Cultura da corrupção prejudica economia da Grécia

Ferry Batzoglou e Clemens Höges

O governo grego empurrou o país para a beira da falência, ameaçando, como resultado, toda a zona do euro. Mas as elites do país acreditam que outros membros da união monetária europeia arcarão com os custos - apesar da ineficiência e da corrupção generalizadas

Ali Sakiroglou e os outros marinheiros da grande frota comercial grega mantêm o seu país à tona há vários anos. Mas atualmente Sakiroglou não é capaz sequer de ajudar a si próprio, enquanto está sentado na sua cabine no navio cargueiro de 2.000 toneladas Captain Vasilis. O aposento minúsculo é modestamente decorado com uma cama, uma mesa e um aparelho de DVD.

Sakiroglou pressiona um botão do aparelho para assistir a um filme pornográfico alemão chamado "As Sereias no Alto Mar". Ele não consegue entender o que os atores dizem, mais isso não importa. Uma chuva grossa bate contra a janela. O navio está ancorado há muito tempo em Elefsina, perto de Atenas. Sakiroglou nos oferece schnapps de uma garrafa plástica na qual há um preço escrito à mão, o que indica que a bebida foi provavelmente adquirida no mercado negro, sem pagamento de impostos. Mas, nos dias de hoje, quem seria louco de se importar em pagar impostos em um país como a Grécia?

Sakiroglou, 53, tem uma mulher e seis filhos no norte da Grécia, onde há vários gregos muçulmanos. Antes da crise financeira, o Captain Vasilis fazia viagens frequentes entre o continente e locais como as Ilhas Cíclades, transportando cimento. Havia muito trabalho, e Sakiroglou, que ganhava um salário mensal de 2.200 euros (R$ 5.490), tinha condições de visitar a mulher. Havia projetos de construção do governo e empresas construíam hotéis, muitas delas em um ritmo frenético. E tudo era feito com dinheiro emprestado.

Mas agora ninguém tem dinheiro para comprar cimento, e o navio fica geralmente atracado no cais, onde Sakiroglou trabalha como segurança, ganhando apenas 900 euros (R$ 2.253) por mês. E a menos que o navio arrume uma nova carga nos próximos dias, ele provavelmente ficará sem trabalho algum, pois perderá até mesmo o seu atual emprego. Ironicamente, faltavam apenas dois anos para que ele pudesse ter direito a benefícios de aposentadoria. "A Grécia está acabada", afirma Sakiroglou. "Ninguém sabe o que será da minha aposentadoria."

Quando a economia global começou a tropeçar, devido aos problemas dos banqueiros de Nova York e Londres, o transporte de cimento cessou. Mas isso só expôs o fato de que a Grécia conta praticamente só com o turismo e a sua frota comercial para obter moeda forte nos mercados internacionais. As receitas advindas de impostos caíram drasticamente, e o governo anunciou que espera que o seu déficit seja o dobro daquele que fora inicialmente previsto. Mas até mesmo aquela previsão inicial já era o dobro do permitido segundo o Tratado de Maastricht. Agora os gregos estão sendo forçados a tomar emprestado uma quantia equivalente a 12,7% do seu produto interno bruto, que vem se somar à dívida já acumulada de 270 bilhões de euros (R$ 676 bilhões).

Os especialistas financeiros de Nova York e Londres reagiram imediatamente. As três principais agências de classificação - que classificam companhias e governos de todo o mundo segundo a possibilidade de crédito - rebaixaram pela primeira vez um país da zona do euro para a categoria "incerto". Na semana passada a Moody's rebaixou a classificação dos títulos do governo da Grécia de A1 para A2. E, depois disso, o principal especialista em câmbio do grande banco suíço UBS aconselhou os investidores a venderem os seus euros, alegando que esta moeda provavelmente perderia valor, em parte devido à Grécia. Isso, segundo o especialista do UBS, faria com que o euro caísse ainda mais, porque "os bancos centrais estrangeiros precisam avaliar o risco de um possível colapso da zona do euro".

Sem amanhã
Durante anos, os conservadores e socialistas que revezaram-se governando o país tomaram dinheiro emprestado como se não houvesse um amanhã. Por meio do mau gerenciamento e do nepotismo, eles levaram o país à beira da falência. Já os cidadãos reagiram praticando corrupção e fraude.

Com a adoção do euro, esse tipo de situação não se refere mais meramente ao problema de um pequeno país com uma população de 11 milhões de habitantes, mas afeta toda a Europa. Uma falência de amplitude nacional em um país da zona do euro poderia causar um estrago enorme na moeda da União Europeia. Além do mais, uma operação de socorro financeiro ao governo grego poderia desencadear um efeito dominó, fazendo com que outras economias problemáticas, como a italiana, a espanhola e a portuguesa, optassem também por uma "aterrissagem suave".

Na semana passada, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, tentou acalmar a situação ao dizer ao jornal "Bild": "A Grécia gastou mais do que podia, mas nós não podemos pagar pelos erros dos gregos". Foi o tipo de coisa que alguém diz quando sabe que é exatamente aquilo que acabará acontecendo.

Antes de ser eleito, em 4 de outubro, o novo primeiro-ministro grego Georgios Papandreou traduziu para o grego o slogan do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, "Change - Yes, We Can" (Mudança - Sim, nós podemos). Mas a versão de Papandreou foi um pouco mais dramática: "Nós precisamos mudar; caso contrário afundaremos". Na noite de 23 de dezembro, ele conseguiu enviar ao parlamento grego o orçamento mais austero da história. A única questão é: Será esse plano suficiente? A Grécia é uma sociedade feudal governada por famílias da classe alta. Tanto o pai quanto o avô de Papandreou foram primeiro-ministros.

Kyrtzos, ex-assessor econômico de um governo conservador, é dono de dois jornais. Quando adolescente, ele foi militante do Partido Comunista. "Eu concordo com as críticas ao capitalismo", diz ele. "Mas eu gosto deste sistema."

"Papandreou estabelece políticas para o povo, e não para os mercados financeiros. Como se estes fossem esperar. Eu gostaria que o mundo fosse assim", diz Kyrtzos. Em uma das suas promessas de campanha, Papandreou, parecendo desconhecer a questão do "spread", prometeu conceder aos funcionários públicos um aumento salarial no ano que vem. O chamado spread disparou para 2,7% depois que as agências de classificação rebaixaram a dívida grega.

O spread pode ser tão letal para um país quanto a água do mar é para um náufrago. Quando mais um país deve, maior é a taxa de juros que ele é obrigado a pagar sobre os seus títulos governamentais. A Alemanha, o país com melhor crédito na Europa, é o modelo na zona do euro. Um spread de 2,7 significa que Papandreou tem que pagar taxas de juros 2,7% superiores àquelas pagas por Schäuble, ou cerca de 6% sobre os títulos do tesouro grego. Como resultado, a Grécia é obrigada a contrair ainda mais dívidas.

Kyrtzos afirma que atualmente a economia não é mais capaz de financiar as instituições do Estado, que estão "completamente descontroladas". Segundo Kyrtzos, Papandreou, assim como o seu antecessor conservador, carece do poder necessário para cortar os gastos governamentais. Kyrtzos acredita que no fim das contas os países ricos serão obrigados a pagar o prejuízo.

Ilusionismo
Pireus é um exemplo dos problemas. Nos últimos meses, a Cosco Pacific Ltd., da China, adquiriu uma grande parcela acionária deste porto próximo a Atenas. Mas os trabalhadores do porto eram muito caros para os chineses, e é por isso que eles deverão procurar emprego em outro lugar, onde ninguém precise deles - ou ser despedidos, com pagamento de indenização ou concessão e benefícios antecipados de aposentadoria.

A opção de aposentadoria antecipada é atraente para os trabalhadores gregos. Segundo estatística de 2007 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o aposentado grego típico continua a receber 95,7% do seu rendimento anterior, enquanto o aposentado alemão ganha apenas 43%.

Porém, o último governo conservador prometeu que o acordo com os chineses não prejudicaria o orçamento nacional - em um ato de ilusionismo grego. A autoridade portuária provavelmente terá em mãos o problema dos custos dos trabalhadores portuários desempregados, cujo valor é estimado em 60 milhões de euros (R$ 150 milhões).

As escolas são um outro exemplo. Os gregos empregam cerca de 140 mil professores. Nos últimos anos, o número de crianças que vão à escola diminuiu, enquanto que o de professores aumentou. E com relação ao número atual de 140 mil, 18 mil desapareceram de alguma forma na burocracia governamental - mas ninguém sabe onde.

Conservadores e socialistas continuam a aumentar o tamanho das instituições governamentais para fornecer empregos aos seus apoiadores. De uma maneira tipicamente grega, Atenas gostava especialmente de tirar vantagem do programa "Stage" da União Europeia, que foi elaborado para financiar empregos de curto prazo para os desempregados, usando contratos temporários, para permitir que esses indivíduos obtivessem alguns meses de experiência de trabalho. Existem atualmente 30 mil desses "estagiários" trabalhando no setor público, que já tem um excesso de funcionários. Alguns estão obtendo experiência de trabalho em supostos empregos temporários há cinco ou seis anos, e transformaram-se em uma força importante. Quando o governo Papandreou anunciou recentemente que pretendia permitir pelo menos que os contratos dos estagiários terminasse, os trabalhadores afetados pela decisão exigiram empregos estáveis no governo.

Vejamos o caso de Dina Rovithaki, uma mulher pequena que se encontra ao lado de uma mala de rodinhas, que pesa quase o mesmo que ela, em uma rua em frente à OGA, o fundo público de pensão dos trabalhadores rurais, em Atenas. Rovithaki, 40, uma atraente e combativa mãe de dois filhos, acaba de passar o fim de semana em Creta para organizar a resistência - e isso explica por que ela está com uma mala. Ela é a diretora do grupo de estagiários da OGA.

Ela trabalha na OGA há quase cinco anos, processando documentos em troca de um salário mensal de 500 euros (R$ 1.250), sem seguro saúde. Ela tolerou os problemas inerentes ao emprego, esperando que este a conduzisse a um cargo permanente no funcionalismo público. Ela e vários milhares de outros estagiários estão atualmente processando a OGA. Eles chegaram até a ocupar o Ministério do Trabalho. Segundo Rovithaki, os atuais funcionários públicos são estagiários "sem qualificação" que foram colocados nos seus cargos pelos socialistas. Agora que os socialistas estão no poder, ela e os seus colegas, considerados "protegidos dos conservadores", serão despedidos.

Guru da crise
A fúria de Rovithaki devido ao seu problema pessoal é compreensível. Mas isso simplesmente reflete a maneira como a máquina do governo cresce, às vezes à esquerda, outras vezes à direita. "Este país é organizado de uma forma muito cara e ineficiente. Estamos pagando constantemente por novas máquinas", diz Babis Papadimitriou, um analista econômico que tem o comportamento ascético de um matemático.

Papadimitriou é o guru da crise grega, um astro austero para tempos difíceis. Ele é o apresentador de um programa diário de rádio, aparece nos noticiários noturnos de televisão e escreve colunas para jornais.

Papadimitriou está sentado na cafeteria de uma editora, ao lado de uma pintura a óleo sombria, enorme e de autor desconhecido. O quadro mostra uma tempestade violenta na costa da Grécia, mas inclui também um pedaço de um arco-íris. Uma janela próxima ao quadro mostra uma vista das marinas de Atenas, onde é difícil encontrar um iate que valha menos de um milhão de euros (R$ 2,5 milhões). Só em Atenas há várias dessas marinas. Entretanto, menos de 5.000 pessoas em toda a Grécia declaram à receita uma renda bruta anual de mais de 100 mil euros (R$ 250 mil), diz Papadimitriou.

"Os gregos podem amar a sua nação, mas eles veem o Estado como um poder a ser saqueado", afirma Papadimitriou, que também é grego. A sonegação de impostos afeta 10% dos impostos de valor agregado em toda a Europa, mas na Grécia este número salta para 30%. Segundo Papadimitriou, a sonegação é generalizada em um terço de toda a economia. Em tese, centenas de milhões de impostos não pagos poderiam ser recuperados, uma abordagem que é apoiada pelo novo governo.

Mas, como? Em outros países, os sonegadores seriam visitados pelas autoridades tributárias, e isso também ocorre na Grécia. Mas na Grécia acordos são feitos na surdina. Os fiscais da receita grega recebem "fakelaki" - envelopes contendo propinas - para não punir os sonegadores. Existe até uma tabela padronizada para as propinas. Por exemplo, o preço de uma inspeção de cartas marcadas das emissões do escapamento de um veículo é um fakelaki contendo 300 euros (R$ 750).

"Nós sempre fomos uma sociedade construída sobre uma estrutura de favores", critica Kostar Bakouris, presidente da filial grega da organização anti-corrupção Transparência Internacional, que colocou a Grécia no 71º lugar - atrás de Gana - na sua lista dos 180 países mais corruptos. Segundo Bakouris, uma família grega típica paga 1.700 euros (R$ 4.250) em propinas anualmente.

Indivíduo duro
Para fazer frente ao problema, os socialistas trouxeram Georgios Sorbas após assumirem o poder no último outono. Sorbas era uma escolha óbvia, o homem perfeito para convencer o mundo de que o governo grego está determinado a realmente erradicar a corrupção - apesar do fato de este homem, que tem um olhar penetrante sob as suas sobrancelhas grossas, já ter 70 anos de idade.

Sorbas é imparcial e é visto como um indivíduo duro, mas também como um homem de integridade. Ele foi promotor por muito tempo, e também vice-procurador-geral e funcionário graduado do Ministério da Defesa. Muitos dos casos com os quais ele lidou diziam respeito à corrupção, como por exemplo aquele que envolvia os monges do Mosteiro Vatopedi, em Athos, que foram acusados de ludibriar o governo com transações imobiliárias. Sorbas está tão familiarizado com esse lado sombrio da Grécia que ele sequer acha engraçado o fato de monges terem enganado o governo.

O governo anterior, dos conservadores, encarregou Sorbas da criação de uma autoridade de supervisão financeira. Mas em breve eles deixaram de lhe fornecer cargos ou computadores. Mesmo assim, Sorbas passou a investigar os negócios questionáveis envolvendo os fundos de pensão. Quando tentou ter acesso aos extratos bancários de homens influentes, Sorbas foi neutralizado e a sua agência acabou incorporada ao Ministério das Finanças.

Agora o governo de Papandreou deseja que Sorbas chefie uma comissão de especialistas encarregada de criar uma legislação para uma grande agência de combate à corrupção. "A Grécia ainda possui um número suficiente de funcionários públicos saudáveis capazes de lidar com o problema", diz ele.

O diretor da Transparência Internacional, Kostas Bakouris, que tem 72 anos, afirma: "Eu gostaria de ver alguém finalmente acabar na prisão. Se esta sociedade não mudar, nós estaremos completamente perdidos".

Tradução: UOL

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