Os EUA precisam "reafirmar a estabilidade e a liderança", diz o economista Paul Volcker, conselheiro de Obama

Gabor Steingart e Thomas Schulz

Paul Volcker, 82, é um dos principais conselheiros econômicos do presidente Barack Obama. A "Spiegel" conversou com ele sobre os desafios econômicos que os EUA enfrentam, se são necessários novos impostos para lidar com o déficit público e como os EUA podem voltar a uma posição de liderança econômica.
  • Scott Olson/Getty Images/AFP

    Paul Volcker "É surpreendente a velocidade com que as pessoas querem esquecer dos problemas e voltar aos negócios. Esta sensação de que a crise acabou é um grande desafio. A necessidade de reforma com certeza não acabou. É difícil negar que precisamos de uma reforma financeira com vistas para o futuro", diz o ex-presidente do Fed (banco central americano) e conselheiro de Obama



Spiegel: Sr. Volcker, o senhor cresceu durante a Grande Depressão. Que tipo de memórias de infância tem daquela época difícil?
Volcker:
Bem, não lembro de muita coisa. Meu pai tinha um emprego estável. Ele era um administrador da cidade naquela época. Nós não éramos ricos, apenas classe média vivendo no subúrbio em expansão de Nova York, e aquilo não era um exemplo dos EUA em depressão. Sei que minha mãe na época não me deixou pegar um emprego de meio período e costumava dizer que tinha gente que precisava daquele emprego mais do que eu.

Spiegel: A situação atual pode ser comparada com a Grande Depressão?
Volcker:
Lembro que havia pessoas, chamadas de mendigos e vagabundos, que queriam ser alimentadas. É verdade, hoje também temos pessoas que dependem dos vales de alimentação e de outros benefícios, mas estamos bem longe da Grande Depressão. Estamos numa recessão grande e séria. Hoje temos 10% de desemprego, mas na época estava em torno de 20 a 25%. É uma diferença grande. O desemprego era massivo.

Spiegel: Mas embora tenha mais gente sendo demitida do que admitida, o presidente do Federal Reserve Ben Bernanke diz que a recessão tecnicamente acabou. Você concorda com ele?
Volcker:
Sabe, as pessoas ficam muito técnicas ao falar sobre essas coisas. Tivemos um trimestre de crescimento mas não acho que estamos fora do perigo.

Spiegel: Você espera uma recuada?
Volcker:
A recuperação é bem lenta e espero que continue bastante lenta e restrita por várias razões e a possibilidade de recaída não pode ser totalmente descartada. Não estou prevendo isso, mas acho que precisamos ser cautelosos.

Spiegel: Qual a diferença entre esse profunda recessão e todas as outras recessões que tivemos desde a Segunda Guerra?
Volcker:
O que complica essa situação, em comparação às recessões comuns, é que tivemos esse colapso financeiro além do desequilíbrio econômico. Muito consumo e pouco investimento, muitas importações e poucas exportações. Não estávamos num caminho econômico sustentável e isso precisa ser mudado. Mas essas mudanças não acontecem da noite para o dia, elas não acontecem num trimestre, não acontecem em um ano. Você pode começá-las, mas é um processo que leva tempo. Se não fizermos esse ajusto e inflarmos novamente o consumo, simplesmente caminharemos para uma nova crise.

Spiegel: Como presidente do Conselho de Recuperação Econômica, você sugeriu ao presidente Barack Obama como evitar que isso acontecesse novamente. Ele está seguindo seu conselho?
Volcker:
Nós temos vários grupos de trabalho e fizemos recomendações em relação a problemas específicos como programas de aposentadoria e seguridade social. Nós fizemos algumas recomendações de reformas financeiras que não foram aceitas, mas isso faz parte do jogo. O presidente é mais eloquente do que eu posso ser sobre esses assuntos. Fazer alguma coisa ao invés de apenas falar é um problema, mas temos algumas sugestões nesse sentido.

Spiegel: Os EUA não instituíram ainda nenhum tipo de política de reforma. O que vemos é o governo e o Federal Reserve derramando dinheiro na economia. Se olharmos além desse dinheiro, podemos ver que a economia ainda está encolhendo na verdade.
Volcker:
O que posso dizer? É verdade. Não atingimos ainda uma recuperação que se sustente. Até agora estamos muito dependentes do apoio do governo. Estamos num sistema de apoio do governo, tanto nos mercados financeiros quanto na economia.

Spiegel: Fazer com que a recuperação chegasse no ponto em que está agora custou muito dinheiro. A dívida nacional provavelmente chegará a US$ 12 trilhões em 2019. Só os juros custam US$ 17 bilhões por ano - pelo menos de acordo com as previsões deste ano. É difícil sustentar isso.
Volcker:
Você precisa lidar com o déficit e você precisa lidar com ele dentro do tempo. Agora, com a taxa de desemprego ainda muito alta, a capacidade em excesso ainda é evidente, e a economia está dependendo do dinheiro do governo, como já dissemos. Não vamos atacar o déficit com sucesso agora, mas temos de nos preparar para atacá-lo mais tarde.

Spiegel: Os norte-americanos devem se preparar para um aumento nos impostos?
Volcker:
Não nesse momento, mas acho que teremos que pensar sobre isso. O atual sistema tributário historicamente transferia cerca de 18 a 19% do PIB para o governo. E sairemos disso tudo com uma relação entre o PIB e os gastos substancialmente maior que isso. Ou teremos de cortar gastos e isso significa reduzir benefícios e com certeza os gastos com defesa numa quantidade que pode não ser possível. Se pudermos fazer, tudo bem. Mas se não pudermos, então teremos de pensar nos impostos.

Spiegel: Que tipos de impostos você tem em mente?
Volcker:
Talvez devêssemos falar sobre impostos sobre a energia, que podem se tornar uma grande fonte de rendimentos.

"Recebemos um sinal de alerta"

Spiegel: O professor de Harvard Niall Ferguson escreveu uma matéria de capa da "Newsweek" em que ele essencialmente argumenta que os EUA estão em grande perigo por causa da dívida, do crescimento lento e dos gastos altos. Você acha que foi exagerado?
Volcker:
O desafio é real. Esse é o tipo de ameaça com o qual precisamos lidar e reafirmar a estabilidade e a liderança. Cresci num ambiente em que os Estados Unidos lideravam, em que eram um poste de segurança.

Spiegel: Naquela época, os EUA eram o maior exportador do mundo e não o maior importador. Os EUA a que você se refere eram o país que mais emprestava dinheiro no mundo e não o que mais tomava emprestado.
Volcker:
É verdade. E talvez não tenhamos que fazer todo o caminho de volta até lá, mas temos que retroceder numa área em que existe confiança na estabilidade e na autoridade dos Estados Unidos. E acho que podemos fazer isso, mas temos um desafio, recebemos um sinal de alerta. Há preocupações no nosso grupo de conselheiros sobre como reconstruir a competitividade dos Estados Unidos, que inevitavelmente significa reconstruir, em parte, o setor manufatureiro da economia.

Spiegel: Que parte do setor manufatureiro você imagina?
Volcker:
Acho que há muitas oportunidades para assumir a liderança na chamada economia verde. Do ponto de vista técnico, ou seja, no desenvolvimento tecnológico, desenvolvimento de pesquisa, os EUA estão indo bem, mas no que diz respeito a produzir essas coisas, de certa forma os alemães é que fazem tudo!

Spiegel: E muitos norte-americanos tentam culpar os alemães por isso, dizendo que eles dependem muito da indústria de exportação.
Volcker:
Devo dizer, eu admiro a Alemanha nessa situação, mesmo com seus custos altos. De certa forma, acho que o custo do trabalho na Alemanha é mais alto do que nos Estados Unidos, mas a Alemanha consegue manter a linha de exportação. A Alemanha é dedicada à exportação, nós nos dedicamos à engenharia financeira e isso não funcionou muito bem. Gostaria que nós tivessemos menos engenheiros financeiros e mais engenheiros mecânicos. Conte-me o segredo de como os alemães fazem isso funcionar.

Spiegel: Talvez a razão seja que os alemães não acreditavam no crescimento dos EUA e na economia forte com sua dedicação ao dinheiro rápido.
Volcker:
Acho que parte disso é psicológico. Os alemães jovens e ambiciosos percebem que a indústria da exportação e a engenharia pesada é a vantagem competitiva alemã. Os melhores norte-americanos nem pensam sobre isso. Temos Silicon Valley e todos os tipos de indústrias de alta tecnologia ainda são nosso forte, mas também precisamos de algo mais amplo do que isso.

Spiegel: Buscar fornecedores fora do país [outsourcing] e transferir a produção para o exterior [off-shoring] foram conceitos-chave nas últimas décadas. Você não acha que os tempos do "made in America" estão acabados para sempre?
Volcker:
Esta tem sido a mentalidade e temos de mudá-la de alguma forma. Acho que em parte trata-se de uma autocorreção. O glamour de ir para Wall Street não é tão grande hoje quanto era há alguns anos atrás.

Spiegel: Você tem certeza? As empresas de Wall Street estão bem. Os grandes bônus estão de volta.
Volcker:
É surpreendente a velocidade com que as pessoas querem esquecer dos problemas e voltar aos negócios. Esta sensação de que a crise acabou é um grande desafio. A necessidade de reforma com certeza não acabou. É difícil negar que precisamos de uma reforma financeira com vistas para o futuro.

Spiegel: Na Alemanha, o govenro, mas também o Bundesbank, ainda está esperando uma abordagem norte-americana clara em relação a esse objetivo.
Volcker:
Crescei num mundo em que a liderança norte-americana era importante e, acreditava, construtiva. Agora é mais difícil porque não somos mais relativamente tão fotes quanto costumávamos ser. Se você estiver certo ao dizer que alguém está esperando a nossa voz, espero que falemos com clareza.

Spiegel: Você tem sido claro sobre suas ideias. Você acredita de fato que temos de quebrar os grandes bancos para criar um sistema financeiro mais sustentável?
Volcker:
Bem, quebrá-lo é difícil. Eu preferia dizer, vamos apenas dividi-lo. Não quero que eles se envolvam em peso nas atividades do mercado de capitais, então minha visão é: nada de fundos hedge. Nada de fundos de equidade. Nada de proprietary trading. Nada de trading in commodities. E isso por si só reduziria o tamanho dos grandes bancos. Então haveria uma redução de tamanho. Igualmente importante, isso os torna mais administráveis e fáceis de lidar quando eles tem problemas.

Cobertura completa da crise

  • UOL


Spiegel: A atividade bancária deve se tornar entediante novamente?
Volcker:
A atividade bancária nunca foi entediante. É um negócio arriscado. Eles continuarão sendo muito ativos. Eles podem analisar o crédito. Pode fazer securitização. Pode conceder muitos empréstimos. Eles podem dar conselhos de fusões e aquisições. Eles podem administrar investimentos. Todas essas são atividades para os clientes. O que eu não quero que eles façam é se equilibra no topo do arriscado mercado de capital. Isso também leva a conflitos de interesse.

Spiegel: Mas o governo norte-americano parece ter perdido um pouco o interesse em estabelecer um regime mais duro de regras e regulações para controlar Wall Street. Tudo está perdendo força. Por quê?
Volcker:
Eu vou fazer o melhor que posso para lutar contra qualquer tendência de enfraquecer nesse sentido. O que é necessário é um amplo consenso internacional para fazer as coisas acontecerem.

Spiegel: Seu velho amigo alemão, o ex-chanceler Helmut Schmidt, já está ao seu lado. Agora ele está falando sobre o atual sistema econômico como uma espécie de capitalismo predatório que precisa ser domado.
Volcker:
Fico feliz que ele fale as coisas. Sou um grande admirador de Helmut Schmidt. Ele foi bastante direto e brutalmente franco de certa forma, o que fez muitas pessoas reagirem adversamente.

Spiegel: Você está falando de alguma situação específica?
Volcker:
O famoso incidente que aconteceu em 1979 depois que eu havia me tornado presidente do Federal Reserve...

Spiegel: ? e a inflação nos EUA havia chegado a 12%.
Volcker:
Eu estava viajando com o secretário de Tesouro para uma reunião em Belgrado mas por algum motivo foi feito um arranjo, provavelmente por sugestão de Helmut, e paramos em Hamburgo no caminho para Belgrado e fizemos uma reunião. A reunião consistiu sobretudo em Helmut falar por uma hora sobre como "vocês norte-americanos" precisam fazer algo quanto à inflação. Meu secretário do Tesouro ficou um pouco confuso com a força daquilo tudo, mas para mim foi tudo bem uma vez que eu estava planejando o mesmo tipo de política.

Spiegel: Durante seu mandato como presidente do Federal Reserve, o banco sempre foi parte da solução. Hoje com a política de dinheiro fácil do Fed, muitos especialistas o veem como parte do problema.
Volcker:
Por causa da dificuldade da situação econômica e da grande quantidade de dinheiro sendo gasta para sustentar a economia, o Fed está recebendo a maior parte das críticas. Com certeza era necessário algum apoio para a economia, mas o simples fato de que foram necessárias medidas de emergência nessa situação não deveria ditar uma abordagem liberal no futuro.

Spiegel: Os legisladores no Capitólio estão pensando em controles mais duros sobre o Federal Reserve.
Volcker:
Acho que a perda de independência e autoridade do Federal Reserve seria um problema muito sério para os Estados Unidos. Não só em termos de política monetária mas também em termos do nosso lugar no mundo. As pessoas buscam instituições fortes, confiáveis e acho que o Fed tem sido uma instituição assim. Se isso for perdido ou muito restringido pela legislação, acho que vamos nos arrepender.

Spiegel: Mas o Fed não é o mesmo tipo de instituição que era durante o seu mandato como presidente? Ou agora ele é mais um instrumento governamental? O Fed está administrando o programa TARP e também está comprando títulos do governo.
Volcker:
Em certo sentido, o Federal Reserve sempre é um instrumento do governo. É um órgão do governo mas é independente dentro do governo. Mas você está certo no sentido de que parte do problema é que eles se envolveram quantitativamente entrando nos mercados e nesse processo, apoia alguns mercados e não outros. Esta é uma área em que o Federal Reserve nunca quis entrar e uma área na qual a maioria dos bancos centrais não quer entrar. Se você pretende manter sua independência, precisa evitar isso. Intervir em setores específicos do mercado não é o papel apropriado do banco central ao longo do tempo. Isso só poderia se justificar numa emergência extrema.

Spiegel: Então o que você espera no futuro próximo?
Volcker:
Como norte-americano, tenho que ser otimista. Mas temos um grande desafio e temos que enfrentá-lo. E, como você sabe, há muitas preocupações quanto à disfunção do sistema político.

Spiegel: Então está ficando difícil ser otimista?
Volcker:
É um desafio.

Spiegel: Sr. Volcker, muito obrigado por esta conversa.

Tradução: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos