Como os super-ricos estão enfrentando a crise

Beat Balzli

Os super-ricos decaíram muito em 2009, quando centenas de infelizes perderam o status de bilionários. Um banqueiro privado suíço fala sobre as tristes consequências da crise para sua clientela de elite e os serviços discretos que às vezes lhe solicitam, como comprar apartamento secretos para amantes.

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Quando fala, Heinrich Weber parece um psicoterapeuta. Mas sua profissão envolve tratar das preocupações de pessoas que normalmente seriam consideradas muito despreocupadas. É uma área que Weber, 46, conhece bem. Ele já ouviu muitas histórias de problemas de seus clientes super-ricos.

"Os que nasceram ricos viram o lado escuro da riqueza", diz Weber, que usa relógio de ouro e terno risca-de-giz com lenço no bolso, enquanto fala sobre sua vida cotidiana como banqueiro privado. Ele não está sendo irônico.

As pessoas que valem centenas de milhões de francos suíços, dólares ou euros, diz Weber, sofrem com as "altas expectativas que devem cumprir". Além disso, acrescenta, elas são desconfiadas, acreditam que as pessoas só estão interessadas em seu dinheiro. Isso muitas vezes causa "problemas emocionais e leva ao isolamento", diz Weber, com um olhar simpático. Alguns de seus clientes chegam a "deliberadamente usar suéteres velhos e dirigir carros antigos para não parecerem ricos".

Adaptação dolorosa
Desde o colapso do banco de investimentos americano Lehman Brothers, os clientes no mundo de Weber enfrentam outra realidade dolorosa. Eles estão perdendo dinheiro - muito dinheiro. Segundo a revista de negócios americana "Forbes", o valor líquido atual dos bilionários do mundo encolheu de US$ 4,4 trilhões para US$ 2,4 trilhões durante a crise financeira. E o número de bilionários em dólares no mundo todo diminuiu de 1.125 antes da recessão para apenas 793 em março de 2009.

Alguns desses destacados ex-membros do clube dos bilionários perderam parte de seu dinheiro na Alemanha. O investidor americano Christopher Flowers, por exemplo, teve de se despedir de sua posição de bilionário em consequência de sua participação no hoje nacionalizado fundo hipotecário Hypo Real Estate. Madeleine Schickedanz, uma importante acionista da hoje insolvente corretora Arcandor, perdeu a maior parte de sua fortuna. O empresário alemão Adolf Merckle até cometeu o suicídio quando seu império ameaçou desmoronar.

Consultores financeiros como Heinrich Weber estão muito ocupados hoje em dia, apesar de sua linha de trabalho ser tão discreta que ele não quer que seja citado o nome do exclusivo banco privado suíço para o qual trabalha.

"Se você é do tipo de pessoa que tem uma necessidade incontível de contar a sua família ou a amigos sobre essas pessoas de alto padrão, não deveria trabalhar como banqueiro privado", diz Weber, que recentemente publicou um manual para trabalhar com os super-ricos em coautoria com o colega do setor Stephan Meier. No jargão da indústria, essas pessoas são conhecidas como "ultra high net worth individuals", ou UHNWIs [indivíduos de valor líquido ultraelevado].

Necessidade de discrição
"Felizmente, minha mulher não tem problema com a necessidade de discrição", diz Weber. "Como ginecologista, ela conhece bem o conceito de confidencialidade entre médico e paciente." E seus dois filhos pequenos não são exatamente um fator de risco. Quando a família recentemente fez uma viagem no iate de luxo do melhor cliente de Weber, as crianças perguntaram "por que o homem tem um navio tão grande", mas elas ainda são jovens demais para se interessar por nomes e fatos específicos.

Weber usa uma citação de Goethe para descrever como lida com seus negócios: "Quem deseja manter um segredo deve esconder o fato que tem um".

E ainda há muitos segredos para ser revelados, com cerca de 20 mil UHNWIs vivendo no mundo hoje, mais de um quarto deles nos EUA. A Alemanha, segundo especialistas, abriga o impressionante número de 1.150 UHNWIs. O que todos têm em comum são ativos pessoais de pelo menos US$ 50 milhões. Há algum tempo, a administração discreta de crises está em demanda em seu meio. "Trabalhamos como um treinador que faz as perguntas certas", diz Weber.

Empresas familiares, particularmente, "enfrentaram dificuldades", ele diz, acrescentando que muitas têm vastas dívidas. "Por exemplo, estou procurando urgentemente um comprador para uma enorme coleção de arte", diz Weber, que demonstra uma piedade limitada por sua clientela.

Há um motivo para sua relativa falta de compaixão. Os que são afetados pela recessão financeira geralmente não precisam mudar nada em seu estilo de vida, pois vender suas mansões ou carros de luxo simplesmente não traria dinheiro suficiente, e os custos fixos representam uma parcela desprezível de sua renda total. E, claro, eles ainda podem pagar os serviços de alguém como Weber, apesar de a cultura tradicional do sigilo bancário em sua Suíça natal estar gradualmente desmoronando.

Obcecados pelo sigilo
Weber tem uma abordagem descontraída dos problemas de seus clientes. A maioria deles é do Oriente Médio, e embora o sigilo bancário seja para eles uma grande preocupação não é por causa do impacto sobre os impostos, mas do que Weber chama de "proteção da esfera privada". No entanto, a proibição dos minaretes recém-aprovada pelos suíços em um referendo não levou a uma retirada significativa de ativos dos bancos do país, ele diz.

Weber é muito mais preocupado com a revelação ilegal de dados bancários, como foi evidenciado recentemente em casos envolvendo a filial suíça do HSBC britânico e do LGT Bank de Liechtenstein. Em meados de 2007, um ex-funcionário do LGT vendeu informação sobre contas para a agência de inteligência estrangeira da Alemanha, a Bundesnachrichtendienst (BND), por cerca de 5 milhões de euros. Um ex-empregado do HSBC forneceu informação sobre contas ao governo francês. Autoridades fiscais dos dois países usaram essa informação para processar essas pessoas por evasão fiscal.

O conselho de Weber aos bancos é que se defendam dessas atividades. "A informação sobre contas deve estar ligada a um código, e não ao nome real do cliente", ele diz. Para evitar revelações ilegais de informação, ele recomenda que os computadores dos bancos não sejam equipados com gravadores de CD nem portas para drives USB, e que os documentos só sejam retirados das instalações dos bancos em situações excepcionais.

Mas apesar de todas as precauções Weber também já foi alvo de "paparazzi" em um incidente que envolveu uma importante família real. Como sempre, seu encontro com os clientes reais não ocorreu no banco, mas em um local secreto. Depois de um jantar de gala que durou várias horas, a equipe de Weber e seus clientes deixaram o local pouco depois da meia-noite - e se defrontaram com os paparazzi.

"Alguns dias depois uma foto minha com meus clientes apareceu em uma revista", diz o banqueiro, lembrando desse deslize. A partir daí, todos os envolvidos na indústria souberam a identidade das cabeças coroadas cujos ativos Weber administrava.

Definição de rico
Mas o que pode ser tão fascinante em lidar diariamente com a imensa riqueza de outras pessoas? "Você muitas vezes lida com pessoas muito inconvencionais, que sabem muito", diz Weber, que não é estranho a uma vida de luxo. Enquanto estudava engenharia no Instituto Federal de Tecnologia em Lausanne, ele e um grupo de colegas fundaram uma empresa para negociar contratos futuros. Aos 28 anos ele vendeu suas ações da empresa para uma operação financeira britânica - e ganhou uma fortuna.

Weber considera-se no máximo afluente, dado o diferente conjunto de padrões que aplica a sua linha de trabalho. Ele considera alguém rico "quando ele pode ter uma das mais famosas orquestras sinfônicas do mundo se apresentando em seu jardim, e o número de músicos supera o de convidados".

Segundo Weber, cobiça ou glamour não são mais os fatores relevantes entre os alguns milhares de membros no topo da aristocracia endinheirada do mundo. "É realmente uma questão de ambição, de necessidade de mostrar a todo mundo que você estava certo sobre a execução de uma ideia inconvencional", diz Weber, embora ele mesmo saiba muito bem que essa é apenas uma meia verdade.

Muitas vezes há pouca diferença entre multimilionários e pequenos investidores em termos de seu desejo de ganhar dinheiro. Por exemplo, muitas pessoas se dispuseram a colocar seu dinheiro nas mãos de Bernard Madoff, o golpista do século americano, que foi condenado no ano passado à pena recorde de 150 anos de prisão.

Quase ninguém desconfiava da incrível regularidade dos retornos anuais de Madoff. Até o banco privado baseado em Genebra UBP deu seu selo de aprovação à suposta máquina de fazer dinheiro de Madoff.

Weber acha tudo isso inexplicável. Ou talvez ele simplesmente se recuse a acreditar que os mais primitivos dos instintos também sejam sentidos por sua clientela de elite.

Projetos-troféus
Nesse clube exclusivo, Lamborghinis e Learjets são considerados vícios dos pesos-leves. Os clientes de Weber estão mais interessados na imortalidade, que é uma proposta mais cara. Por exemplo, eles formam coleções de carros antigos extremamente caros, pagam a reforma completa da aldeia natal de sua família ou compram os edifícios mais proeminentes da cidade.

"Projetos-troféus" são o que os banqueiros dos UHNWIs chamam os negócios que não são submetidos a critérios econômicos rígidos. "Não é raro ver alguém pagar a mais pelo melhor hotel de uma cidade", diz Weber, dando seu melhor sorriso de terapeuta. Por exemplo, a dinastia do fermento em pó Oetker da Alemanha adquiriu o exclusivo Brenner's Park-Hotel, no balneário alemão de Baden-Baden. O Schlosshotel Bühlerhöhe, um hotel-castelo na Floresta Negra que o legendário empresário alemão Max Grundig transformou em um paraíso de luxo, hoje pertence a Dietmar Hopp, o cofundador da gigante do software alemã SAP. E Jürgen Grossmann, presidente da empresa energética alemã RWE e um bilionário graças à propriedade do grupo de empresas Georgsmarienhütte, recentemente comprou o exclusivo Kulm Hotel na estação de esqui Arosa, na Suíça.

Para a maioria dos multimilionários, diz Weber, a emoção não influi nos investimentos. No entanto, algumas dessas pessoas eminentemente razoáveis são suscetíveis ao tipo de pequenos gestos que os banqueiros privados usam para promover boas relações de negócios, como convites para velejar com a equipe da America's Cup ou ser conduzido à corrida de Fórmula 1 em Mônaco em um Rolls-Royce - mesmo sob o risco de "ficar preso no tráfego durante horas e perder a corrida", diz Weber.

Mas ele não gosta de falar sobre esses serviços, ou alguns favores mais discretos. Sabe-se que clientes embriagados lhe telefonam no meio da noite ou o convidam para festas para que depois ele possa lhes dar sua opinião sobre o novo namorado de sua filha.

Um dos serviços mais delicados que às vezes solicitam a Weber é adquirir um apartamento em Paris, Londres ou Roma para a amante de um de seus clientes super-ricos. Isto muitas vezes leva a "discussões muito tensas" anos mais tarde, ele diz, depois que o cliente morre e seu testamento é aberto.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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