"Regras do clima de cima para baixo não são suficientes", diz Elinor Ostrom, Nobel de Economia

Christoph Seidler e Christian Schwärgerl

O mundo está reunido em Copenhague em um esforço para alcançar um acordo para diminuir o aquecimento global. Elinor Ostrom, vencedora do prêmio Nobel de economia deste ano, falou com o Spiegel Online sobre parceria compartilhada, ação local e por que não podemos ficar sentados esperando que os políticos ajam.
  • Steve C. Mitchel/EFE

    Professora da Universidade de Indiana (EUA), Elinor Ostrom, 76 anos, levou o Nobel de Economia deste ano. Ela é a primeira mulher a receber o prêmio desta categoria desde a sua instituição, em 1968



Spiegel: A reunião de cúpula está prestes a estabelecer novas regras globais para a forma como tratamos a Terra. Mas as pessoas estão dispostas a mudar suas vidas pessoais de acordo?
Ostrom
Sob as circunstâncias corretas, as pessoas se dispõem a aceitar os esforços e custos adicionais. Tudo depende da confiança no fato que as outras também vão agir. Os seres humanos têm a capacidade de se engajar e de ver que seu próprio futuro será prejudicado se não mudarem seus estilos de vida. Sob as circunstâncias corretas, eles compreendem: não é eu contra você. É todos nós contra nós mesmos, se não agirmos. Então a confiança realmente é o recurso mais importante.

Spiegel: Como podemos gerar suficiente confiança para que ajamos todos em conjunto?
Ostrom:
As regras estabelecidas no topo não são suficientes. As comunidades bem-sucedidas em geral têm alguns princípios em comum -monitoramento e sanção dos participantes, por exemplo. Elas também têm mecanismos de resolução de conflitos, e as pessoas têm alguma autoridade para criar suas próprias regras. Sob essas circunstâncias, os humanos podem desenvolver alguma confiança no outro -sabem que se tomarem uma medida cara que beneficie a todos no longo prazo, outros também investirão.

Spiegel: Por que é menos eficaz quando os governos estabelecem regras estritas de cima para baixo?
Ostrom:
Porque as pessoas não se identificam com elas. Minha pesquisa mostrou que as florestas administradas pelas comunidades locais estão em muito melhor estado do que os parques governamentais, onde os moradores se sentem deixados de fora e as autoridades podem ser compradas. Vamos imaginar que moramos em uma aldeia e todos concordamos que nenhum de nós vai entrar na floresta no final de semana, para dar à floresta tempo para recuperar. Se então eu vejo você na floresta quando você não deveria estar, provavelmente vou dar uma bronca em você. Se apenas o Estado estiver no comando, vou passar sem falar nada.

Spiegel: Em sua pesquisa, você se concentrou em níveis locais e regionais. O que a faz pensar que suas soluções funcionariam para todo o planeta?
Ostrom:
De fato, a escala global é um desafio. Construir esse tipo de relacionamento entre diferentes partes é difícil. Precisamos que nossos líderes mundiais assumam algumas das decisões em nível muito grande. Aqui na reunião de cúpula, esses sujeitos estão conversando e desenvolvendo confiança nos outros porque estão cara a cara. Mas depois irão para casa -e é aí que a verdadeira ação começa.

Spiegel: O dinheiro pode ajudar a reforçar a confiança entre nações em desenvolvimento e nações industrializadas?
Ostrom:
Talvez. É difícil contemplar um acordo de clima sem compromissos financeiros sérios. Mas ao mesmo tempo, estou muito preocupada e nervosa com a corrupção. Se nós jogamos dinheiro em um país no qual o nível de corrupção é muito alto, vamos estar nos enganando se não pensarmos que parte dele vai terminar em bolsos errados. A princípio, muitas das propostas na mesa parecem ótimas. Mas quatro a cinco anos depois, você tem muitos políticos com dinheiro em bancos na Suíça. Precisamos de regras e controles rígidos para assegurar que os bilhões colocados na mesa aqui sejam usados corretamente.

Spiegel: Em outras palavras, uma força tarefa anticorrupção -como a que existe na Indonésia- poderia ser a melhor agência de proteção ambiental?
Ostrom:
Sem dúvida! Quando você percebe como a corrupção entrega florestas para grandes corporações e se faz de cega para o rompimento das regras de proteção da mata, você vê que o suborno é um dos principais fatores para a destruição ambiental.

Spiegel: É possível salvar o clima com um único tratado?
Ostrom:
Um tratado não vai resolver o problema inteiramente. É por isso que proponho uma abordagem multicêntrica para a mudança climática. Precisamos que todos os níveis da sociedade humana trabalhem nisso para termos eficácia no longo prazo. O papel de cidades, aldeias, comunidades e redes de pessoas tem sido negado.

Spiegel: O que acontece se não houver acordo?
Ostrom:
Precisamos fugir da ideia de que há apenas uma solução na escala global. Há muitos, muitos níveis. Então precisamos tomar ação em níveis mais baixos. Se os políticos não concordarem em Copenhague, eu gostaria de embaraçá-los muito conseguindo alguns convênios onde as pessoas estão fazendo alguma coisa -essencialmente dizendo: "Estamos cansados de esperar por vocês." A cidade de Freiburg é um lugar muito bom para entender o que isso realmente significa.

Conferência do Clima COP15

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Spiegel: Por que Freiburg?
Ostrom:
Passo bastante tempo na Alemanha e estou bem impressionada com algumas das ações locais que vejo. As medidas locais não dão conta de tudo, mas pense apenas em todas as ciclovias que eles construíram ali. Esse é um caso onde a ação dos indivíduos está reduzindo as emissões. Ao mesmo tempo, é uma coisa muito saudável. Nos domingos, todo mundo vai para os bosques e se diverte com suas bicicletas -e não em seus carros. É bom para a saúde e para o meio-ambiente. Então todo mundo deve se perguntar: por que eu não pedalo para o trabalho e deixo a porcaria do carro em casa ou me livro dele inteiramente?

Spiegel: Ainda assim, uma abordagem tão descentralizada parece dolorosamente lenta. Precisamos de ação rápida, se quisermos limitar o aquecimento global a dois graus Celsius.
Ostrom:
Dolorosamente lento é ficarmos sentados girando os dedões esperando esses caras de cima tomarem uma decisão. Devemos simplesmente culpar os políticos? Não estou dizendo que podemos resolver tudo, mas podemos dar passos significativos. Até certo ponto, podemos desafiá-los. As pessoas podem contatar políticos tolos, como alguns congressistas norte-americanos que se opõem às medidas de mudança climática, e dizer-lhes que estão agindo irresponsavelmente.

Spiegel: Por que os EUA relutam tanto em combater a mudança climática?
Ostrom:
Na atual situação econômica, algumas pessoas pensam que não podemos pagar os custos. Acho que é o contrário, que se não agirmos agora vamos enfrentar problemas econômicos até maiores no futuro. E é claro que ainda temos o legado ruim de nosso presidente anterior, George W. Bush. Por oito anos, a Casa Branca não considerou a questão importante. Não tínhamos líderes que compreendiam que há uma fundação científica. Obama tem uma chance bem maior de compreender a ciência. Mas até para ele é difícil.

Spiegel: As preocupações com a mudança climática lentamente levaram as pessoas a verem a atmosfera da Terra como um bem comum que todos precisam proteger. Qual é o próximo desafio?
Ostrom:
Os oceanos! Eles estão ainda mais ameaçados. É um desastre, uma situação muito difícil. A pesca é super-explorada e o lixo, inclusive CO2, é jogado em largas quantidades nos oceanos. A lei do mar não foi eficaz. Muitos navios de pesca agem como bandidos. É por isso que a governança dos oceanos é uma das principais prioridades para salvaguardar o futuro.

Tradução: Deborah Weinberg

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