles enxerga as políticas de proteção do clima como propostas socialistas e a outra metade deseja salvar o mundo. Será que Obama conseguirá fazer com que os Estados Unidos adotem uma rota verde?

Existem partes dos Estados Unidos nas quais não existe nenhuma evidência real da discórdia social, do ódio e da agressividade com que os diferentes grupos interagem uns com os outros, e onde ninguém parece questionar a opinião prevalecente.

Em Las Vegas, no Estado de Nevada, constroem-se cachoeiras artificiais e estradas grandes para carros enormes, porque a opulência e o desperdício fazem parte da razão de ser daquela cidade. Os moradores de Las Vegas não têm nenhuma dúvida de ordem moral em relação aos seus estilos de vida e aos excessos de consumo que veem ao seu redor.
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    Nenhum governo dos Estados Unidos foi tão sério quanto o de Obama nas suas advertências sobre os perigos da mudança climática. Mas será que o presidente conseguirá o apoio do povo?

O petróleo e a água sempre vieram de algum outro lugar, argumentam eles, portanto por que esse sistema deveria acabar? Faz o mais perfeito sentido que, em Washington, senadores e lobistas de Nevada defendam as causas que são importantes para os eleitores do Estado: crescimento, emprego e progresso - tudo sem impostos e regulações. Segundo essa perspectiva, não existe nenhum bom motivo pelo qual os rios que cortam o deserto algum dia secarão.

Berkeley, na Califórnia, é, sob certo aspecto, um lugar similar. Uma cidade na qual todo mundo compartilha mais ou menos as mesmas convicções - a única diferença é que os moradores de Berkeley têm ideias muito diferentes daquelas dos moradores de Las Vegas.

Os habitantes de Berkeley, são indivíduos que acreditam ter a obrigação de salvar o mundo. Essas pessoas andam de bicicleta, mesmo sendo norte-americanas. Elas separam plástico de papel nos seus depósitos de lixo reciclável. Aliás, hippies de Berkeley foram os primeiros norte-americanos a separar e reciclar o seu lixo. Mesmo sendo norte-americanos, os moradores de Berkeley isolam termicamente as suas janelas, instalam painéis solares nos seus telhados e pensam em maneiras de aproveitar a energia eólica na Baía de São Francisco. E, por serem norte-americanas, essas pessoas, como por exemplo Amy Kiser, pensam em como divulgar a sua mensagem para o resto do país e do mundo.

Kiser, diretora do Ecology Center, uma espécie de centro de educação para adultos sobre a era da mudança climática, cresceu em Wyoming, um Estado produtor de carvão. Incapaz de convencer os seus próprios pais de que a mudança climática é real, ela sabe muito bem qual é o problema dos Estados Unidos: o país esqueceu-se de como se estabelecer um diálogo.

Um país paralisado pelo ódio interno
Existem dois tipos de norte-americanos que não se falam. De fato, esses dois tipos de norte-americanos - de um lado o de Las Vegas e do outro o de Berkeley - desprezam e ridicularizam um ao outro.

"Sempre fomos um país enorme e repleto de contradições, mas atualmente uma questão como a da mudança climática transformou-se em uma espécie de esporte", diz Kiser. "Uma equipe joga pela proteção ao clima e a outra pela indústria. E os torcedores torcem pelos seus respectivos times e odeiam os torcedores adversários".

Em outras palavras, quando um dos grupos diz que a Terra está ficando mais quente, o outro lado discorda, apenas por uma questão de convicção básica. A mesma dinâmica parece se aplicar a todas as grandes questões nos Estados Unidos. Se um lado procura promover a reforma do sistema de saúde e uma legislação para proteger o clima, o outro campo sustenta que ambas as metas são sinônimos de socialismo e que um presidente que defende essas propostas é um novo Hitler. Os Estados Unidos transformaram-se em um país paralisado pelo ódio interno. O país é atualmente uma república de blogueiros e de programas radiofônicos de entrevistas e discussões, uma nação de cidadãos estridentes e de uma campanha presidencial eterna, cheio de gente paranoica, mimada e metida a santa. Essas pessoas tendem a se entrincheirar nas suas posições, já que o poder legislativo é por demais complicado, com as suas duas casas no Congresso, nas quais são necessárias maiorias nítidas para que se aprove qualquer projeto de lei - maiorias que raramente se materializam. Profundas divisões no seio da sociedade geraram uma lentidão norte-americana na última década e estão limitando cada vez mais a capacidade de ação do país.

A questão é: como esta situação pode ser mudada? Se assumirmos que desta vez um dos lados tem razão, não apenas porque a existência da mudança climática foi comprovada de forma indubitável, mas também porque está muito claro que os Estados Unidos contribuíram mais do que qualquer outro país para a ocorrência dessa mudança, como se poderia modificar as políticas desse Estado e a maneira como a sociedade norte-americana pensa e age? E com que velocidade essas modificações poderiam ser implementadas?

Qualquer indivíduo nos Estados Unidos que presta atenção àquelas questões relativas à alteração climática está familiarizado com os dados. O norte-americano médio é responsável pela emissão de 19 toneladas de dióxido de carbono por ano, o que é mais do que o dobro do índice do europeu médio e mais do que o quádruplo daquele de um cidadão chinês. Se a comunidade global pretende limitar o aquecimento do planeta a não mais do que dois graus centígrados até o ano 2015, "os Estados Unidos têm que liderar as iniciativas", diz o presidente Barack Obama. "Se não fizermos nada, os esforços do resto do mundo jamais serão suficientes", alerta o ativista ambiental e ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore.

Um país híbrido
Gore é praticamente idolatrado no norte da Califórnia, onde as pessoas adotam estilos de vida semelhantes àquele que o ex-presidente defende. Existem lá muitas pessoas como Dan Flanagan, que acumulou a sua fortuna em Wall Street e que atualmente dirige a organizaçãoiends of the Urban Forest (Amigos da Floresta Urbana) em São Francisco: um homem inteligente que usa tênis, calça Levis e uma camisa verde, e cujo grupo, com dez funcionários, 8.500 membros e um orçamento de US$ 1,4 milhão (950 mil euros, R$ 2,45 milhões), já plantou 43 mil árvores em São Francisco. "Esta é uma cidade mudada", afirma Flanagan.

Amy Kiser e a sua equipe oferecem cursos em Berkeley e constroem casas modelos com sistema de reciclagem de água usada. Eles criaram os mercados locais onde os agricultores vendem os seus produtos aos moradores das cidades três vezes por semana. "Não temos escolha", argumenta Kiser. "Não podemos esperar até que as ideias da Casa Branca cheguem até a base da sociedade. Temos que ser visionários no nível local, e fazer com que ser visionário torne-se algo comum". Mas, como?

Flanagan e Kiser sabem que estão lidando com gente que pensa de forma semelhante nas suas cidades e ao longo das duas costas do país, que são regiões altamente democratas. Entretanto, a forma como as pessoas pensam nessas regiões nada tem a ver com os indivíduos que vivem em Las Vegas ou Missouri. Os Estados Unidos são uma sociedade híbrida, que possui uma parte dinâmica e progressista e outra conservadora e até mesmo reacionária. Um país de cientistas e pensadores, que não tolhe a criatividade, mas também um país de preservadores de tradições e obstrucionistas.

Uma jornada através dos Estados Unidos na era da mudança climática pode conduzir o viajante a políticos, cientistas e escritores, de leste a oeste, do Estado de Washington ao de Nova York, passando por parques nacionais, leitos de rios secos, e indo de Las Vegas a Los Angeles e a Berkeley. Mas o que tal jornada não revela é se os Estados Unidos acabarão destruindo ou salvando o mundo. Por ora, os dois campos opostos ainda estão se defrontando, e não se sabe qual deles prevalecerá.

Ou talvez já se saiba. É possível que a outra metade do país acabe reconhecendo que a mudança climática é real e que o mundo está esperando que os Estados Unidos façam algo quanto a isso. E também é possível que quando este fato seja entendido, o país institua novas leis que anunciem uma nova política econômica e climática. Mas será que isso ocorrerá com rapidez suficiente?
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    Cultura da opulência Em Las Vegas (EUA), constroem-se cachoeiras artificiais e estradas grandes para carros enormes, porque a opulência e o desperdício fazem parte da razão de ser daquela cidade. Os moradores de Las Vegas não têm nenhuma dúvida de ordem moral em relação aos seus estilos de vida e aos excessos de consumo



O exército de Donohue
Atualmente um desses conflitos intrinsecamente norte-americanos é bem visível. Thomas Donohue, um homem de terno escuro, gravata de nó fino e cabelos repartidos do lado direito da cabeça, é um daqueles indivíduos meio barulhentos que não padece de nenhuma dúvida interna aparente e que ditou o tom em Washington antes que Obama fosse eleito para ocupar o Salão Oval da Casa Branca. Os Estados Unidos são um país abençoado, que não deve nada ao mundo e que não tem o menor motivo para sentir-se culpado quanto a qualquer coisa. Esta é a visão de Donohue.

Em certa ocasião, quando ele ainda era o presidente da American Trucking Association (associação norte-americana de transportes por caminhões), alguém reclamou do avião particular dele durante uma reunião. "Quantos assentos tem o meu avião?", perguntou Donohue a um assessor.

"Oito, senhor", respondeu o assessor.

"Vamos encomendar um com 12 assentos amanhã", disse Donohue.

Os tempos mudaram, mas Donohue, que ainda viaja de jatinho particular, não mudou. Hoje em dia, aos 71 anos de idade, ele é presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, uma federação de três milhões de companhias. Embora Donohue insista que não quer nenhum conflito com o governo Obama, e que deseja encontrar soluções conjuntas, ele gasta cerca de US$ 100 milhões (R$ 175 milhões) para representar interesses especiais. A Câmara de Comércio dos Estados Unidos emprega 18 lobistas em Washington, e conta com uma equipe de 188 voluntários - uma rede de influência que não pode ser subestimada. O grupo, o exército de Donohue, tem como objetivo impedir que os Estados Unidos instituam uma legislação para a proteção climática.

"Isso porque a nossa economia não pode suportar uma lei que destrua empregos", argumenta Donohue.

A economia não está tão certa quanto a isso. A Apple, a Levi Strauss e muitas outras empresas saíram da Câmara de Comércio devido à posição de Donohue quanto à mudança climática. Essas empresas dizem que a câmara não prejudica apenas os seus membros, mas também os Estados Unidos.

"Uma comporta foi aberta"
Mas a economia está muito mais adiantada do que a política do país, afirma Allen Hershkovitz. "Muitas reformas estão ocorrendo neste momento porque o mercado não precisa esperar por regras políticas. Sempre foi assim nos Estados Unidos: o mercado dita o ritmo, e o mundo político segue atrás, colocando em vigor as legislações", afirma ele.

Hershkovitz tem cabelos negros e encaracolados e está sentado no seu escritório na Rua 20, em Nova York, rodeado de livros, revistas, fotografias e pôsteres. Espalhados pelo escritório estão objetos criados com o propósito de um dia modificar o mundo, como, por exemplo, um CD que ao ser produzido gera 40% menos emissão de dióxido de carbono do que um CD convencional. "Será que a ideia vai pegar?", pergunta ele. "Não sei. Mas as coisas estão em andamento".

Hershkovitz é um cientista do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC, na sigla em inglês), uma das organizações ambientais mais poderosas do país. Ele afirma perceber que há mais do que simples interesse por parte das companhias norte-americanas. Na verdade, ele diz que é possível perceber o entusiasmo crescente em instituições como a Disney, a Sony e a Associação Nacional de Basquete (NBA, na sigla em inglês), onde as pessoas perceberam que os Estados Unidos precisam agir.

Elas procuram Hershkovitz em busca de conselhos sobre o que poderiam fazer para ajudar a resolver o problema. Ele diz que esse foi um dos motivos pelos quais a Liga Principal de Beisebol (MLB, na sigla em inglês) passou a reciclar o seu lixo - são grandes quantidades de dejetos, é verdade, mas pelo menos ela recicla. E as razões que levaram 25 dos 39 cinemas da Broadway a atualmente adotar iluminação à base de LED nas suas instalações para poupar eletricidade. A Wal-Mart vende painéis solares, e agora a Home Depot seguiu o exemplo.No futuro, quando a NBA construir instalações de basquete na China, o resultado será edifícios de alta eficiência energética.

"Uma comporta foi aberta", diz Hershkovitz. E, até certo ponto, ele tem razão. Prefeitos estão falando em estufas de plantas e em transporte público municipal, as pessoas estão comprando carros menores, as revistas estão usando a cor verde nas suas capas, a prefeitura de Nova York constrói ciclovias e a Califórnia adotou padrões voluntários para a redução das emissões de dióxido de carbono. Mas há uma certa ingenuidade em relação a tudo isso. Quem quer que tenha estado em Los Angeles, uma cidade de tráfego eternamente congestionado e coberta por uma enorme nuvem de fumaça, acha difícil imaginar que algum dia este país mudará.

Quem dirigir de Los Angeles no sentido noroeste, rumo a Santa Barbara, encontrará desvios devido aos incêndios florestais. E quem rumar para oeste a partir de Los Angeles cruzará cursos d'água como o Rio Grande, que atualmente é pouco mais do que um filete de água, e o Rio Colorado, que hoje em dia é difícil de reconhecer como sendo um rio.

É muito tarde para dar passos pequenos
Há caminhões gigantescos circulando nos Estados Unidos. O país produz cem bilhões de sacolas plásticas por ano, e dificilmente alguém repara quando as suas compras - que às vezes consiste de uma quantidade pequena de produtos, como duas bananas ou uma barra de manteiga - são embaladas com duas ou até três sacolas plásticas no caixa do supermercado. Há janelas que não fecham inteiramente, milhões de aparelhos de ar condicionado que funcionam ininterruptamente, e sistemas absurdamente ineficientes para o fornecimento de água, eletricidade e gás. Em 2009, tudo isso faz dos Estados Unidos um país que acabou de descobrir, com alegria pueril, que pode de fato ser um pouco mais frugal, e que está imensamente orgulhoso desta descoberta. Mas o que os norte-americanos não parecem perceber é que agora é um pouco tarde para que o país comece a dar passos pequenos.

As campanhas imagéticas, é claro, têm dimensões enormes. O país inteiro pode estar falando sobre mudança, mas os veículos híbridos ainda correspondem a apenas 2,5% de todos os carros vendidos. E somente 10% das lâmpadas incandescentes foram substituídas por lâmpadas fluorescentes. Será que tudo isso não seria apenas uma moda passageira?

"Bom, você tocou em um ponto importante", diz Hershkovitz, o cientista do NRDC. Mas, a seguir, ele pergunta: "Será que estamos caminhando com rapidez suficiente?". E ele próprio responde: "Não, não estamos. Nós ainda emitimos 17 milhões de toneladas de gases causadores do efeito estufa na atmosfera todos os dias, e ainda contribuímos para o aquecimento global". Mas Hershkovitz está certo quando diz que um país que está atrasado oito anos ou mais simplesmente tem que acordar e começar de algum lugar. "Qualquer passo pequeno é melhor do que não dar passo algum", argumenta Hershkovitz. "Em uma época como esta, eu não posso desencorajar ninguém".

Ele enxerga um movimento em progresso, e visualiza um Estados Unidos estático descobrindo novamente o seu rumo. Um país que experimentará uma "explosão de energia criativa e empresarial". É claro que Hershkovitz, assim como vários outros especialistas, espera que alguém, em algum lugar dos Estados Unidos, invente em breve o Google verde, a Microsoft da era da mudança climática, e ao fazer isso salve o mundo. "Por este motivo Washington precisa capitalizar esta onda que surgiu em meio à população. É necessário que o Congresso contribua para o nivelamento do campo de ações", diz Hershkovitz.

"Um interesse nacional e econômico central"
De fato, o governo é parte do problema nos Estados Unidos. Práticas como a pesca excessiva, o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis são subsidiadas nos Estados Unidos, e os lobistas trabalham para garantir que tudo isso continue o jeito que está. A tarefa deles é facilitada pelo fato de que, em um país que está constantemente em ritmo de campanha, ficou quase impossível acabar com os subsídios depois que estes são instituídos. "Eliminar os subsídios para o carvão seria uma medida benéfica? Claro que sim. Mas será que isto acontecerá? De jeito nenhum", diz Hershkovitz. "Em outras palavras, o nosso objetivo deve ser fazer com que a energia eólica e a solar venham a contar com os mesmos subsídios".

Houve uma época - muito tempo atrás - em que os Estados Unidos possuíam uma política climática com a qual muita gente concordaria. Quando os países árabes reduziram as remessas de petróleo para os Estados Unidos e outros países em 1973, Washington, a princípio sob o governo republicano do presidente Gerald Ford, e a seguir sob o seu sucessor democrata, Jimmy Carter, impôs padrões rígidos de economia de combustível para os novos veículos: 27,5 milhas por galão (11,7 quilômetros por litro), o que significou dobrar a economia de combustível em dez anos. A indústria automobilística atendeu à exigência, e a Lei de Conservação e Politica de Energia de 1975 não chegou sequer a ser politicamente polêmica.

A seguir veio Reagan. O presidente Ronald Reagan instituiu novamente os padrões conservadores de consumo de combustível, acabou com os orçamentos para projetos de promoção de fontes alternativas de energia e ordenou que os 32 painéis solares instalados por Carter no telhado da Casa Branca em 1979 fossem removidos.

Para Reagan, tudo dizia respeito ao poder norte-americano. A sua mensagem era bem clara: nós não permitiremos que ninguém nos detenha. E não deixaremos que imponham limites às nossas ações.

Protegendo o estilo de vida norte-americano
Politicamente, a mensagem de Reagan foi de que qualquer intervenção governamental é diabólica e toda regulação é fundamentalmente errada. A doutrina Reagan foi aplicada ao meio ambiente, em particular, e os seus efeitos são sentidos até hoje, entre os republicanos em todos os setores, e entre os democratas nos Estados produtores de carvão e fabricantes de automóveis. Essa doutrina transformou-se em uma abordagem fundamental que é abraçada com um fervor religioso. Perguntaram certa vez a Ari Fleischer, secretário de Imprensa do ex-presidente George W. Bush, se o presidente acreditava que os norte-americanos deviam modificar a sua forma de agir, tendo em vista os níveis grotescamente elevados de consumo de energia. Fleischer disse: "A resposta é um grande não. O presidente acredita que isso seja um estilo de vida norte-americano, e que o objetivo do governo deva ser proteger esse estilo de vida".

Thomas Friedman, colunista do "New York Times", umas das pessoas cujas palavras têm um impacto sobre Obama, chama essa atitude de "estúpidos como desejamos ser". Conforme disse David Rothkopf, ex-vice-subsecretário de Comércio Internacional durante o governo do ex-presidente Bill Clinton: "Transformar os Estados Unidos no país mais verde do mundo não é um ato abnegado de caridade nem uma indulgência moral ingênua. Pelo contrário, isso é atualmente um interesse central de segurança e econômico".

Antes mesmo de chegar ao poder, o governo Obama começou a lidar com essa questão. Na época parecia que o novo presidente desejava desfazer tudo o que o governo Bush havia feito em oito anos de governo. As primeiras conversas - não oficiais, secretas e, portanto, arriscadas - ocorreram no período entre a eleição e o dia da posse, nos escritórios do Fundo Marshall alemão em Washington. Os norte-americanos insistiram que desejavam aprender logo para poderem dar início às suas políticas já no início do governo.

Os primeiros conflitos logo emergiram. Os norte-americanos proclamaram orgulhosamente que desejavam reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa para os níveis de 1990 até 2020, mas isso não pareceu suficiente para os europeus, que insistiram que os norte-americanos estabelecessem uma meta 20% inferior aos níveis de 1990. Os norte-americanos retrucaram que tinham experimentado um índice de crescimento econômico maior do que o da Europa. Isso poderia ser traduzido em maior consumo de energia, o que por sua vez significava que as reduções dos Estados Unidos eram, em termos absolutos, maiores do que as da Europa.

Conferência do Clima COP15

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E assim a conversa oscilou de um lado para o outro. Um diálogo meio cáustico, porém inteligente, entre norte-americanos e alemães. Uma discussão entre o especialista de Obama em meio ambiente, Todd Stern, e Matthias Machnig, secretário de Estado do Ministério do Meio Ambiente da Alemanha. Os norte-americanos afirmaram que a União Europeia, embora enaltecesse os seus excelentes números relativos ao meio ambiente, tinha uma tendência a esquecer-se das suas metas ambientais todas as vezes em que enfrentava uma pequena crise econômica. Machnig, por sua vez, elogiou Obama por ter realizado - pelo mero fato de ter sido eleito - algo de brilhante após "oito anos desperdiçados nos quais o pessoal de Bush paralisou tudo". Obama estabeleceu um vínculo entre o clima e a economia, e transformou a revolução verde na base a partir da qual a economia seria consertada. A seguir, em 20 de janeiro de 2009, ocorreu a mudança de governo em Washington.

Em março de 2009, Stern, agora o enviado especial dos Estados Unidos para a questão da mudança climática, participou da conferência do clima em Bonn, na Alemanha, onde disse aquilo que o mundo aguardava: sim, o aquecimento está ocorrendo neste momento. E, sim, precisamos agir agora e de forma conjunta. Stern assegurou que o governo Obama faria a coisa certa. Atualmente, nove meses depois, Stern e o vice-enviado especial para a mudança climática, Jonathan Pershing, ainda são tidos pelos seus colegas da União Europeia como "pessoas bem informadas sobre os fatos". Mas, conforme diz uma pessoa que tem qualificação para avaliar essa questão, Stern e Pershing "infelizmente nunca têm nenhuma estratégia".

Obama despreza a abordagem de Clinton
Há uma grande distância entre Washington, D.C. e Erfurt, no Estado da Turíngia, no leste da Alemanha, onde Matthias Machnig é atualmente o secretário estadual da Economia.

Apesar disso, ir até lá é uma viagem que vale a pena porque Machnig, que foi secretário de Estado do ex-ministro alemão do Meio Ambiente, Sigmar Gabriel, preparou e conduziu vária vezes negociações com os norte-americanos. Machnig tira o casaco, pega um maço de cigarros Gauloises e começa a falar - mais abertamente, agora que ele não ocupa mais um cargo federal.

Segundo Machnig, a equipe de Obama não se mostrou interessada pela abordagem de Clinton. "Em 1997, Bill Clinton concordou com o Protocolo de Kyoto, foi para a casa e não conseguiu obter uma maioria em nenhuma das casas do Congresso. Agora Obama quer fazer promessas que seja capaz de ver aprovadas no Senado e na Câmara dos Deputados", diz Machnig. E o qual é exatamente a implicação disso?

A resposta? Ninguém na verdade sabe ainda.

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