Regime de Ahmadinejad desperta medo entre os iranianos

Dieter Bednarz e Erich Follath

Protestos sangrentos no Irã, durante o festival Ashura, marcaram um ponto de virada no conflito entre o regime e seus oponentes. Pela primeira vez, os manifestantes responderam à brutalidade policial com violência. Mas apesar do movimento de oposição estar ganhando força, as grandes forças de segurança do governo ainda permanecem poderosas.

O governante em seu palácio estava perplexo. Ele se sentia impotente, sozinho e cheio de dúvidas. Ele deveria atacar naquele dia de dezembro, um dia em que seu povo estava tirando proveito do Ashura, um importante festival xiita, para tomar as ruas aos milhões e exigir sua renúncia com cantos irados? Não era imperativo que ele demonstrasse uma brutalidade inflexível e ordenasse aos seus soldados para dispararem contra a multidão, caso quisesse continuar como líder?
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    Os protestos violentos durante o festival Ashura, no Irã, marcaram a virada no conflito entre o regime iraniano e os opositores ao governo



Um homem que se sentia escolhido pela história, o governante estava familiarizado com o poder simbólico dos eventos que cercam o Ashura. Naquele dia, os fiéis comemoram o martírio do imã Hussein, o neto do Profeta Maomé, que enfrentou destemidamente forças superiores há 1.300 anos, na Batalha de Karbala, levando ao surgimento de uma religião dedicada ao sofrimento extasiado. O governante do Irã aparentemente sentiu que seria mais do que um erro tático recorrer à violência naquele dia. De fato, seria um incidente de sacrilégio ao qual não sobreviveria. Em vez disso, ele proibiu seus líderes militares e oficiais de inteligência de promoverem o que teria sido um banho de sangue.

Essa leniência atípica beneficiou o xá Mohammad Reza Pahlevi naquele dia de dezembro de 1978, mas àquela altura havia pouco o que salvar. Cinco semanas depois, o povo o removeu do poder. A revolução das massas prevaleceu.

Em 1º de fevereiro de 1979, milhões de iranianos celebraram o retorno do aiatolá Ruhollah Khomeini de seu exílio na França. Ele prometia um sistema político justo, baseado na religião e caracterizado por leis rígidas. Quando a República Islâmica foi proclamada em 1º de abril de 1979, o triunfo de Khomeini estava completo.

Uma nova dimensão
O Ashura é o dia em que a história foi escrita e provavelmente sempre continuará sendo escrita. A história também foi escrita em dezembro de 2009, quando a longa insatisfação dos iranianos com seus governantes atingiu uma nova dimensão -no mínimo, pré-revolucionária- quando violência e contraviolência dominaram as ruas de três das maiores cidades iranianas, Teerã, Tabriz e Esfahan. Quando nem mesmo o regime pôde negar que pessoas foram mortas durante os protestos. Quando as forças de segurança dispararam contra os manifestantes e centenas foram presos em todo o país. E quando corpos desapareceram e seus familiares nem mesmo puderam enterrar seus mortos dentro do período prescrito por sua religião.
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    Apoiadores da oposição iraniana protestaram com bandeiras e fotos do presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad e a caricatura do líder supremo no Irã, Ayatollah Ali Khamenei, em Paris (França). A manifestação foi um ato contra a repressão do regime de Teerã contra os iranianos com muita violência reprimidos pela polícia dias antes


As ações do governo provaram que o aiatolá Ali Khamenei, o herdeiro político de Khomeini, não estava nem mesmo fazendo concessões aos sentimentos religiosos. "Até mesmo o regime do xá respeitou o Ashura", disse o reformista Mahdi Karroubi, o dissidente mais proeminente fora o líder da oposição, Mir Hossein Mousavi. Durante o festival Ashura, no qual manifestantes de todos os níveis da sociedade tomaram as ruas, o último elo entre os governantes e os governados foi rompido. Como resultado, a República Islâmica perdeu sua legitimidade religiosa aos olhos de muitos muçulmanos.

Mas isso também significa um reconhecimento de fracasso completo por parte daqueles no poder? Isso significa que a teocracia enfrenta um colapso inevitável, talvez até mesmo imediato? É realmente apenas questão de tempo para o fim do regime do aiatolá Khamenei? Apenas uma coisa é certa, que os choques atingiram uma nova dimensão, que é altamente perigosa para ambos os lados. Nunca houve tamanha insatisfação popular com a liderança em Teerã e nunca antes uma frente tão ampla de pessoas, por todo o país, combateu com tamanha determinação o "ditador" Khamenei e seu aliado, o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Perdendo o medo dos brutamontes
Diferente dos protestos em meados do ano passado, a oposição perdeu o medo dos brutamontes do regime. Em vez de se esconderem para evitar as forças do governo durante as manifestações, os rebeldes agora estão contra-atacando, e em vez de ceder, estão se tornando mais radicais em suas exigências. Muitos não estão mais interessados em reformar a teocracia, mas sim em aboli-la completamente.

E nunca o regime reagiu com tamanha brutalidade. Pelo menos oito figuras da oposição foram mortas em questão de poucas horas. No que foi essencialmente um alerta ao seu tio, Seyed Ali Mousavi, 43 anos, foi executado a tiros diante da casa de sua família. Temendo ataques, Karroubi e Mousavi teriam fugido de Teerã na noite de quarta-feira, apesar de suas famílias terem negado a partida deles. O regime foi duramente condenado pela comunidade internacional, com a chanceler alemã, Angela Merkel, criticando suas "ações inaceitáveis" contra o movimento de protesto e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, falando sobre o "punho de ferro da brutalidade" do governo iraniano.

Mas os esforços do governo para deter os manifestantes estão se tornando cada vez menos eficazes. Cada nova onda de violência por parte do regime apenas aumenta a popularidade do movimento de protesto, que não mais consiste apenas de defensores jovens do movimento reformista, vindos das classes média e alta. Agora, comerciantes antes apolíticos e os desempregados estão se arriscando em confrontos diretos com as gangues de brutamontes do governo, e até mesmo os idosos estão se juntando aos protestos.

A rebelião sem dúvida ganhou um impulso especial com o fato de que, desta vez, o Ashura coincidiu com a prática tradicional dos sete dias de luto pela morte da figura religiosa mais simbólica da oposição, o grão-aiatolá Hossein Ali Montazeri, 87 anos. O país não era tomado por uma onda tão forte de emoção desde a morte do líder revolucionário Khomeini, em 1989.

Tomando as ruas
Na conservadora Najafabad, a cidade natal de Montazeri, muitos moradores profundamente religiosos, como o aposentado Reza Nouri, tomaram as ruas, apesar das autoridades terem imposto um toque de recolher e a Guarda Revolucionária ter isolado a cidade. Nouri, um agricultor, reconheceu ter votado em Ahmadinejad, porque ele prometeu "distribuir as riquezas da indústria do petróleo nos pratos dos pobres".

Mas o velho agora concorda com a opinião do aiatolá falecido, que acusou o governo de pisar nos valores islâmicos ao mentir ao povo e cometer crimes contra os manifestantes. Como Nouri, muitos não estão mais dispostos a aceitar esta "traição da revolução" pela qual lutaram.

Nas grandes cidades, o movimento pode atrair uma enorme reserva de pessoas com perspectivas ruins. Quase metade da população em idade de trabalho do Irã está atualmente desempregada, e mesmo a taxa oficial de desemprego está em 25%.

Em Esfahan, o movimento de protesto ganhou um apoio particularmente forte no bairro operário de Hossein Abad, e em Teerã mais e mais moradores descontentes dos bairros pobres no sul da cidade estão se juntando aos protestos de rua. Muitos dos manifestantes são jovens que, movidos pela mistura fatal de desespero, curiosidade e tédio, inicialmente se juntam às marchas e, provocados pela violência das forças pró-governo, acabam recorrendo ao atirar de pedras. Observadores ocidentais dizem que as cenas de rua quase lembram os distúrbios de 1968 na França e na Alemanha.

Dizem que até mesmo Khamenei foi pego desprevenido pela determinação dos manifestantes. Até agora, o líder revolucionário era considerado intocável, mas agora as palavras "abaixo o ditador" estão ressoando por todo o país. Os representantes da oposição alegam que Khamenei foi temporariamente removido por helicóptero de sua residência, no norte de Teerã, para o quartel da Guarda Revolucionária, também conhecida como Pasdaran, que permanece leal a ele. "Não é possível permanecer assim por muito tempo", disse o filho do grão-aiatolá Montazeri, Saeed Montazeri, um estudioso religioso sensato de 47 anos, com o título de hojatoleslam, em uma entrevista para a "Spiegel".
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    Opositor ao regime do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, segura pedras contra forças de segurança durante violentos confrontos que ocuparam as ruas de Teerã

O erro de cálculo histórico do regime
O temor de seu próprio povo por parte da liderança é consequência de um erro de cálculo histórico na noite da eleição presidencial, em 12 de junho. Com uma audácia raramente vista, Ahmadinejad se declarou vencedor, apesar da apuração estar longe de concluída e seu concorrente mais perigoso, Mousavi, provavelmente estar disputando cabeça a cabeça com ele.

Olhando para trás, parece provável que os resultados eleitorais foram manipulados em muitos distritos para assegurar a reeleição de Ahmadinejad, aparentemente com apoio de Khamenei. Essa noção é reforçado pelo fato de que, apesar de todos os protestos, o líder revolucionário foi suspeitamente rápido em parabenizar seu favorito, Ahmadinejad.

Mas contrariando as expectativas do regime, milhões de simpatizantes de Mousavi não estavam dispostos a aceitar os resultados. Três dias após a eleição, centenas de milhares se reuniram em Teerã para a maior marcha de protesto desde a derrubada do xá, cantando pacificamente: "Onde está meu voto?" Mousavi liderou a marcha de protesto com microfone em punho.

Mousavi, antes um tecnocrata insosso, parecia saborear seu novo papel como líder do povo e desafiou a liderança ao promover protestos adicionais. O governo reagiu e no final começou a atirar contra os manifestantes. Fotos da morte de Neda, a estudante de música, rapidamente começaram a circular pelo mundo via Internet e ela se transformou em um ícone do movimento.

Onda de protestos
Apesar das prisões e julgamentos em massa dos críticos do regime, alguns dos quais recebendo sentenças de morte, a enxurrada de protestos não cedeu. Quando o regime proibiu rigorosamente todos os protestos, o movimento inteligentemente usou os eventos de propagando do governo e a cultura de martírio, cultivada por décadas, para demonstrar sua recusa em capitular. Os funerais de ativistas se transformaram em protestos impressionantes, enquanto os eventos oficiais, como a comemoração do 30º aniversário da ocupação da embaixada americana em Teerã, em novembro, ou o "Dia do Estudante", no início de dezembro, se transformaram em confrontos abertos com as forças de segurança.

Mas foi após a onda de protestos no Ashura que o regime perdeu o controle sobre as ruas, não apenas em Teerã. Em incidentes que lembram os distúrbios contra o xá, os manifestantes dominaram as forças de segurança brutais em todo o país, rasgaram seus uniformes e erguiam triunfantemente os capacetes e botas policiais como troféus. Os perpetradores da violência se transformaram em vítimas.

Testemunhas relatam cenas dos brutamontes do regime tremendo de medo e de manifestantes ultrajados bradando: "Batam neles! Batam neles!" Mas em muitos casos, outros manifestantes aparentemente intervieram, gritando: "Deixem-nos em paz! Não batam neles!"

Também ocorreram danos substanciais à propriedade. Prédios e carros de polícia foram incendiados e muitas das motos que as temidas milícias Basij usavam para dispersar violentamente os manifestantes foram destruídas. Uma das perguntas discutidas mais intensamente nos blogs iranianos desde a metade da semana foi: "Nós agora somos tão ruins quanto nossos oponentes?"

Ainda poderosa
Apesar dos relatos iniciais de insubordinação entre os membros da Guarda Revolucionária, o regime ainda possui mais força do que os manifestantes. A Pasdaran conta com 125 mil homens e as unidades especiais que são particularmente leais ao regime devem incluir entre 5 mil e 10 mil homens. As milícias do regime possuem pelo menos um milhão de membros. Cerca de 90 mil membros das Basij são considerados confiáveis e preparados para travar combates de rua. Para ampliar a capacidade operacional das forças do governo, as milícias foram colocadas sob comando da Pasdaran, da qual Khamenei é comandante-em-chefe.

O presidente Ahmadinejad desdenha a inquietação como um "espetáculo enojante". Mas o nervosismo do regime é evidente na forma como atribui a culpa pelos protestos, apontando seu dedo para os Estados Unidos e à odiada "entidade sionista", Israel.

O ministro das Relações Exteriores, Manouchehr Mottaki, também atribuiu parte da culpa aos terroristas, aparentemente um grupo conhecido como Organização Mujahedeen Popular do Irã. De fato, a porta-voz do grupo, Maryam Rajavi, há anos pede pela derrubada do regime de seu exílio na França. Mas muitos iranianos não esqueceram que a organização islâmica de esquerda já esteve associada ao ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, que travou uma guerra de oito anos contra seu país.

'Sem moderação'
Em vez de fazer concessões, o regime se concentrou em seus esforços de contramanifestações, conseguindo mobilizar grandes grupos de pessoas em Teerã na última semana. O governo também anunciou que agirá de forma ainda mais dura contra os manifestantes. Ali Larijani, o presidente do Parlamento iraniano, pediu provocativamente que os tribunais atuem contra os manifestantes "sem moderação". Um dos representantes do líder revolucionário, o aiatolá Abbas Vaez-Tabasi, defendeu publicamente a pena de morte, invocando o sistema de "velayat-e faqih", ou tutela dos juristas islâmicos, que forma o coração da constituição iraniana.

Os islamitas sabem que a queda de Khamenei significaria o fim de um sistema corrupto de clientelismo, com o qual a elite conservadora, muitos mulás e, acima de tudo, o grande complexo militar-industrial composto pela Pasdaran e Basij tem lucrado abundantemente por mais de 30 anos.

Mousavi, o líder da oposição, anunciou sua disposição de sofrer uma morte de mártir, apresentando na sexta-feira sua lista de exigências ao regime. Seus pontos principais são o pedido para novos direitos de votação transparentes, a libertação dos presos políticos, liberdade de imprensa e a aprovação de manifestações pacíficas. Mousavi nem se dignou a mencionar seu adversário, Ahmadinejad, e o benfeitor deste, Khamenei.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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