O início do fim do Afeganistão: os planos de Guttenberg para falar com os taleban

Olaf Ihlau

Cada vez mais parece que o Ocidente terá de negociar com elementos moderados dos taleban se quiser sair do Afeganistão. O ministro da Defesa da Alemanha foi contra no passado, mas hoje mudou de tom. E com razão, já que é o único caminho para iniciar uma estratégia de saída para a Alemanha.

Dois anos atrás, quando Kurt Beck ainda era o líder do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), ele sugeriu que uma maneira de solucionar o conflito no Afeganistão seria "sondar... [elementos] moderados" dos taleban. A reação foi uma enxurrada de zombaria e ridicularização. Seus adversários políticos e os comentaristas - a maioria dos quais nunca esteve no Hindu Kush - passaram a falar sobre a suposta ingenuidade de Beck.

Na época, um dos membros desse coro de críticos foi Karl-Theodor zu Guttenberg, então uma estrela política em ascensão e hoje ministro da Defesa da Alemanha. Guttenberg teve palavras ásperas para Beck, dizendo por exemplo que ele nunca havia conhecido "alguém que tivesse encontrado um membro equilibrado dos taleban".

Infelizmente para Guttenberg, esse pequeno floreio retórico foi um tiro que saiu pela culatra. Mesmo na época, claramente havia alguns moderados entre os taleban. Estes incluíam os que o presidente Hamid Karzai tentou colocar em seu governo para melhor isolar os extremistas do campo insurgente.

Beck talvez se surpreendesse ao saber que um ministro da Defesa alemão chamado Guttenberg hoje está ressuscitando sua sugestão de falar com elementos moderados dos taleban. Como Guttenberg disse recentemente, "nem todo insurgente representa o mesmo perigo para a sociedade ocidental". E ainda é uma sugestão explosiva - mas desta vez poderá realmente se tornar a política alemã.

É claro, muitos suspeitam de que a recomendação de Guttenberg também seja apenas uma tática para desviar a atenção do caso Kunduz, que o mantém sob fogo por ter pronunciado supostas inverdades sobre o bombardeio ordenado pelos alemães em 4 de setembro contra dois caminhões-tanques em Kunduz, no Afeganistão - um ataque que matou 142 pessoas, muitas delas civis. Esse pode muito bem ser o caso - mas de alguma maneira é possível que ele esteja pensando seriamente em uma mudança de estratégia? Vamos esperar que sim - porque ela é necessária há muito tempo.

Para o Ocidente, é tão impossível vencer o conflito no Afeganistão por meios militares quanto o foi para os soviéticos duas décadas atrás. E é altamente improvável que se encontre uma solução política para o conflito sem envolver os taleban, ou pelo menos os elementos moderados do taleban dispostos a negociar. Esses tipos de elementos existem em Cabul. Estão reunidos em torno de Wakil Ahmed Muttawakil, o ex-ministro das Relações Exteriores taleban, e Abdul Salam Saif, ambos os quais servem como intermediários quando o presidente Karzai quer conferenciar com elementos da linha-dura.

Buscando uma estratégia de saída

Com seu gesto corajoso e justificado, Guttenberg se aproxima da questão que formará o eixo do debate nos próximos meses. Essa questão, é claro, é que o Ocidente está procurando uma estratégia de saída que lhe permita libertar-se do pesadelo afegão o mais rapidamente possível e com a menor perda de respeito possível.

Ao fazê-lo, a comunidade internacional terá de se despedir de seu muito criticado senso de superioridade, assim como de suas alegações de querer inculcar valores ocidentais e levantar faróis democráticos em uma sociedade que continua profundamente enraizada em estruturas tribais patriarcais.

A nova geração de talebans são os filhos e netos dos mujahedin, ou guerreiros santos, originários das tribos pashtun que o Ocidente primeiro celebrou como defensores da liberdade em seu combate aos soviéticos. E estes também incluem fundamentalistas islâmicos, como o ainda temido chefe guerreiro Gulbuddin Hekmatyar.

Desde a época da luta contra os soviéticos, essas pessoas quase não mudaram seu credo político ou religioso. A única diferença realmente é que agora, em vez de combater os comunistas ateus, eles combatem os estrangeiros ocidentais. Em consequência, os ocidentais pararam de chamá-los de guerreiros da liberdade e hoje os chamam de insurgentes e terroristas.

Vale a pena tirar um momento para avaliar que lado foi mais desonesto. E também vale a pena tirar um momento para contemplar quem está mais disposto a sofrer - e quem tem mais tempo.

Uma das coisas que nunca mudam sobre a política afegã é que há alianças em constante mutação e coalizões entre antigos inimigos mortais. Pode ser muito difícil imaginar que extremistas como Hekmatyar ou mesmo o antigo líder taleban mulá Omah poderiam logo voltar a ocupar cargos políticos em Cabul. Na verdade, é muito mais provável que esses dois sejam exilados para a Arábia Saudita, onde poderiam conviver com seus patrocinadores wahabitas. Mas quase todos os outros acordos também são concebíveis - desde que uma grande e tradicional reunião de idosos das tribos, a chamada "loya jirga", possa indicar um governo de união nacional.

Voltando a um regime islâmico conservador

Esse governo teria, em primeiro lugar, de concordar com um calendário para a retirada das tropas da Otan, que seriam substituídas por forças de manutenção da paz formadas em países muçulmanos. Da mesma forma, esse governo teria de garantir ao Ocidente a única coisa que ele considera de suprema importância: que o território afegão não apresentaria mais qualquer tipo de ameaça para o resto do mundo.

O fato é que a Al Qaeda não precisa mais de um lugar como a região de fronteira do Paquistão com o Afeganistão, onde os satélites e teleguiados americanos podem detectar cada rato, para treinar futuros jihadistas. De fato, o banco de recrutas para a "Terror International" há muito tempo se espalhou para outros países muçulmanos, da Malásia ao Maghreb.

O próprio Afeganistão provavelmente voltaria a ser novamente uma área islâmica conservadora. Mas o rígido wahabismo da Arábia Saudita realmente não parece incomodar seus aliados do Ocidente - exceto talvez quando ocasionalmente se manifesta na forma de violações aos direitos humanos.

Além disso, o fato de que se pode realmente falar com os taleban e se pode realmente forjar acordos sobre projetos de desenvolvimento é mostrado pelo exemplo admirável de Reinhard Erös, o médico militar alemão cuja persistência levou seu projeto "Kinderhilfe Afghanistan" (Ajuda para as Crianças Afegãs) a construir escolas para meninas no coração do território pashtun.

Com seu empenho nessa política, Guttenberg poderia ajudar as pessoas a perceber duas coisas. A primeira é que os afegãos, afinal, devem decidir seu próprio destino; e a segunda, que eles precisam fazer isso no contexto de um sistema de governo que reflita as suas tradições culturais, e não as nossas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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