Uma nova mesquita em Manhattan espera superar as feridas do 11 de setembro

Marc Pitzke Em Nova York (EUA)

O Ponto Zero fica na mesma rua, um símbolo global da violência do radicalismo islâmico. Mas em um prédio semidestruído na Baixa Manhattan, um novo templo muçulmano foi aberto. Os fundadores esperam que ele possa ajudar a curar a ferida aberta pelo 11 de Setembro - dobrando a esquina de onde os ataques ocorreram.

Inicialmente, é apenas um punhado de calçados, bem arrumados em prateleiras brancas na entrada. Mas logo as prateleiras ficam lotadas e dezenas de calçados se empilham no chão: sandálias, tênis, botas de caminhada, botas de construção, mocassins masculinos, femininos. A contagem final é de mais de uma centena de pares.
  • Spiegel Online

    Na mesma rua do Ponto Zero, símbolo global da violência do radicalismo islâmico, um templo muçulmano foi aberto para ajudar a curar a ferida aberta pelos ataques de 11 de Setembro

Três pequenos aquecedores, ligados nas tomadas na parede, são impotentes contra o frio gélido que vem da rua. Homens se ajoelham sobre o carpete que se estende de parede a parede, envoltos em casacos de inverno, mas apenas com as meias nos pés. Um grupo de mulheres paira no canto, algumas delas envoltas em longos xales. Todos estão voltados para a mesma direção - para o leste.

É onde o imã se encontra, com anotações na mão, um minúsculo microfone preso em sua lapela. Os homens e mulheres se levantam, erguem suas mãos ao alto, murmuram "Allahu akhbar", se curvam e ajoelham de novo.

É assim que sempre começa, a oração de sexta-feira realizada por muçulmanos em todo o mundo - mesmo aqui nas inúmeras mesquitas escondidas atrás de fachadas discretas no coração de Manhattan.

Dobrando a esquina no Ponto Zero
Este templo improvisado em particular, entretanto, fica em um endereço singular. Com apenas poucas semanas de idade, ela fica dobrando a esquina do Ponto Zero.

Os prédios do World Trade Center ficavam a apenas poucos passos na mesma rua. Atualmente, é um canteiro de obras repleto de trauma -onde em 11 de setembro de 2001, extremistas islâmicos assassinaram 2.751 pessoas em nome de seu entendimento de Alá.

Eles começaram a se reunir aqui durante o horário de almoço, próximo do fim do Ramadã, o mês muçulmano de jejum. O carpete listrado verde e cinza e o velho telefone público em frente são o que restou do inquilino anterior, a Burlington Coat Factory. As portas de vidro ainda exibem os adesivos dos cartões de crédito que eram aceitos aqui: American Express, Mastercard, Visa, Discover.

Há poucos anos, seria impensável muçulmanos estabelecerem uma mesquita improvisada aqui, tão próximo do Ponto Zero.

"Apenas em Nova York isso é possível", disse Daisy Khan, diretora executiva da Sociedade Americana para o Avanço Muçulmano (Asma, na sigla em inglês), para a "Spiegel Online". A Asma alugou um novo espaço para oração em Park Place. O marido dela, o imã Feisal Abdul Rauf, é um escritor proeminente, clérigo e ativista. Ele também é o líder espiritual de uma comunidade sufi, cuja mesquita principal fica perto de Tribeca.

Centro para reconciliação
Enquanto alguns lugares proíbem minaretes e lenços de cabeça, aqui em Manhattan - no Ponto Zero do terror - muçulmanos e cristãos estão tentando encontrar uma forma de coexistir. O salão de oração no centro - uma sala para atender o excedente de pessoas da movimentada mesquita de Tribeca e a fundação para o que poderá vir a ser um centro islâmico para a reconciliação - fica entre um pub irlandês e um mercado amish. O Museu da Herança Judaica, em homenagem às vítimas do Holocausto, fica próximo. Virando a esquina fica a Igreja de São Pedro, a mais antiga igreja católica de Nova York.

"Alá misericordioso, para o qual não há pecado grande demais para o perdão", diz o imã na principal oração do dia. Ele veste um terno preto sob seu casaco, que é envolvido por um cachecol.. O metrô para Wall Street faz barulho sob o prédio, fazendo as paredes vibrarem. Do lado de fora, os pedestres se apressam em meio ao frio.
  • Spiegel Online

    Mesquita improvisada O templo está instalado
    no prédio da antiga loja Burlington Coat Factory.
    As portas de vidro ainda exibem os adesivos
    dos cartões de crédito que eram aceitos aqui: American Express, Mastercard, Visa e Discover



'A mão divina'
A história deste prédio de cinco andares na 45 Park Place está estreitamente ligada aos eventos de 11 de setembro de 2001. Naquela manhã, o trem de pouso de um dos aviões que atingiu as torres atravessou o telhado e dois andares de vendas. A loja ainda estava fechada, de forma que ninguém se feriu. Mesmo assim, a Burlington Coat Factory se mudou. O prédio, construído em 1923, ficou vazio desde então.

Os proprietários, herdeiros da família Pomerantz de Nova York, finalmente o venderam em julho deste ano pela soma ridiculamente baixa de US$ 4,85 milhões. Ele foi comprado pela empresa imobiliária Soho Properties, dirigida por muçulmanos. Um dos investidores era o imã Feisal, que procurava expandir sua congregação no centro, para oferecer uma oportunidade de oração para aqueles que trabalham no Distrito Financeiro e têm um horário curto de almoço.

Uma visão mais ampla
Isso então se transformou em uma visão mais ampla. O imã Feisal agora planeja transformar o prédio em um centro cultural islâmico completo, incluindo uma mesquita, um museu, "opções de comércio", um salão para seminários para conciliação das religiões, uma resposta à reação negativa contra os muçulmanos em geral e para "estender a mão", como diz sua esposa, Daisy Khan.

"Era quase óbvio que algo assim tinha que surgir das cinzas do 11 de Setembro", disse Khan. "De certa forma, isto tem claramente uma mão divina. É quase como se Deus quisesse se envolver."

Nova York possui a comunidade muçulmana mais diversa do mundo, fora Meca. Enquanto em outras partes do mundo ocidental os muçulmanos têm enfrentado preconceitos estereotipados e um sentimento antimuçulmano desde o 11 de Setembro, aqui o molestamento acabou relativamente rápido. Os nova-iorquinos, afinal, estão familiarizados com seus compatriotas muçulmanos - eles são parte integral da cidade. "Nós somos banqueiros, taxistas, vendedores ambulantes", disse Khan.

Fortalecendo os laços
O projeto encontrou apoio da cidade. "Nós, como muçulmanos de Nova York, temos tanto compromisso com a reconstrução da cidade quanto qualquer um", disse ao "New York Times" a diretora do Escritório de Assuntos Imigrantes da prefeitura, Fatima Shama, que é muçulmana. Lynn Rasic, uma porta-voz do Memorial do 11 de Setembro, disse, "a ideia de um centro cultural que fortaleça os laços entre os muçulmanos e pessoas de todas as religiões e origens é positiva".

O imã Feisal, que nasceu no Egito, é conhecido aqui por sua voz moderada. Ele prega a tolerância e a liberdade de religião, critica o fanatismo e a intolerância, e é até mesmo aceito pelas comunidades judaicas. "Ele endossa o meu credo", disse ao "Times" o rabino Arthur Schneier, o líder da Sinagoga de Park East. "Viva e deixe viver."

O prédio em Park Place ainda não é muito mais do que uma casca vazia. Do lado de fora, ninguém saberia que, por trás das venezianas metálicas pichadas, muçulmanos estão rezando para Alá. A fachada conta com várias áreas com ferrugem. A tinta está descascando. A logomarca torta da Burlington Coat Factory ainda está pendurada sobre a entrada. Uma placa anuncia: "Imóvel comercial para alugar".

No interior, no salão de oração iluminado por lâmpadas fluorescentes e com paredes nuas, o pó se acumula por toda parte. Mas o espaço se enche rapidamente de fiéis - jovens e velhos, árabes, asiáticos, indianos, afro-americanos. Eles vêm trajando jeans ou ternos caros, em casacos de lã ou jaquetas de inverno. Alguns parecem trabalhar em Wall Street. Alguns parecem pobres.

Uma comunidade modelo
"É ótimo ter esta opção", diz um porteiro, que veio do World Financial Center, atravessando o Ponto Zero. "Desta forma eu não perco minha oração de sexta-feira."

"Nós seremos uma comunidade modelo de excelência", disse Sharif El Gamal, o presidente-executivo de aparência jovem da Soho Properties, que veio para a oração. "Este espaço poderia ser um símbolo de que aquilo que aconteceu no 11 de Setembro não está associado aos muçulmanos em geral."
  • AP

    Vizinhos A apenas 100 metros de distância da mesquita, os guindastes trabalham. Do buraco do Ponto Zero, vigas gigantes de metal sobem - os primeiros pisos do novo World Trade Center

A oração do dia é liderada pelo imã Faiz Khan, um médico de Long Island, que está substituindo o imã Feisal, que está viajando. "Isto tem um potencial maravilhoso", ele se maravilha. "Nova York pode ser um local de cura."

Em seu sermão, Khan fala sobre perdão, redenção e os riscos do fanatismo religioso. Ele alerta sobre a "contaminação" trazida pela "sabotagem, orgulho, vaidade, egotismo" e outras falhas de caráter. "Não existe essa coisa de combater religiões", ele diz. "Nós temos respeito por toda a criação", incluindo os "judeus, cristãos e muçulmanos".

Após cerca de 40 minutos eles terminam. Os homens e mulheres saem e imediatamente se misturam à paisagem urbana de Manhattan. As prateleiras com os sapatos ficam vazias. A apenas 100 metros de distância, os guindastes trabalham. Do buraco do Ponto Zero, vigas gigantes de metal começam a subir - os primeiros pisos do novo World Trade Center.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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