O Tigre de Minsk: as ambições de alta tecnologia de Lukashenko para Belarus

Uwe Klussmann

O presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, repentinamente parece um homem diferente daquele que seu país conhecia. O líder autoritário -que ainda preside as comemorações a cada 7 de novembro do aniversário da Revolução de Outubro dos bolchevistas- agora está se comportando mais como um membro da oposição. Em suas aparições públicas, ele reclama da "arbitrariedade oficial", pede por "liberalização econômica" e declara que a ex-república soviética deve se tornar "atraente para os investidores".
  • Reuters

    Em foto de arquvio, o presidente Alexander Lukashenko (dir) é visto ao lado do primeiro-ministro russo Vladimir Putim, em reunião de cúpula em Minsk, Belarus

Este é o autocrata de Minsk falando, o homem que gosta que as crianças do país o chamem de "batko" ("pai") e aquele que muitos consideram o último ditador da Europa. Teria ele se transformado repentinamente em um reformista?

Bem, é possível dizer com certeza que ocorreu algum progresso. Belarus agora se encontra entre os dez mais do ranking dos países atraentes do índice "Doing Business" (Fazendo Negócios) do Banco Mundial, na categoria formação de negócios. Da mesma forma, o Comitê de Relações Econômicas com o Leste Europeu da Alemanha, uma organização conjunta de importantes associações setoriais alemãs, notou a "melhoria do clima para investimento" em Belarus e que há 360 empresas alemãs ativas no país.

Até recentemente, a república se manteve quase isolada, como nos tempos soviéticos. O país melhorou consideravelmente sua renda ao vender as empresas estatais -como as operadoras de telefonia celular Velcom e Best- para investidores estrangeiros. Em 2006, essas vendas renderam US$ 30 milhões para os cofres do país; um ano depois, o número saltou para US$ 1,2 bilhão.

O Fundo Monetário Internacional elogiou as políticas financeiras de Lukashenko, assim como o fato dele querer estabilizar a moeda do país, que já sofreu uma desvalorização de 20%. O presidente "reagiu bem à crise", disse Herbert Stepic, presidente-executivo da Raiffeisen International, que opera o quinto maior banco em Belarus.

Tudo isso faz com que a Europa se pergunte: O que aconteceu com Lukashenko? Será que Belarus se tornará o próximo tigre econômico?

'Um Vale do Silício bielo-russo'
Por anos, Valery Tsepkalo trabalhou com Lukashenko na mudança de curso do país. Um ex-embaixador nos Estados Unidos, Tsepkalo é diretor do Parque de Alta Tecnologia bielo-russo e um "assessor" do presidente.

Sentado em um sofá de couro flanqueado por uma queda d'água artificial, no oitavo andar de um prédio moderno na periferia de Minsk, Tsepkalo está reinventando seu país. Segundo ele, Belarus deve se tornar uma "líder em tecnologia da informação no Leste Europeu e na região báltica". Ele acredita que um "Vale do Silício bielo-russo" está surgindo.

Há 72 empresas de desenvolvimento de software registradas no Parque de Alta Tecnologia de Minsk. Elas desfrutam de benefícios em impostos e podem alugar espaços comerciais pelo valor mensal de apenas US$ 3 por metro quadrado. Por exemplo, uma empresa que se estabeleceu aqui é a Epam Systems. Fundada nos Estados Unidos, a empresa conta com 2 mil funcionários em Belarus, muitos deles mal chegando a vinte e poucos anos; seus clientes incluem a Bosch e a SAP. O salário mensal médio no Parque de Alta Tecnologia é de cerca de 1.000 euros, aproximadamente quatro vezes mais que a média do país.

Companheiros estranhos
Ainda assim, provavelmente nem o próprio Lukashenko acredita que todo o país possa realmente se transformar em um paraíso de alta tecnologia. Na verdade, o último bastião do socialismo na Europa está correndo o risco de perder o fôlego. Apesar da previsão do FMI de que Belarus desfrutará novamente de crescimento econômico em 2010, Lukashenko ainda precisa de dinheiro. E ele aceita a ajuda de onde quer que ela venha. Ele recebeu US$ 2 bilhões em compromissos de empréstimo do Kremlin, e o FMI pagou quase US$ 700 milhões no final de outubro como parte de um empréstimo de US$ 3,63 bilhões.

Mais do que qualquer coisa, Lukashenko está à procura de investidores ocidentais. Ele planeja vender 52% das ações da antiga fábrica de relógios Luch, em Minsk, para o fabricante de relógios suíço Franck Muller, a quem o presidente elogia como um investidor que representa a privatização "humana".

Lukashenko claramente não tem a mesma confiança nos oligarcas russos que também estão interessados em investir. Ele rejeitou o banco estatal russo Sberbank na primeira vez em que tentou assumir o Promstroibank, uma grande instituição financeira de Minsk. Lukashenko se queixou de que os russos estavam oferecendo apenas metade do valor que esperava obter. Então a Rússia aumentou a pressão, e Lukashenko ao final concordou com o negócio de US$ 280 milhões -visando continuar recebendo gás natural com desconto até 2014.

Ainda assim, Lukashenko expôs sua profunda desconfiança de Moscou para um seleto círculo de ouvintes russos solidários. Com os investidores russos, perguntou o autocrata, quem pode garantir que não comprarão algo e então levá-la a falência? Foi exatamente o que aconteceu quando investidores duvidosos compraram os estaleiros Wadan em Rostock, na costa alemã do Mar Báltico.

Poucos sucessos
Na verdade, a meta do presidente não é a reforma; em vez disso, é o controle sobre as empresas mais importantes do país. Lukashenko fez recentemente comentários desdenhosos sobre "toda essa confusão de privatização" para pessoas próximas, reiterando seu apoio à "economia regulamentada pelo Estado", incluindo a "intervenção do Estado nas políticas de estabelecimento de preços".

O governo anunciou originalmente que venderia 519 estatais. Mas agora, especialistas como Ricardo Giucci e Robert Kirchner da German Economic Team em Belarus, uma consultoria financiada pelo governo alemão, descreve uma "paralisação no processo de privatização" que é "questionável em termos de política econômica".

Além disso, está atualmente oferecendo cinco empresas-piloto que serão privatizadas segundo uma exigência do FMI, mas todas se mostraram pouco atraentes. Entre as ofertas do presidente estão uma engarrafadora de champanhe, uma fábrica obsoleta de rolamentos e um hotel da era soviética na cidade provincial de Brest. Sem causar surpresa, os investidores estrangeiros continuam sendo uma exceção à regra e o governo controla cerca de três quartos da economia de Belarus.

Ainda assim, uma privatização bem-sucedida ocorreu na forma de um joint venture entre uma fabricante de caminhões de Minsk e a companhia automotiva alemã MAN. Cerca de 300 operários montam 45 caminhões pesados e escavadoras por mês nos disciplinados setores da fábrica da empresa. O vice-diretor Stanislav Ivanyushenko envia regularmente funcionários para a Alemanha para treinamento adicional.

'À beira da paralisação'
Mas, a apenas poucos quilômetros de distância, na "Fábrica de Tratores de Minsk V.I. Lenin", o socialismo nunca morreu. A fábrica, cujas vendas teriam caído em mais de um terço, está cortando custos até mesmo no aquecimento dos ambientes de trabalho. Na área de montagem com quase um quilômetro de comprimento, os operários na linha de produção fixam blocos de motor a chassis de trator pintados de vermelho a temperaturas poucos graus acima das de congelamento. Apesar dos tratores serem para exportação, eles geralmente acabam passando muito tempo em estoques.

O vice-diretor Igor Yemelyanovich ainda se comporta como um administrador bem-sucedido. "Nossos negócios vão muito bem e não precisamos privatizar." De qualquer forma, a empresa estatal, que conta com 36 mil funcionários, não tem sua venda prevista.

Investigadores do governo anunciaram a possibilidade de manipulação dos livros contábeis da empresa. O Comitê de Controle do Estado abriu dois processos criminais contra os gerentes da fábrica de tratores por abuso de autoridade e enriquecimento ilícito. Os investigadores encontraram evidências de transações fantasmas, assim como vendas para a Rússia a preços baixos predatórios. Até mesmo o jornal do governo, o "Soviet Belarus", reconheceu que a empresa está operando "à beira da paralisação".

Esses relatos podem forçar Lukashenko a abrir seu país ao Ocidente consideravelmente mais cedo do que planejeva. Isso é precisamente o que a União Europeia espera e, em antecipação, até mesmo suspendeu a proibição à entrada de membros do governo bielo-russo em países da UE, que foi imposta em 2006 em consequência de uma suposta fraude eleitoral.

No início de dezembro, o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, deu um impulso ao status do país ao visitar Minsk. A visita marcou a primeira vez em que o chefe de um país da UE visitava Lukashenko em 15 anos. Imediatamente, Berlusconi exagerou descaradamente as coisas em seus comentários agradáveis, dizendo: "Eu agradeço a você e ao seu povo, que te ama, como visto nas eleições".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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