Oito meses após terremoto, L'Aquila luta contra desespero, inércia e corrupção

Annette Langer
Em L'Aquila (Itália)

Oito meses depois que um poderoso terremoto atingiu a região de Abruzzo no centro da Itália, muitas de suas cidades e vilarejos continuam em ruínas. Enquanto lidam com o trauma, muitos moradores estão lutando para ficar na empobrecida região enquanto as autoridades locais tentam combater a corrupção e um envolvimento cada vez maior da máfia nos esforços de reconstrução.

Susanna tinha 15 anos quando a terra tremeu em Onna. Foi na manhã de 9 de abril. O chão sob seus pés começou a fazer barulho, e o teto logo se partiu. Seus pais pularam da cama e chamaram pela filha, mas não houve resposta.

Susanna estava morta. Mais tarde ela foi encontrada deitada sob os escombros, em posição fetal.

Benedetta, irmã mais velha de Susanna, tinha 26 anos naquela noite. Ela também morava neste vilarejo de 350 pessoas nos arredores de L'Aquila, capital da região de Abruzzo. Como a maioria das pessoas no vilarejo, ela havia ido se deitar despreocupada naquela noite, embora já tivessem acontecido alguns tremores menores. As autoridades não haviam emitido nenhum alerta, então ela não se preocupou.

Mas então ela foi pega de surpresa por um terremoto de magnitude 5,8. Ele devastou Onna e a transformou num mar de escombros. Benedetta - assim como sua irmã, Susanna, e outros 39 moradores do vilarejo - morreu.

Os membros sobreviventes da família são dois irmãos, Edmondo e Carolina, e os pais, Tiziana Colaianni e Pasquale Pezzopane. O casal agora mora em um dos novos chalés de madeira - cuja obra foi inaugurada pelo primeiro-ministro Silvio Berlusconi com uma garrafa de champanhe - construídos não muito longe dos escombros de sua antiga casa.

Raiva prolongada
É uma tarde de sábado, e embora esteja frio, o sol ainda aquece. Um silêncio surreal invade o novo conjunto habitacional. Colaianni é uma mulher tranqüila e inteligente de 52 anos; com os olhos cansados de chorar. Quando ela pensa sobre a noite do terremoto, ela ainda tem raiva. "Corremos para fora para conseguir ajuda", disse ela. Mas quando os homens do resgate finalmente chegaram, "eles nos obrigaram a ficar longe de nossa casa", disse, acrescentando: "ninguém pode impedir que eu arrisque minha vida quando o que está em jogo são meus próprios filhos".

Colaianni reclama que os funcionários da defesa civil não a deixaram participar dos esforços de resgate. "Estamos envergonhados por não termos feito nada", diz ela. Depois do terremoto, ela e outros moradores sentiram que poderiam ter ajudado e ter sido mais ativos e enérgicos. "Em vez disso", disse ela, "eles nos deixaram impotentes".

No conjunto de barracas onde as vítimas do desastre foram temporariamente abrigadas, as pessoas de Onna formaram uma comunidade bem unida. Em sua dor, eles tanto brigaram entre si quanto se ajudaram. Agora, mais uma vez, eles estão sozinhos. Pezzopane, um homem enérgico que está ansioso para recomeçar uma nova vida, agradece por ter um telhado sobre a cabeça. "Mas esta não é a nossa casa", diz ele. "Aqui, somos simplesmente convidados".

Sua mulher, Tiziana, tem medo de que as casas destruídas ao lado de sua casa atual nunca sejam reconstruídas. Ela teme que sua antiga casa desapareça para sempre, que sua comunidade se dissolva e que ela tenha que deixar o vilarejo. "Sinto-me sozinha e alienada", diz ela, olhando tristemente para fotos das duas filhas que perdeu. Mudar para a nova casa precipitou um período de contemplação, questões e uma grande dor para a família. "Eu choro muito", diz Colaianni. "Mas, antes, eu não conseguia chorar nada."

Arrancados pelas raízes
Na Itália, a casa de uma família é com frequência seu único bem - perdê-lo significa perder tudo. Pezzopane tinha grandes esperanças para o novo comitê do vilarejo, que deveria participar da reconstrução. Mas suas esperanças foram frustradas. "Eles simplesmente aceitam tudo da maneira como chega", reclama. "Não há iniciativa individual". É claro, diz Pezzopane, os moradores locais recebem bem doações e projetos de auxílio, mas sentem que não têm muito a dizer em relação a isso. Por exemplo, Beppe Grillo, um comediante e político italiano, levantou US$ 80 mil para um novo ginásio, mas ninguém perguntou se os moradores precisavam de um. "Eles chegam do nada com um pacote completo", disse Pezzopane, "e a única coisa que você pode fazer é aceitar".

As pessoas de Abruzzo sentem-se fortemente conectadas a suas casas e vilarejos. Apesar do perigo de as casas danificadas poderem desabar, muitos voltaram para elas logo depois do terremoto. E foi lá que eles ficaram até que os bombeiros chegaram e os proibiram de ficar nas construções. Quase ninguém na região - incluindo as pessoas de Onna - quer abandonar a região montanhosa, apesar do fato de que ela está bem na junção entre duas placas tectônicas e tem sido afetada por terremotos há séculos.

Aqueles que saem de lá o fazem por causa da falta de emprego. Mesmo nos tempos normais, toda a região de Abruzzo sofre de um êxodo em massa de jovens, que não conseguem encontrar trabalho na região com dificuldades econômicas. Mesmo antes do terremoto, vilarejos inteiros havia quase desaparecido por causa do êxodo rural. O desastre só tornou as coisas piores.

"Eu vivo num purgatório"
Várias personalidades mundiais passaram pela poeira fina de Onna. O papa Bento 16 confortou Pezzopane em pessoa, a chanceler alemã Angela Merkel prometeu assistência para a reconstrução e Berlusconi se deleitou com o brilho de seus ilustres convidados na conferência do G-8 realizada em L'Aquila em julho. "Não gosto do nosso primeiro-ministro como pessoa", admite Colaianni, "mas pelo menos ele faz as coisas". Em épocas como esta, acrescenta ela, é necessário gente assertiva - ou pelo menos gente que passe essa impressão.

Imediatamente depois do desastre, Berlusconi capitalizou a atenção da mídia, apertando mãos, dando tapinhas nas costas e derramando lágrimas. Ele causou controvérsia ao se referir às acomodações temporárias em barracas para as vítimas como se fossem "férias no acampamento" e inicialmente recusou a assistência internacional. Agora, com o custo total da reconstrução em L'Aquila estimado em 10 bilhões de euros ou mais, ele deveria agradecer sua boa sorte pelos 493,7 milhões de euros em ajuda aprovados pelo Fundo de Solidariedade da UE. Grande parte da ajuda prometida por seus amigos do G-8 não se materializou; apenas a Alemanha, Rússia, Cazaquistão e França mantiveram suas promessas doando milhões.

Logo depois do terremoto, Colaianni escavou os escombros junto com bombeiros sem parar, procurando sobreviventes. "Ela quase se matou de trabalhar", disse o marido. Agora ela trabalha na Lega Ambiente, uma organização de proteção ambiental dedicada a preservar os tesouros culturais de L'Aquila.

Marido e mulher tem jeitos bem diferentes de lidar com as cartas que receberam do destino. Isso provoca tensão e alterou seu relacionamento. Enquanto Pezzopane busca ajuda ativamente e mantém sua mente no futuro, Colaianni guarda tudo dentro de si. "Não estou no inferno nem no céu", diz ela, respirando profundamente. "Estou no purgatório".

Benefícios da mafia
Sempre tem quem lucre com as catástrofes. Por exemplo, logo após o terremoto, os preços dos alimentos subiram demais em Abruzzo. Na época, um quilo de carne chegou a custar US$ 116.

Hoje, os aluguéis triplicaram. Qualquer um que não possa ficar num hotel, com parentes ou em um dos raros novos apartamentos pode esperar pagar até 1.500 euros por mês por um apartamento de dois cômodos. Outras 2.700 unidades de moradia devem ser concluídas até janeiro, mas isso ainda está longe do que é necessário para acomodar 19 mil pessoas que ainda esperam um novo lar.

Da mesma forma, a corrupção é um problema enorme. No final de novembro, dois funcionários do governo foram presos e acusados de ter concedido um contrato de construção no valor de 15 milhões de euros a conhecidos. Numa atmosfera de fraude e decepção, há rumores de que funcionários estejam dando tratamento preferencial a amigos e parentes ao designar os poucos apartamentos para as vítimas do terremoto. As autoridades constantemente encontram permissões de construção que violam a lei. E o dinheiro de ajuda da UE está desaparecendo por canais obscuros.

"A natureza não mata; as pessoas sim"
Alguns dizem que a situação atual os lembra da época antes do desastre. Até Guido Bertolaso, chefe do departamento de proteção civil da Itália, que foi promovido ao poderoso cargo de administrador da crise sob o primeiro-ministro Berlusconi, teve de admitir que teria havido menos mortes em L'Aquila se os novos prédios fossem à prova de terremotos e construídos de acordo com as normas. "A natureza não mata", disse Bertolaso no parlamento italiano. "As pessoas sim."

Num site em homenagem a Benedetta Pezzopane, um blogger chamado "Winterpuppet" explica de forma menos diplomática: "Se você constrói casas com merda, é óbvio que elas vão cair um dia". De acordo com o blogger, chamar isso de acidente foi a coisa mais injusta que poderia ter sido feita com as vítimas. "Essas pessoas morreram porque nós toleramos uma classe política corrupta e mafiosa nesse país."

Em novembro, Bertolaso anunciou sua renúncia - mas ele ainda não citou nenhum motivo para deixar o cargo. A partir de janeiro, a região e suas prefeituras assumirão o controle do gerenciamento da crise. Quando isso acontecer, eles irão ter que lidar com o fato de que, durante a reconstrução, a máfia pretende ganhar uma fatia generosa dos lucros e expandir sua esfera de influência.

Em 17 de abril, apenas 11 dias depois do terremoto, Berlusconi - a que um vira-casaca da máfia recentemente acusou de manter contatos regulares com chefões da máfia nos anos 90 - fez a declaração grandiosa de que L'Aquila deveria ser reconstruída em seis meses e que a máfia seria deixada de fora. Mas, hoje, oito meses depois, o entulho continua empilhado no centro histórico da cidade. E, é claro, o crime organizado ganhou terreno.

O honrado homem da Sicília
Por exemplo, acredita-se que a IGC, uma companhia da cidade de Gela, na Sicília, esteja envolvida na construção de um novo empreendimento em Bazzano, uma pequena cidade nos arredores de L'Aquila. A chamada "nova cidade", que fornece acomodações confortáveis para até 1.600 pessoas atualmente sem teto, deverá ser à prova de terremotos e construída de acordo com as normas ambientais mais recentes. Mas o DIA, órgão federal sediado em Roma e encarregado de investigar as atividades da máfia, acredita que há conexões entre a IGC e "associados da família mafiosa dos irmãos Rinzivillo" e determinou que o escritório da promotoria pública em L'Aquila abra uma investigação.

A companhia supostamente regular continuou a manter seu envolvimento discreto. Em vez de participar diretamente do processo de concorrência pública, a IGC simplesmente coloca seus próprios funcionários como terceirizados nos projetos de construção. Por exemplo, uma companhia chamada Edimal, que assinou contratos no valor de 54 milhões de euros, está legalmente encarregada da construção das acomodações à prova de terremoto em Bazzano. Um porta-voz da companhia com sede em L'Aquila disse que a companhia da Sicília, IGC, recebeu o contrato porque "ofereceu as melhores garantias em termos de qualidade, preço e conclusão do plano".

Especialistas dizem que os lucros com o projeto ainda são magros. Entretanto, Franco Gabrielli, prefeito de L'Aquilla, e o ministro do Interior Roberto Maroni estão conscientes de que os honrados homens da Sicília possam já estar com um pé na porta. Assim, eles anunciaram novos esforços na luta contra a máfia.

Os oficiais também estão determinados a encontrar a culpa pela negligência fatal na construção de alguns dos prédios da região afetada pelo terremoto. No caso da "Casa dos Estudantes" que ruiu em L'Aquila, que matou oito pessoas, doze suspeitos estão sendo investigados por homicídio negligente, de acordo com Alfredo Rossini, o promotor público local. Eles incluem engenheiros civis e técnicos, bem como funcionários da administração pública.

Favores mal recebidos
A região foi considerada por muito tempo uma zona livre da máfia. Mas agora, duas famílias do crime organizado - a Camorra Napolitana e a Sacra Corona Unita de Apulia - fizeram profundos avanços na sociedade. Líderes conhecidos da máfia agora estão usando a região como base para coordenar seu comércio de drogas ou lixo, escondendo a si mesmos e a suas riquezas nas montanhas.

De acordo com o jornal local "Il Centro", muitos prefeitos de cidades menores na região afetada pelo terremoto relataram recentemente terem encontrado com alguns visitantes peculiares. "As pessoas aparecem oferecendo as coisas mais estranhas", disse um dos prefeitos. Os homens aparentemente vieram da Lombardia, Calábria e da região do Veneto e fizeram propostas como: "Dê-me o seu entulho, eu tomarei conta dele". O prefeito disse que era óbvio que eles eram representantes da famosa máfia do lixo - e por isso ele consistentemente os acompanhou para fora de sua sala.

Entretanto, alguns líderes de vilarejos ficariam felizes em se livrar do entulho, que é difícil de transportar e em parte contaminado com asbestos. Eles se esquecem que, ao fazer isso, estão apenas se tornando novas partes do império da máfia.

Tradução: Eloise De Vylder

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