Dubai está prestes a inaugurar edifício mais alto do mundo

Erich Follath e Bernhard Zand

O edifício mais alto do mundo será inaugurado em breve em Dubai, ainda que o emirado continue abalado pela crise financeira. Seria o Burj Dubai uma expressão de megalomania fracassada ou uma prova da visão fabulosa do líder de Dubai, Mohammed bin Rashid Al Maktoum?

A paisagem é clara, o ar é suave e sedoso, e apenas uma espessa faixa de vermelho separa o céu e o mar ao cair da noite. O limite entre o grandioso e o kitsch torna-se difuso aqui, a meio caminho do topo do Burj Dubai, o edifício mais alto do mundo.
  • AFP

    Colosso ou megalomania? Com os seus 160 andares, o prédio tem 818 metros de altura. Os turistas precisam ajoelhar-se na calçada para fotografarem o prédio inteiro, da base até o topo

Ele tem cheiro de pintura, verniz e couro novo, e os passos das visitantes do sexo feminino sobre os tacos e o mármore produz um eco de tonalidade elegante que subitamente desaparece quando elas pisam nos carpetes macios. Uma ilha artificial com o formato de uma palmeira é visível no sudoeste, e ao norte vê-se um arquipélago também artificial que parece um mapa-múndi.

Mas somente a mobília, os carpetes, os cheiros e os sons são reais. O resto é uma ilusão. O visitante não está observando o Golfo Pérsico de uma altura de 400 metros. Na verdade, ele ou ela está no nível do solo - em um apartamento moderno que traz um mural enorme estendido ao lado de fora das suas janelas que vão do teto ao assoalho -, na base de um prédio hermeticamente fechado.

Este modelo de apartamento está localizado no recém-fechado escritório de vendas da Emaar Properties, a verdadeira companhia de construção civil responsável pelo Burj Dubai. Ela própria não respeitou os seus próprios limites - envolvendo-se com projetos na Índia e no Marrocos - e agora está vendendo parte das suas propriedades pela metade do preço. Após despencarem 32% nas últimas semanas, as ações da Emaar ganharam 15 pontos percentuais novamente na última quinta-feira. A Emaar, assim como a cidade inteira, encontra-se à beira da ruína, e no entanto ela comporta-se como se nada tivesse acontecido.

Dubai, mais do que qualquer outra lugar do mundo, epitoma globalização, "inovação" e "progresso impressionante", conforme disse com admiração o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no seu discurso dirigido ao mundo muçulmano, no Cairo, em junho deste ano. Mas o local representa também um exagero incrível. Em Dubai, as utopias parecem às vezes quase reais, e em certas ocasiões a realidade não passa de uma miragem.

O fato é que o edifício é real. Com os seus 160 andares habitáveis, ele tem 818 metros de altura. Os turistas precisam ajoelhar-se na calçada para fotografarem o prédio inteiro, da base até o topo.

O Burj Dubai é tão alto que os beduínos conseguem vê-lo dos seus oásis a cem quilômetros de distância, e marinheiros podem avistá-lo a bordo dos seus super-petroleiros no Golfo Pérsico a 50 milhas náuticas de Dubai - pelo menos nos poucos dias de inverno quando o ar está claro como se vê no mural do modelo de apartamento.

A torre é tão alta que a temperatura no seu topo é oito graus centígrados inferior àquela registrada na sua base. Se alguém abrisse uma porta no topo e uma outra na base, bem como as comportas de circulação de ar instaladas entre elas, uma verdadeira tempestade de vento passaria pelo sistema de ar condicionado do prédio, destruindo tudo em seu caminho, com a exceção talvez das pesadas lajes de mármore nos apartamentos de luxo. Esse fenômeno é chamado "efeito chaminé".

Um exército de trabalhadores imigrantes
Um exército de trabalhadores imigrantes oriundos da Índia, do Paquistão e de Bangladesh, que representam dois terços dos moradores de Dubai, construiu o Burj. Apenas um em cada cinco moradores é considerado "morador local" e tem direito a um passaporte dos Emirados Árabes Unidos. Vários estrategistas de marketing tomam medidas para garantir que ninguém retirará o verniz prateado desta maravilha arquitetônica.

Guardas de segurança fazem com que quem se aproxima demais do local da construção lembre-se rapidamente do significado da expressão "não autorizado". Aqueles que são convidados para uma visita ao prédio, ou apenas ao local da construção, têm que assinar um compromisso de sigilo, cujas cláusulas terão que ser obedecidas de forma "final, irrevogável e incondicional". Quem violar tais cláusulas ver-se-á diante de um tribunal em Dubai.

Tudo isso terá validade por apenas um pouco mais do que duas semanas, até 4 de janeiro de 2010, a data oficial da inauguração - que já foi adiada várias vezes -, quando os construtores esperam que a torre comece a cumprir a sua função como polo de atração para uma nova zona de construção imobiliária de dois quilômetros quadrados, na qual apenas cinco anos atrás o vento soprava sacola plásticas vazias pela areia do deserto. E quando o Burj Dubai for inaugurado, ele será provavelmente um dos últimos grandes projetos durante algum tempo em uma cidade que foi alçada a alturas estonteantes e que agora depara-se com a perspectiva de uma queda vertiginosa.

Em um único dia, na terça-feira da semana passada, os preços na bolsa de valores de Dubai caíram em média 6%. As ações muçulmanas emitidas pela construtura Nakheel sofreram uma queda de 52%, com uma desvalorização de um dólar por ação. A agência de classificação Moody's rebaixou seis outras firmas ligadas ao governo ao status de "junk". Pouca gente acredita que a Dubai World, a maior dessas companhias, será capaz de refinanciar a sua dívida de US$ 26 bilhões (R$ 45,6 bilhões) em um prazo de seis meses, conforme originalmente previsto. O banco norte-americano Morgan Stanley prevê um outro aumento drástico das necessidades de reestruturação da dívida das firmas ligadas ao governo de Dubai, para o dobro do nível atual, ou cerca de US$ 47 bilhões (R$ 84,2 bilhões).

"Em um período de um ano, Dubai deixou de ser o mercado imobiliário de melhor desempenho e tornou-se o pior do mundo", anunciou o "International Herald Tribune". Teria o emirado do Golfo Pérsico, que já foi elogiado pelo seu futuro aparentemente deslumbrante, abocanhado uma porção maior do que era capaz de engolir? E a imagem de uma Península Arábica voltada para o futuro, com aspirações de tornar-se um futuro centro da globalização entre o Oriente e o Ocidente, nada menos do que um modelo para o futuro, teria fracassado?

Ironicamente, foi o "Wall Street Journal", o porta-estandarte da modalidade de capitalismo conservador do Ocidente, que alertou para a arrogância norte-americana e europeia e para a tendência de dos ricos de desprezar os países emergentes da região do Golfo Pérsico e do Terceiro Mundo em geral. "Os velhos centros... veem locais como Dubai, Xangai e Rio de Janeiro com suspeita e com a convicção errônea de que estes modelos foram construídos sobre fundações de areia, estando prestes a desmoronar. Mas na verdade foram as fundações dos países ricos que mostraram-se frágeis", afirmou o jornal. "A julgar pela reação equivocada aos problemas de Dubai, o ano passado não modificou esses comportamentos. Isso deveria nos deixar preocupados, muito preocupados, mas não com Dubai".

É muito cedo para decretar a falência de Dubai. Esta, pelo menos, é a impressão que os xeques procurarão passar quando inaugurarem o Burj Dubai no início de janeiro.

Um edifício supremamente elegante
Mesmo assim, não dá para negar que a torre seja um edifício notável e supremamente elegante, e tampouco que ele seja simplesmente gracioso quando comparado aos cubóides simplistas da era do funcionalismo ou às torres modernas e ostentosas de lugares como Kuala Lumpur e Taipei.

Segundo Adrian Smith, o arquiteto norte-americano responsável pela torre, o projeto básico, uma estrutura central rodeada por três lóbulos, tem como modelo a estrutura das flores do gênero Hymenocallis, um formato que ao mesmo tempo cria mais estrutura visível e reduz a pressão do vento sobre prédios tão altos. À medida que sobe, cada lóbulo inclina-se ligeiramente para trás a cada oito andares, em um efeito que faz lembrar um minarete espiral islâmico e que fornece à torre 26 terraços. Haverá uma piscina ao ar livre em um dos terraços, no 78º andar, e o 124º andar (a 442 metros acima do nível do mar) contará com a terceira mais elevada plataforma de observação do mundo.

Uwe Hinrichs, 68, um nativo da cidade de Bremen, no norte da Alemanha, já havia participado da construção de um outro marco de Dubai, o Hotel Burj-al-Arab, em formato de vela, quando chegou ao canteiro de obra da sua vida ao final de 2004. A fundação de concreto já havia sido construída, sobre 850 estacas, espetadas a uma profundidade de até 55 metros no solo do deserto para aguentarem uma carga de 230 mil metros cúbicos de concreto e de 31 mil toneladas de aço.

"Sob um ponto de vista de construção, o Burj Dubai é uma estrutura relativamente simples", afirma Hinrichs. Um dos maiores desafios, segundo Hinrichs, foi a logística do projeto, um trabalho ininterrupto que durou cinco anos. Cinco anos durantes os quais pessoas, máquinas e materiais tiveram que estar sempre no local exato na hora exata, 24 horas por dia. Hinrichs foi o encarregado da obra inteira. A sua calma típica dos habitantes do norte da Alemanha revelou-se uma vantagem para o seu cargo de coordenador-chefe, assim também como o fato de as pessoas a quem ele estava subordinado não se oporem ao fato de ele ocasionalmente deixar Dubai para assistir a um concerto em Viena ou a uma exposição de Rembrandt em Muscat, em Omã, um país vizinho.

Nacionalidades diversas
Em 2004, uma equipe de cerca de 2.000 pessoas começou a construir um andar de cada vez, completando em média um por semana. Quando a construção do interior do edifício entrou na fase final, no outono de 2009, havia 14 mil pessoas trabalhando no projeto, indivíduos de 45 nações, falando 35 línguas diferentes - engenheiros usando capacetes brancos, seguranças de capacetes vermelhos e trabalhadores de capacetes azuis. Mas, mesmo assim, não houve nenhuma confusão linguística babilônica no local. Os trabalhadores completaram uma jornada total de 95 milhões de horas trabalhadas, a maioria deles com péssimos salários. Um carpinteiro experiente ganhava não mais do que 12 euros (R$ 21,50) por dia, e os trabalhadores comuns ainda menos.

Componentes da fachada do prédio foram trazidos da China, painéis de mármore da Itália e peças de acabamento de madeira do Brasil. Companhias alemãs também participaram da construção do Burj Dubai: a Lopark, do Estado da Renânia do Norte-Vestfália, no oeste da Alemanha, forneceu tacos para assoalhos, em quantidades suficientes para cobrir campos de futebol. A filial alemã da empresa norte-americana Guardian, com sede no Estado da Saxônia-Anhalt, no norte da Alemanha, forneceu dobradiças e acessórios. A Duravit forneceu cerca de 4.000 privadas e bidês. E a Miele contribuiu com 7.650 aparelhos domésticos - a maior encomenda individual da história da companhia. O designer Giorgio Armani comprou 15,2 mil pratos e copos da fábrica de porcelana bávara Rosenthal para o seu hotel, situado nos primeiros oito andares do prédio.
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    Torre de Babel Quando a construção do interior do edifício entrou na fase final, no outono de 2009, havia 14 mil pessoas trabalhando no projeto, indivíduos de 45 nações, falando 35 línguas diferentes - engenheiros usando capacetes brancos, seguranças de capacetes vermelhos
    e trabalhadores braçais de capacetes azuis



E companhias alemãs também tiveram papeis importantes na fabricação e no processamento do material básico do Burj Dubai: concreto. Como o concreto seca com rapidez excessiva a temperaturas diurnas de mais de 40ºC, o material era despejado no edifício à noite. A Basf, a gigante alemã do setor químico, desenvolveu um produto químico especial para tornar o concreto mais maleável na fase inicial e rígido, na fase posterior. A Putzmeister, uma fabricante de bombas de concreto de Stuttgart, forneceu bombas especiais de alto desempenho para bombear a massa de construção até o 160º andar.

De forma discreta e sem sobressaltos, para satisfação total de Hinrichs, a torre foi crescendo, andar por andar - até o dia 6 de junho de 2007, quando o serviço meteorológico do aeroporto enviou a ele, via e-mail, uma imagem de satélite mostrando um ciclone que havia se formado sobre o Oceano Índico, a maior tempestade já registrada na região, que rumava diretamente para o Estreito de Hormuz. "Aquele foi o único dia em cinco anos em que tivemos que interromper os trabalhos no canteiro de obras", conta Hinrichs.

A torre de Dubai já havia superado todos os superlativos da história da construção civil. Ela superou a Torre Taipei 101, de 509 metros de altura, como o maior prédio habitável do mundo, bem como a CN Tower, de Toronto, como a mais alta estrutura livre. Dubai alcançou aquilo que tornou-se a mais ambiciosa das suas metas. A cidade, que uma geração antes era apenas uma vila de pescadores de pérolas, trouxe um recorde mundial para o Oriente Médio. Durante quase quatro milênios, a grande Pirâmide de Giza (138,8 metros) foi a maior estrutura do mundo construída pelo ser humano, antes de ser superada pela Lincoln Cathedral, na Inglaterra (à época, com 160 metros), em 1311.

Tremores
O que poderia agora abalar esse milagre econômico do Golfo Pérsico? Um ataque terrorista? Uma nova guerra do golfo, desta vez contra o Irã? Um outro terremoto, ainda mais forte do que o que atingiu a região em 10 de setembro de 2008?

No dia do ciclone de 10 de setembro de 2009, um operador de guindaste que trabalhava 700 metros acima do solo chamou Hinrichs para informar que o lugar onde ele se encontrava estava "tremendo". Tremores abalaram a cidade portuária iraniana de Bandar Abbas, mas em Dubai, pouca gente (além do operador de guindaste) notou qualquer coisa.

Cinco dias depois, Dubai foi atingida por um outro tipo de tremor, cujo epicentro estava em Nova York, uma outra cidade de arranha-céus. Em 15 de setembro de 2008, o Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos do mundo, entrou com um pedido de concordata.

Tanto Dubai quanto o Ocidente vinham construindo uma torre nos anos de prosperidade do mercado imobiliário. Uma torre de dívida, que agora começava a desmoronar. Mas, apesar das vastas quantias de dinheiro envolvidas na crise no Ocidente, aquilo foi em grande parte, e ainda continua sendo, um fenômeno estranhamente abstrato. Mas não foi isso o que ocorreu em Dubai, que, mais do que qualquer outro lugar do mundo, reflete o desastre financeiro.

"A megalomania clássica parece ter migrado das mentes das pessoas para o sistema em si. Atualmente o sistema é mais louco do que as pessoas", diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk. "É por isso que, como seres humanos, nós estamos terrivelmente desapontados com o curso seguido pela crise. Não havia nem um só indivíduo pitoresco (na Europa) para tornar a crise mais interessante. Em nenhuma outra ocasião eu vi uma conspiração tão enorme por parte de indivíduos pequeno-burgueses".

Sloterdijk pode estar certo no que se refere a banqueiros, analistas e ministros das Finanças do Ocidente. Mas ele aparentemente nunca ouviu falar do xeque Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, 60, criador de cavalos e poeta, amante de carros velozes e potentes, falcoeiro entusiasmado e agente de investimentos de bilhões de dólares. Maktoum é o governante de Dubai e o primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos. "Muitos líderes fazem promessas", disse ele em fevereiro de 2008, quando a Universidade Livre de Berlim lhe concedeu a sua medalha de honra. "Mas nós cumprimos o que prometemos".

Maktoum mandou construir ilhas artificiais nas águas em torno da cidade, batizadas com nomes como "A Palmeira", "O Mundo" e "O Universo". Não só a Universidade Livre de Berlim, mas também o Ocidente inteiro ficou fascinado pela energia e o otimismo do xeque. Assim como os animais puro-sangues no seu haras de cavalos de corrida, ele inseriu os seus assessores mais capazes na órbita da globalização, e no decorrer desse percurso eles construíram novas torres, compraram portos e passaram a operar aeronaves em todo o mundo.

"Crise? Que crise?"
Foram criadas diversas companhias imobiliárias - Dubai Holding, Dubai Properties, Tatweer, Meraas, Sama -, e logo ficou difícil saber quem estava construindo o que, e com o dinheiro de quem. Aparentemente nem mesmo o próprio xeque sempre sabia.

Há cerca de um ano os investidores ainda aglomeravam-se na convenção imobiliária "CityScape Dubai". O ex-piloto de fórmula um Michael Schumacher estava lá, elogiando um arranha-céu dotado de cais coberto para iates. A Nakheel, que atualmente está em uma situação financeira bastante difícil, falava seriamente na possibilidade de construir uma torre de mil metros de altura. E, na ilha Jumeirah, em formato de palmeira, Dubai queimou US$ 20 milhões em fogos de artifício para comemorar a inauguração do seu Hotel Atlantis, uma estrutura que parece saída de um conto de fadas. "Crise? Que crise?", parecia perguntar a cidade.

Mas um ano e algumas semanas depois, um dos assessores do xeque Mohammed apresentou a conta: Dubai acumulou uma dívida de US$ 80 bilhões (R$ 142,3 bilhões), dos quais US$ 50 bilhões (R$ 90 bilhões), ou cerca de dois terços do produto interno bruto, deveriam vencer até 2013.

O xeque sumiu de cena subitamente e ficou desaparecido durantes alguns dias. Surgiram boatos de que ele estaria doente e que padecia de "melancolia". Mas depois ele reapareceu e começou a minimizar a situação, alegando que a crise não tinha afetado Dubai, que Dubai havia na verdade superado a crise, e que Dubai e o seu vizinho rico, Abu Dhabi, encontravam-se tão próximos e inseparáveis como irmãos.

Mas os "irmãos" do reino vizinho, com os quais os cidadãos de Dubai compõem a parte mais significativa dos Emirados Árabes Unidos, não queriam mais nenhuma participação nos excessos de Dubai. Abu Dhabi conta com 7% das reservas mundiais de petróleo, e o seu emir de 64 anos de idade, xeque Khalifa bin Zayed Al-Nahyan, é o presidente dos Emirados Árabes Unidos, enquanto que o xeque Mohammed, de Dubai, é apenas o primeiro-ministro. E atualmente Abu Dhabi vê as atividades prestigiadas do seu parente no emirado vizinho com crescente desconfiança, e provavelmente com uma certa inveja.

No início do ano, Abu Dhabi resgatou Dubai do pior dos seus problemas, com uma injeção monetária de US$ 20 bilhões (R$ 36 bilhões). O emirado interveio novamente nesta semana, fornecendo a Dubai US$ 10 bilhões (R$ 18 bilhões) adicionais em auxílio financeiro. O emirado pode contar com ativos abundantes no seu fundo soberano de US$ 500 bilhões (R$ 896 bilhões), mas por quanto tempo mais ele estará disposto a socorrer o seu vizinho? Os xeques de Abu Dhabi parecem preferir gastar o seu dinheiro em projetos mais sensatos e sustentáveis, como por exemplo uma cidade ecológica isenta de emissões de poluentes chamada Masdar, onde o emirado pretende realizar uma pesquisa sobre projetos para a era pós-petróleo.

Nas últimas quatro semanas, o xeque revelou - nem sempre voluntariamente - como a crise é séria e o quão intensamente ela o afetou. No início, o normalmente contido xeque perdeu a compostura e disse à mídia ocidental crítica que "calasse a boca", e a seguir demitiu três dos seus assessores mais próximos do conselho financeiro central do emirado. Pouco tempo depois, ele apelou para a poesia ao descrever a crise como sendo "a árvore frutífera que transformou-se no alvo de apedrejadores".

Um símbolo de tentação terrena
Na verdade, o xeque Mohammed, o príncipe-poeta, tem bons motivos para aguardar ansiosamente pelo dia em que o Burj abrirá as suas portas. Com o mero corte de uma fita vermelha, ele dará início a uma história épica, a uma saga humana que transcende em muito os problemas financeiros de um emirado endividado do Golfo Pérsico. Em uma ocasião anterior, o Mundo Oriental teria abrigado uma outra torre pioneira, na Babilônia, a legendária cidade mesopotâmia situada entre os rios Tigre e Eufrates.

Arqueólogos confirmaram que a Torre de Babel de fato existiu, no século 3 A.C. Eles estimam que o arranha-céu da antiguidade tinha 90 metros de altura, sendo uma maravilha da época, e que foi construído sobre uma plataforma de 90 metros quadrados. Se isso for verdade, a torre teria sido nove vezes menor do que a mais recente maravilha do mundo moderno. Segundo a Bíblia, a Torre de Babel era muito mais do que um simples edifício. Ela era na verdade um símbolo da tentação terrena. "Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra".

Estas palavras, que soam estranhamente como um lema dos atuais governantes de Dubai, está de fato no Livro de Gênesis, no Velho Testamento. Mesmo hoje em dia, muitos religiosos acreditam que tal desejo de assemelhar-se a Deus é uma presunção que conduzirá inevitavelmente à punição.
  • Reuters

    O líder de Dubai Primeiro-ministro dos Emirados Árabes, Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, 60 anos, é criador de cavalos e poeta, amante de carros velozes e potentes, falcoeiro entusiasmado
    e agente de investimentos de bilhões de dólares



Megalomania ou grande realização?
Entretanto, a construção exagerada de cidades e edifícios parece ser uma constante em todas as culturas, um sonho e um pesadelo para a humanidade, dos babilônios aos heróis e vilões do presente. O governante de Dubai não foi o único a realizar os seus planos na forma de concreto reforçado e fachadas fulgurantes.

O presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, criou Astana, uma cidade inteira de avenidas monumentais, arcos triunfais e pirâmides construídas na sua nova capital, onde o mármore contrasta com o granito, os edifícios são encimados por gigantescas cúpulas de vidro e, na Torre Bayterek, todo cidadão pode colocar a mão sobre uma impressão dourada da mão do presidente.

Na selva birmanesa, generais ditatoriais construíram uma nova capital absurda, Naypyidaw, ou "Assento dos Reis", a partir do nada. Yamoussoukro, a capital da Costa do Marfim e um memorial do falecido primeiro presidente do país, Félix Houphouët-Boigny, está ainda mais próxima do limite do absurdo. A cidade é repleta de prédios grandiosos, mas nela não se vê quase nenhuma pessoa. A Basílica de Notre Dame de la Paix é um delírio inspirado na Basílica de São Pedro, no Vaticano, mas a igreja africana é ainda maior do que São Pedro. De fato, ela é a maior igreja católica do mundo.

É fácil ridicularizar os megalomaníacos e os seus excessos, bem como criticar a mania desses indivíduos de quebrar recordes que está refletida nos seus prédios ostentosos, símbolos fálicos do poder crescente dos potentados nouveau-riche.

No entanto, Brasília e Camberra, as versões sul-americana e australiana da cidade modelo feita pelo homem, não são sucessos notáveis? A história não provou que pelo menos alguns visionários tinham razão? Não foram essas pessoas cujas obras nos deixam maravilhados nos dias de hoje? os criadores de Giza, no Nilo, de Machu Picchu, nos Andes, de Angkor, no Camboja, e os planejadores de São Petersburgo?

Atualmente, as pirâmides dos faraós, a fortaleza nas montanhas dos incas e as ruínas sagradas de Khmer são admiradas como parte do patrimônio cultural do mundo, por serem locais que demonstram a grandeza do ser humano. Elas são realizações enormes e magníficas de eras passadas. Atualmente, o centro de São Petersburgo - desenhado em uma prancheta, como a Dubai de hoje, mais de 300 anos atrás - ainda é considerado uma cidade ideal e um exemplo de planejamento urbano de sucesso.

Se os emirados construíram sobre a areia, as margens do Rio Neva eram no passado pântanos. A pedido do tsar, São Petersburgo não foi criada apenas para ser a janela da Rússia para o Ocidente, mas também um reflexo daquilo que os modernistas da época definiam como utópico. "Agora, cidade de Pedro, levanta-te rapidamente, abertamente, como a Rússia; ostenta o teu esplendor! Os próprios elementos render-se-ão e, finalmente, farão a pazes contigo", escreveu no seu poema "O Cavaleiro de Bronze" Alexander Pushkin, o congênere poético de Pedro, o Grande. O texto dele é um exagero puro, na forma de versos magníficos.

Aquilo que ocorre atualmente em Dubai - ou em Xangai ou Astana - geralmente é presenciado sob formas autoritárias de governo. Nas democracias, as pessoas não podem ser destituídas e expulsas das suas propriedades. Elas de fato contratam advogados para garantir os seus direitos. Nas democracia, leis e códigos mais ou menos razoáveis, bem como avaliadores licenciados, garantem que o crescimento descontrolado e as injustiças sejam contidos. Mas esse fator limitador também se aplica à criatividade, à espontaneidade e à megalomania "criativa", resultando em um nivelamento geral das coisas.

A virtude de ousar
"Esta sociedade é medíocre", escreveu certa vez o poeta e crítico contemporâneo de língua ferina Hans Magnus, referindo-se à realidade alemã. "Os seus líderes políticos e as suas obras de arte são medíocres, assim como os seus representantes e os seus gostos, prazeres, opiniões, arquitetura, mídia, medos, vícios e aflições". E, depois disso, no seu ensaio "Mediocridade e Desilusão", Enzensberger redigiu: "Há algo de catártico quanto a esta descoberta".

Em algum lugar entre os subúrbios ocidentais e Yamoussoukro fica Dubai. Ninguém sabe se a sua torre Burj um dia tornar-se-á parte do patrimônio cultural mundial, e tampouco sabe-se por quanto tempo o edifício continuará sendo a estrutura mais alta do mundo. A China, a Arábia Saudita e o Kuait já estão planejando a construção de torres que serão bem mais altas do que o Burj Dubai, chegando a mais mil metros de altura.

No Livro de Isaías, a Bíblia descreve a queda de Babel da seguinte forma: "Porque virá sobre ti de repente tão tempestuosa desolação". Caso se acredite nas palavras do Velho Testamento, os megalomaníacos construtores das torres de hoje não poderão esperar ajuda externa: "Assim serão para contigo aqueles com quem trabalhaste, os teus negociantes desde a tua mocidade; cada qual irá vagueando pelo seu caminho; ninguém te salvará".

O Burj Dubai não custou barato, e talvez o emirado não tivesse sequer condições de construí-lo. Mas pelo menos os xeques de Dubai ensinaram uma virtude aos seus contemporâneos: a virtude de ousar.

Tradução: UOL

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