Países menores lideram a investida contra o aquecimento global

Christian Schwägerl
Em Copenhague (Dinamarca)

Enquanto os maiores países industrializados lutam em torno do corte de emissões de CO2, os países menores tentam deixar sua marca em Copenhague. A Etiópia espera exportar energia renovável, a Coreia do Sul fundou um Instituto Global de Crescimento Verde e até Bangladesh estabeleceu metas ambiciosas.

Ao mesmo tempo em que ativistas etíopes protestavam do lado de fora do centro de conferência contra abusos aos direitos humanos, no interior o primeiro-ministro etíope, Meles Zenawi, anunciava uma revolução ecológica. "Nós atingiremos a meta de 100% de energia renovável e então começaremos a exportar eletricidade", ele disse.

No futuro, os carros seriam abastecidos com combustível derivado da planta pinhão-manso e ele asseguraria a plantação de bilhões de árvores. "Nós estamos embarcando em um caminho neutro em carbono", disse Zenawi. Sua platéia ficou impressionada. O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, prestou um tributo a Zenawi, enquanto o economista britânico sir Nicholas Stern elogiou o projeto etíope para captura de CO2 em solo reabilitado como sendo exemplar.

Alguém poderia argumentar que Zenawi deveria ter outras preocupações além das emissões de CO2 da Etiópia. Afinal, segundo o Instituto dos Recursos Mundiais, o país africano só emitiu 73 milhões de toneladas de CO2 em 2005, o que equivale a cerca de uma tonelada per capita. Em comparação, os Estados Unidos emitiram 6,9 bilhões de toneladas, ou 23,5 toneladas por pessoa.

Mas esse é exatamente o que a Etiópia e ouitros países pobres estão tentando dizer. Enquanto os grandes países discutem em Copenhague a redução dos níveis de CO2 e tentam evitar limites, os pequenos querem se apresentar como aqueles que estão liderando a investida. A Etiópia está sendo enormemente afetada pelas consequências da mudança climática e, portanto, quer demonstrar que ela também pode fazer parte da solução. "Nós não queremos repetir os erros dos outros", disse Zenawi. O primeiro-ministro está tentando criar uma imagem de bom para o meio ambiente, enquanto ativistas de direitos humanos condenam a forma dura como ele trata seus críticos.

Em Copenhague, não se trata apenas de negociações difíceis, mas sim de tentar chamar a atenção. A conferência tem sido uma gigantesca festa multicultural. Enquanto uma reunião pode ser dedicada ao colapso ambiental iminente, outra tenta encontrar uma saída. Os países têm usado os muitos eventos paralelos para exaltar suas próprias medidas para lidar com a mudança climática.

'A era do crescimento cego deve terminar'
A Coreia do Sul está particularmente ativa. O país experimentou uma rápida industrialização em apenas poucas décadas. Os sul-coreanos usaram canapés e "biscoitos tradicionais" para atrair pessoas a várias apresentações na conferência. O embaixador para mudança climática, Rae-Kwon Chung, é considerado um pioneiro da nova doutrina de "crescimento econômico verde". "Até o momento, nossa economia tinha uma base falsa, a era do crescimento cego deve acabar", ele disse.

Para a Coreia do Sul, a redução de CO2 não é um fardo, mas um "modelo de negócios". O governo anunciou orgulhosamente que 2% do PIB serão gastos na revolução verde no futuro. O presidente Lee Myung-bak anunciou na quinta-feira que US$ 10 milhões seriam usados para criação do Instituto Global de Crescimento Verde, que reúne economistas e altos pesquisadores para desenvolvimento de novas ideias. "Nós queremos ver nossos cidadãos dirigindo menos carros e nossos produtos economizando energia", disse o embaixador para mudança climática. "Nós todos temos que mudar completamente nossos estilos de vida e voltar aos velhos valores de uma vida mais simples.

Gastando recursos escassos na redução das emissões
Mas as metas concretas são um tanto mais modestas: 11% de renováveis até 2030, e uma redução de 4% nas emissões em comparação às de 2005. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Ocde), as emissões da Coreia do Sul são as que mais crescem entre todos os países industrializados. Ainda resta muito a ser feito assim que Rae-Kwon Chung retornar à Coreia do Sul.

Não distante do evento sul-coreano, Bangladesh estava elogiando a si mesma pelo progresso em uma frente completamente diferente. "Nós salvamos nossos cidadãos da mudança climática", dizia o ministro do Meio Ambiente, Hasan Mahmud. O país é desesperadamente pobre, com uma renda média diária de apenas US$ 3. Mas o governo se sente obrigado a gastar centenas de milhões de dólares neste ano para ajudar o país a se ajustar aos efeitos da mudança climática. Em particular, ele tem que assegurar que sua população esteja protegida das muitas enchentes que atingem este país baixo cortado por rios.

Mahmud anunciou em Copenhague que o governo também pretende gastar recursos escassos na redução das emissões de CO2. Os bengaleses emitem em média apenas 0,9 tonelada por ano. Isso não é nada em comparação às emissões na Europa, Estados Unidos e China. Se esses grandes poluidores não conseguirem se comprometer a metas ambiciosas no encontro de cúpula da ONU, então o anúncio do ministro do Meio Ambiente de Bangladesh será uma das lembranças mais amargas da conferência de Copenhague.

Tradução: George El Khouri Andolfato


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