O Ocidente está engasgado de medo

Henryk M. Broder

O ataque ao ilustrador Kurt Westergaard não foi a primeira vez em que se tentou impor um édito mortífero. Quando muçulmanos tentaram assassinar Salman Rushdie, há 20 anos, os protestos dos intelectuais foram estridentes. Hoje, porém, os autores e pensadores ocidentais preferem se esquivar a defender direitos básicos.

  • Shaun Curry/AFP - 12.fev.2009

    Muçulmanos tentaram assassinar Salman Rushdie, há 20 anos, por seu romance "Versos Satânicos"

Em 1988, o romance de Salman Rushdie "Versos Satânicos" foi publicado em sua edição original em inglês. A publicação levou o Estado iraniano e seu líder revolucionário, aiatolá Khomeini, a emitirem uma "fátua" contra Rushdie e oferecer uma recompensa polpuda para seu assassino. Isso gerou vários ataques aos tradutores e editores do romance, inclusive o assassinato do tradutor japonês Hitoshi Igarashi. Milhões de muçulmanos em torno do mundo, que nunca leram uma única linha do livro e que nunca ouviram falar do nome Salman Rushdie antes, queriam ver executada a sentença de morte contra o autor - o mais cedo possível, de forma que a honra manchada do profeta pudesse ser lavada com o sangue de Rushdie.

Nesse ambiente, nenhum editor alemão teve coragem de publicar o livro de Rushdie. Isso levou meia dúzia de autores alemães famosos, liderados por Günter Grass, a tomarem uma iniciativa que assegurasse a publicação do romance de Rushdie na Alemanha, fundando uma editora exclusivamente para este propósito. Foi chamada de Artikel 19, uma citação ao parágrafo na Declaração Universal de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas que garante a liberdade de opinião. Dezenas de editoras, organizações, jornalistas e políticos e outros membros proeminentes da sociedade alemã envolveram-se na "joint venture", na mais ampla coalizão que jamais se formou na história da Alemanha do pós-guerra.

Simpatia pelos sentimentos muçulmanos
Dezessete anos depois, quando o jornal dinamarquês "Jyllands-Posten" publicou uma dúzia de cartuns de Maomé em uma única página, houve reações similares no mundo islâmico às que se seguiram à publicação dos "Versos Satânicos". Milhões de muçulmanos de Londres a Jacarta, que nunca tinham visto as caricaturas ou mesmo ouvido falar no jornal, foram às ruas para protestar contra um insulto ao profeta e exigiram punição adequada aos ofensores: a morte. O líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, chegou ao ponto de exigir a extradição dos cartunistas para que pudessem ser condenados por uma corte islâmica.

  • Reprodução

    Charge do profeta Maomé usando um turbante em forma de bomba. A ilustração é uma das 12 charges publicadas pelo jornal "Jyllands-Posten", em novembro de 2005, que deu origem a vários protestos por parte de muçulmanos islâmicos

  • Pervez Masih/AP - 5.fev.2006

    Integrantes de grupo religioso paquistanês queimam bandeira da Dinamarca em protesto contra a publicação das charges de Maomé

Desta vez, contudo, em contraste com o caso de Rushdie, quase ninguém demonstrou qualquer solidariedade aos cartunistas dinamarqueses ameaçados - pelo contrário, Grass, que iniciou a campanha do Artikel 19, expressou sua compreensão dos sentimentos feridos dos muçulmanos e das reações violentas resultantes. Ele as descreveu como uma "resposta fundamentalista a um ato fundamentalista", na tentativa de traçar uma equivalência moral entre os 12 cartuns e as ameaças de morte contra os cartunistas. Grass também declarou: "Perdemos o direito de buscar a proteção sob a égide da liberdade de expressão".

"Acredito que a republicação desses cartuns foi desnecessária, insensível, desrespeitosa e errada", comentou o então secretário de interior britânico Jack Straw, referindo-se à decisão de várias organizações da mídia europeia a republicar as caricaturas. Enquanto isso, o "Vorwärts", um órgão do Partido Social Democrático alemão -um dos dois maiores partidos políticos do país- defendeu a liberdade de expressão em geral, mas disse que, neste caso específico, os dinamarqueses tinham "abusado" da liberdade, "não em um sentido legal, mas em um sentido político e moral". Para Fritz Kuhn, então líder parlamentar do Partido Verde, foi uma repetição do passado: "Elas (as caricaturas) me lembram dos desenhos contra os judeus da era de Hitler, antes de 1939". Com essa declaração, Kuhn, que nasceu em 1955, demonstrou que tinha uma memória pré-natal ou que nunca tinha visto uma única caricatura anti-semítica no jornal de propaganda nazista "Der Stürmer".

Como eunucos falando sobre sexo
Era como ouvir cegos falando de pintura, surdos de música ou eunucos discutindo sexo com base no que ouviram contar. Com a exceção do "Die Tageszeitung", de esquerda, o conservador "Die Welt" e o centrista "Die Zeit", todo jornal e revista alemão seguiu o conselho da colíder do Partido Verde Claudia Roth, que disse que a "distensão começa em casa" e pendeu para a cautela não republicando os cartuns. O psicanalista alemão proeminente Horst-Eberhard Richter aconselhou: "O Ocidente deve evitar provocações que produzam sentimentos de desonra ou de humilhação". É claro que Richter deixou aberta a questão se o "Ocidente" deve também evitar vestir minissaia, comer porco e legalizar parcerias do mesmo sexo para evitar causar sentimentos de desonra e humilhação no mundo islâmico.

Se os cartuns de Maomé tivessem sido reimpressos por toda a imprensa alemã, os leitores teriam visto quão inofensivos eram os 12 cartuns e como era bizarro e sem sentido todo o debate. Em vez disso, a avaliação foi deixada aos "especialistas" que, em nome da liberdade de opinião, tinham defendido toda peça de arte blasfema e as críticas ao papa e à Igreja, mas que, no caso dos cartuns de Maomé, subitamente opinaram que era preciso levar os sentimentos religiosos dos outros em consideração.

Esse argumento, contudo, foi claramente apenas uma desculpa, uma forma de evitar o fato que eles tinham sido silenciados pelo medo. Afinal, algumas coisas tinham acontecido no tempo entre Rushdie e o débâcle das caricaturas: 11 de setembro, as explosões em Londres, Madri, Bali, Jacarta e Djerba - eventos que alguns comentadores interpretaram como a reação do mundo islâmico a sua degradação e humilhação pelo Ocidente. Contra essa ameaça, parecia mais razoável e, acima de tudo, mais seguro, demonstrar respeito aos sentimentos religiosos em vez de insistir no direito à liberdade de expressão.

O direito de ofender é mais importante do que proteger os ofendidos
Poucas pessoas demonstraram disposição de ir contra essa tendência. Entre elas o comediante Rowan Atkinson ("Mr. Bean"), que em um debate sobre a adoção pelo Reino Unido de uma lei contra o ódio religioso declarou que o "direito de ofender é muito mais importante do que qualquer direito de não ser ofendido". E a somali Ayaan Hirsi Ali, muçulmana que mora na Holanda, respondeu com um manifesto que começava com as palavras: "Estou aqui para defender o direito de ofender."

Contudo, ela foi uma das poucas exceções. Até o presidente francês na época, Jacques Chirac, esqueceu-se temporariamente que representava o país de Sartre, Voltaire e Victor Hugo e decretou que "qualquer coisa que possa ofender a fé dos outros, especialmente as crenças religiosas, deve ser evitada".

Assim começou a "distensão". O único problema é que o outro lado não está pensando em distensão. O édito contra Salman Rushdie ainda está em vigor, e a tentativa de matar Kurt Westergaard na semana passada não foi a primeira sentença de morte por um incidente no qual nenhum crime foi cometido. O islã pode ser uma "religião de paz" em teoria, mas na prática parece diferente.

Uma advogada turco-alemã que mora em Berlim recentemente teve que se esconder porque se tornou alvo de ameaças de morte após publicar um livro. O tomo não inclui caricaturas de Maomé. O título foi o que serviu de provocação: "O islã precisa de uma revolução sexual".

Tradução: Deborah Weinberg

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