Quanto vale a vida humana?

Susanne Koelbl, Matthias Gebauer e Enayat Najafizada

O bombardeio de Kunduz, ordenado pela Alemanha, deixou dezenas de viúvas e órfãos no Afeganistão. Agora, os sobreviventes e parentes dos mortos estão buscando indenização. Algumas pessoas, entretanto, temem que o dinheiro caia nas mãos do Taleban.

Todos fazem a mesma pergunta: o que Abdul Gafur estava fazendo, nas primeiras horas da madrugada de 4 de setembro, no lugar em que as bombas caíram do céu? O que ele tinha para fazer lá numa hora tão estranha, pouco antes das 2 da manhã? A resposta está no vilarejo de Yaqob Bai, onde estão enterrados os corpos de 30 pessoas mortas naquela noite.

Abdul Gafur está vivo, embora às vezes sinta que teria sido melhor se seu corpo também estivesse deitado ao lado do de Abdul Salam, seu irmão, no cemitério, num platô cinzento acima dos telhados do vilarejo, onde bandeiras verde-e-brancas tremulam ao vento acima das fileiras de novos túmulos.

Sentado numa casa de chá da cidade de Kunduz, Gafur fala sobre a noite de 4 de setembro. Ele acena seus braços em movimentos amplos, como se quisesse espantar as chamas e a chuva de cinzas. O avião ainda está voando dentro de sua cabeça, diz ele, ou pelo menos assim lhe parece.

Gafur, 23, é um jovem fazendeiro com uma barba fina cobrindo o queixo e bochechas e um cachecol enrolado em volta do pescoço para espantar o frio. O médio que receitou-lhe seu medicamento disse-lhe que seu irmão, Abdul Salam, que foi queimado vivo, morreu no local perto do rio. O médico disse que Gafur também sofreu sérios ferimentos, embora estes sejam invisíveis e venham à noite.

Um Alcorão e um Kalashnikov
Era uma noite morna de setembro durante o mês sagrado muçulmano do Ramadã. Depois do Iftar, a quebra do jejum, os homens de Yaqob Bai se encontraram sob as velhas árvores em frente à mesquita. Suas mulheres haviam preparado uma refeição noturna de uvas, arroz com uva passa e cordeiro assado, e os 70 homens estavam sentados em longas fileiras sob as árvores.

O Taleban, que exerceu o poder de forma não oficial em Yaqob Bai durante os últimos dois anos, havia gradualmente desenvolvido sua base ali, a apenas 12 quilômetros a sudoeste de Kunduz e a seis quilômetros do acampamento da equipe de reconstrução alemã.

Eles encontraram refúgio recorrendo a contatos seletos, incluindo parentes, aliados pagos e irmãos em espírito - ou os três. Os homens mais jovens eram particularmente suscetíveis aos discursos dados pelos homens de barba que, segurando um Alcorão em uma mão e um Kalashnikov na outra, exibiam força. Mas a maioria das pessoas, particularmente os moradores mais velhos, lembravam muito bem das atrocidades cometidas por seus predecessores.

A estrada para Yaqob Bai foi recentemente pavimentada, graças aos esforços de reconstrução nos quais os alemães desempenharam um papel fundamental na região. Mas a polícia de Kunduz havia parado de patrulhar a área. As estradas que atravessam o vale fértil do rio estão cheias de guardas do Taleban escondidos. Lá, onde a polícia dirige com suas picapes abertas, o Taleban detona bombas e abre fogo contra eles com seus lança-foguetes. O governo do presidente afegão Hamid Karzai não existe em Yaqob Bai.

A resistência ficou sem sentido
Quando o Taleban matou o filho de um ancião do vilarejo porque ele estava trabalhando num projeto de estrada financiado pelo governo de Karzai, até os mais velhos de Yaqob Bai desistiram de sua resistência aos radicais. A resistência não fazia mais sentido.

Naquela noite de quinta-feira no começo de setembro, várias dúzias de guerrilheiros do Taleban sequestraram dois caminhões-tanque na estrada entre Kunduz e Baghlan. Os caminhões carregavam milhares de litros de gasolina destinados aos militares norte-americanos. Entre os sequestradores estava o irmão de Maulawi Naim, o líder do Taleban no vilarejo de Yaqob Bai.

Pouco tempo depois, o caminhão, com sua valiosa carga, ficou atolado num banco de areia do rio Kunduz, na parte sudoeste da cidade. Tudo isso aconteceu no trajeto de apenas em três quilômetros desde Yaqob Bai, onde os homens ainda estavam sentados sob as árvores, jantando.

Quatro meses antes disso, funcionários do escritório central do serviço de inteligência afegão tinham enviado o major general Mohammed Daud Ibrahimi para Kunduz. Ele é natural da cidade e já atuou como chefe de inteligência para o lendário estrategista militar Ahmad Shah Massoud, um currículo que lhe garante o respeito dos combatentes.

"Temos de obedecê-los"
Kunduz se tornou um problema para todo o Afeganistão. É o centro estratégico do Taleban no norte, onde os extremistas se tornaram tão atrevidos que são conhecidos por andarem calmamente pelas lojas do centro da cidade. "As pessoas com quem lutamos à noite são bons agricultores durante o dia, quando escondem suas armas nos armários", diz Daud, um homem gordo, apontando para um grande mapa da área que foi bombardeada. Esta era a situação em 4 de setembro, disse ele: Taleban, desarmado e em roupas civis.

Quem, então, é exatamente do Taleban? Siqadullah vem do vilarejo de Omar Khel, onde acredita-se que estão enterrados os corpos de 18 vítimas do bombardeio no cemitério. Quando fica sabendo que um visitante do Ocidente quer conversar com ele, Siqadullah rapidamente se esconde atrás de uma parede, ansioso para não ser visto. Ele é um Pashtun, e usa um pequeno gorro de veludo. Ele tem apenas 14 anos, mas conhece bem quais são as punições do Taleban para aqueles que se comunicam com estrangeiros. "Quando a polícia vem", ele sussurra, "o Taleban se esconde em nossa casa. Eles têm armas. Nós temos de obedecê-los".

Os nomes das pessoas que foram mortas e feridas no bombardeio dos caminhões-tanque estão listados num relatório secreto preparado pelo chefe nacional de polícia do Afeganistão, depois de uma investigação extensiva pedida pelo presidente Karzai. As informações incluem o nome das vítimas, os vilarejos em que viviam, se pertenciam ao Taleban, se estavam armadas e, se eram do Taleban, qual era seu papel na hierarquia do movimento. De acordo com a lista, 140 pessoas morreram, das quais 43 estavam armadas. Entretanto, muitas das vítimas desarmadas também foram listadas como membros do Taleban.

Barris e tambores
Vinte e quatro pessoas da lista eram moradores de Yaqob Bai, e todas elas foram identificadas como integrantes do Taleban. "Nós os conhecemos. Nós sabemos seus nomes e endereços. Eles não são inocentes", disse o general Daud.

Abdul Gafur, o fazendeiro de Yaqob Bai, chegou ao rio às 9h30. Ele e seu irmão mais novo, Abdul Salam, que trazia consigo um grande recipiente amarelo para combustível.

O Taleban tinha ido até os homens na mesquita e ordenado que eles pegassem seus tratores para ajudar a puxar os dois caminhões-tanque para fora do rio. Em troca, cada um deles poderia pegar um pouco de gasolina de graça. Mas de 100 homens e adolescentes de Yaqob Bai rapidamente correram para o rio, tropeçando na noite, carregando barris e tambores.

Os cidadãos de Yaqob Bai são quase todos agricultores arrendatários que são obrigados a dividir suas magras colheitas com os donos da terra. O vizinho de Gafur, pai de quatro meninos e duas meninas, trabalhava por US$ 2 (R$ 3,50) nos melhores dias. A oportunidade de conseguir combustível de graça antes do inverno era uma proposta interessante para ele. "Será que eu deveria ter dito para ele: não vá, isso é gasolina roubada, será melhor que nós passemos frio no inverno?", disse sua viúva, Bidri Jamala, depois do incidente.

"Os alemães não farão nada conosco"
Centenas de pessoas já estavam amontoadas em volta dos dois caminhões-tanque no rio, e, mesmo depois de três horas, Abdul Gafur ainda não havia conseguido encher seu tambor. Seu irmão Salam, entretanto, foi mais rápido e conseguiu passar pela multidão e chegar à frente.

Gafur, que havia sentado na grama por um momento, percebeu dois aviões bem alto no céu. "Os alemães", pensou, "eles nos veem, mas não farão nada conosco".

Mas então, acompanhadas por um som sibilante de terra partindo e por um estrondo, as bombas de repente explodiram na noite, lançando as pessoas que estavam no rio vários metros para cima. As chamas pareciam subir da terra e do rio. A onda de choque derrubou Abdul Gafur na água, mas de alguma forma ele conseguiu nadar para o outro lado. "Eu soube naquele exato momento que Salam estava morto", disse ele.

Eles encontraram Salam na margem do rio. Seu rosto era a única parte do corpo que não havia sido queimada. Abdul Salam tinha apenas 15 anos.

Quanto vale a vida de uma vítima de Kunduz?
Agora, centenas de pessoas carregando lanternas e lamparinas de óleo buscavam familiares nos escombros. O Taleban havia notificado seus aliados e parentes em cerca de meia dúzia de vilarejos dentro de um raio de dez quilômetros. "Eles estão todos mortos", Abdul Gafur gritou para sua vizinha Bidri Jamala, que encontrou no caminho para casa. "Só eu e mais alguns sobrevivemos". A mulher de 30 anos perdeu o marido Mohammed Ali e o mais velho de seus seis filhos no rio. O irmão do marido, que poderia ajudar a sustentar a família, também morreu.

O advogado Karim Popal não vive no Afeganistão há 30 anos. Ele tem um escritório na cidade de Bremen, no norte da Alemanha - mas o incidente do bombardeio em Kunduz o tornou mundialmente famoso da noite para o dia. Ele está pedindo uma indenização para o governo alemão pelo trauma sofrido por Abdul Gafur e pela morte de seu irmão Salam. Ele quer que Berlim pague uma pensão para Bidri Jamala e que indenize Balkiza, uma mãe de dez filhos do vilarejo de Isa Khel que perdeu o marido, o pedreiro Abdul Bashir, para que seus filhos tenham um futuro.

Há algumas semanas, Popal - que viajou para Kunduz - obteve uma procuração das 70 famílias que foram afetadas até agora, para entrar com uma possível ação coletiva. Mas, como alega Popal, o número total é muito maior: 173 casos, todos eles civis.

Quanto vale uma vida humana?
O incidente despertou uma disputa bizarra entre a Alemanha e o Afeganistão em relação à indenização pelos mortos de guerra e à questão de quem eram exatamente as vítimas do bombardeio aos caminhões-tanque em Kunduz. No centro da disputa, entretanto, há uma questão: Quanto vale uma vida humana?

Até agora, o governo afegão pagou US$ 2 mil (R$ 3,5 mil) a 30 familiares cujos parentes mortos foram claramente identificados como civis, de acordo com os próprios padrões do governo, além de US$ 1 mil (R$ 1,75 mil) para cada um dos nove outros afegãos feridos no ataque aéreo. O governador de Kunduz, Mohammed Omar, que se opõe estritamente a fazer mais pagamentos, disse: "Você quer pagar o Taleban agora, também?"

No caso de Kunduz, é provável que seja difícil encontrar um ponto em comum entre a noção alemã de justiça e os costumes afegãos. De acordo com o código de honra Pashtun, o Pashtunwali, a família do ofensor tradicionalmente oferece uma de suas garotas para o clã ofendido. A garota então passa o resto de sua vida trabalhando como empregada, sem nenhum direito, na casa da família da vítima. O dinheiro de sangue também é uma forma respeitável de compensação, uma vez que evita um ciclo vicioso de vingança.

Mas depois do aparecimento do advogado afegão da Alemanha em Kunduz, algumas das famílias afetadas pelo ataque aéreo agora acreditam que logo estarão com a vida resolvida para sempre. Os alemães terão que pagar "milhões e milhões" por seu filho Amanullah, diz Abdul Feroz, um agricultor de 50 anos do vilarejo de Isa Kehl, que também acredita-se estar infiltrado pelo Taleban.

A poeira baixou rápido
Embora o caso quase tenha desencadeado uma crise de governo na Alemanha, a poeira baixou muito rápido em relação ao bombardeio no Afeganistão. Por outro lado, tragédias similares no sul do país desencadearam protestos massivos tanto contra o governo quanto contra os soldados ocidentais. Mas em Kunduz, só o Taleban foi capaz de usar o bombardeio para seus próprios propósitos de propaganda. "Eis aqui a prova de que os alemães não vieram ajudar, mas sim matar muçulmanos", disse o líder Taleban Maulawi Naim para os sobreviventes na mesquita em Yaqob Bai no dia do enterro. O vilarejo de 400 pessoas perdeu quase um décimo de sua população.

Mas de acordo com uma interpretação do Alcorão, uma pessoa que ajuda um ladrão ou lucra com bens roubados também é considerado um ladrão - uma noção que também deixou os enlutados envergonhados.

Os eventos políticos na Alemanha - a renúncia do ex-ministro da Defesa e a demissão do inspetor geral do Bundeswehr - foram vistos com grande surpresa por funcionários do governo em Kunduz, onde todos, desde o governador até o chefe de polícia, não tinham nada além de elogios para a coragem do coronel Georg Klein, o soldado alemão que ordenou o bombardeio. "Ele fez a única coisa certa", dizem.

Abdul Malek, motorista de um dos dois caminhões sequestrados, sobreviveu. A cerca de três quilômetros dos limites da cidade de Kunduz, 25 homens armados apareceram de repente, conta Malek. Os homens, que não usavam nem sapatos, "nos ameaçaram, dizendo que eles eram pobres e queriam levar os caminhões para seu vilarejo para que pudessem usar a gasolina", disse. Os homens forçaram os motoristas, com uma arma, a dirigirem para oeste, longe da estrada principal. Quando eles chegaram ao rio e tentaram cruzá-lo, os caminhões ficaram atolados no banco de areia. Os guerrilheiros talebans, furiosos, começaram a bater em Malek, e mataram o outro motorista com um tiro na cabeça.

"As bombas estavam prestes a cair"
De acordo com Malek, Abdul Rahman, um líder Taleban local, apareceu no rio, mas logo foi embora numa picape da polícia que seus guerrilheiros haviam capturado.

Malek conta que cerca de 200 pessoas estavam em torno dos caminhões, incluindo cerca de 35 homens armados do Taleban que guardavam os caminhões e monitoravam a distribuição de gasolina para os moradores.

"Essas pessoas eram certamente agricultores comuns dos vilarejos", disse Malek, "mas muitas conheciam os homens armados do Taleban, os saudavam pelos nomes e agradeciam pela gasolina". Malek alega que o Taleban até alertou os moradores quando os aviões alemães começaram a circular acima dos caminhões em alta altitude. "Eles gritaram para as pessoas saíssem de perto dos caminhões, porque as bombas estavam prestes a cair", disse Malek, "mas ninguém quis desistir da gasolina de graça".

Tradução: Eloise De Vylder

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