Um choque de civilizações na Nigéria

Tanto muçulmanos quanto cristãos estão se radicalizando na Nigéria, lar do nigeriano da "cueca explosiva". Em quase nenhuma outra parte do mundo a rivalidade entre as religiões leva a conflitos sangrentos com tanta frequência.

Em Bauchi, há rumores de que muçulmanos militantes estão preparando um ataque aos cristãos em Jos, a 100 quilômetros de distância. Será verdade? Ou apenas uma tentativa de provocar medo?

Nada é certo em Jos, uma cidade de perto de um milhão de habitantes no chamado "Cinturão do Meio" no centro da Nigéria, uma região ampla entre os paralelos 8º e 12º norte. Em alguma parte dessa região, uma linha móvel separa o norte predominantemente islâmico da Nigéria de seu sul cristão. Muitos cristãos temem que os seguidores de Alá estão tentando se expandir para o sul e Jos fica no meio do conflito.

Umar Farouk Abdulmutallab

  • AFP PHOTO / HO / MIKE RIMMER
A violência estourou novamente na semana passada, logo depois de Umar Farouk Abdulmutallab, o homem que tentou explodir um avião em Detroit, ter sido identificado como sendo um muçulmano nigeriano. "Os hausa-fulani não fazem parte de nós", escreveram cristãos em fóruns na internet, se referindo ao maior grupo étnico muçulmano ao qual Abdulmutallab traça sua origem. "Eles são bastardos, misturados com sangue árabe para aterrorizar o mundo. Eles não gostam de educação. Eles odeiam a civilização e eu me pergunto por que eles ainda existem como parte da raça humana."

O ex-James Wuye
O pastor James foi a Jos para passar algumas poucos horas. Isso não é um bom sinal, porque sempre que o pastor James aparece, o terror não está distante. Ele acabou de vir de Bauchi, onde ouviu conversas sobre os muçulmanos estarem se armando.

O pastor de 50 anos é um dos ativistas da paz mais proeminentes na Nigéria. Um motivo para ser tão famoso é que ele aparece com frequência com o imã Muhammad Ashafa, de Kaduna, no centro-norte da Nigéria. Os homens pregam a mesma mensagem: "Não importa se você seja cristão ou muçulmano, viva sua religião mas não mate ninguém". Outro motivo para o pastor ser tão proeminente é que, há 20 anos, atendendo pelo nome de James Wuye, ele era conhecido como um temido líder de milícia cristã em Kaduna, a cerca de 200 quilômetros a oeste de Jos. Ele perdeu um braço lutando contra as pessoas que seu atual parceiro de púlpito representa. "Eu odiava os muçulmanos", ele diz. Ele recobrou a razão em meados dos anos 90 e, desde então, chama a si mesmo de "gestor de conflito". O pastor James é um homem ocupado hoje, pregando a paz por toda a Nigéria.

O país tem uma população de cerca de 150 milhões; seus aproximadamente 400 grupos étnicos falam mais de 400 línguas. Metade da nação reza para "Alá" e a outra metade reza para "Deus". Dificilmente em qualquer outro lugar no mundo a rivalidade em andamento entre cristãos e muçulmanos custou tantas vítimas, com pelo menos 10 mil mortos.

Há morte por toda a parte. Os muçulmanos foram caçados na cidade portuária de Lagos, no sul, enquanto cristãos foram mortos em Kano, no norte muçulmano. Mas a maioria das mortes ocorre no Cinturão do Meio, em locais como Kaduna e Bauchi, e particularmente em Jos, onde os seguidores das duas religiões vivem relativamente próximos uns dos outros.

Em quase nenhuma outra cidade no mundo o choque de civilizações é mais evidente. Sem um muro, Jos é uma cidade dividida. Bairros inteiros foram incendiados, repetidas vezes, mais recentemente em novembro de 2008. Cada nova conflagração custa centenas de vidas. Em 2001, os muçulmanos incendiaram os enormes prédios do mercado no centro de Jos, que abrigavam mais de 10 mil bancas. A maioria das vítimas era de membros da tribo Ibo cristã. Após cada novo conflito, a divisão entre as religiões se agrava.

Uma divisão colonial
Mercadores árabes trouxeram o Islã para a zona do Sahel há cerca de 1.000 anos, mas por muito tempo ele tinha apenas um papel secundário como religião. O comércio, incluindo o comércio de escravos, era mais importante para os califas e emires do que a fé. Missionários cristãos penetraram pelo sul há pouco mais de 100 anos, seguindo os mestres coloniais britânicos do país. Mas os britânicos permitiram que os emires prevalecessem e impedissem um maior avanço dos missionários. Uma consequência da decisão dos mestres coloniais é que as escolas e universidades no sul são atualmente muito melhores do que as do norte.

Barack Obama admite falhas "desastrosas" da inteligência dos Estados Unidos

Os governos militares que governaram a Nigéria até 1999 usaram meios autoritários para manter unida a nação multiétnica. Então veio a democracia. Uma nova Constituição e acordos informais trouxeram certa estabilidade - por exemplo, sob as novas leis, a presidência troca de mãos entre os cristãos do sul e os muçulmanos do norte pelo menos uma vez a cada dois mandatos, enquanto presidente e vice-presidente não são do mesmo grupo religioso.

Mas esses acordos não garantiram a paz.

O governo encobriu os números reais
Olusegun Obasanjo, um cristão, mal tinha sido eleito em 1999 quando 12 Estados no norte da Nigéria introduziram a lei Sharia, provocando protestos por todo o mundo cristão.

As causas do estouro periódico de conflitos religiosos às vezes são banais e frequentemente absurdas. Quando um concurso de Miss Mundo foi marcado para ser realizado na Nigéria, em 2002, os muçulmanos ficaram enfurecidos com um comentário insensível de jornal. A violência resultante custou 215 vidas apenas em Kaduna.

Uche Uruakpa, 38 anos, pode descrever o conflito religioso por um ponto de vista singular. Ele é um médico cristão e em 2001 começou a trabalhar no maior hospital muçulmano em Kano, uma cidade de 1 milhão de habitantes - 90% deles muçulmanos. "Em certas manhãs, havia 2.000 pacientes aguardando diante da minha sala no hospital", diz Uruakpa.

O derramamento de sangue começou quando um muçulmano fundamentalista viu uma criança cristã na rua, segurando uma página do Alcorão - e prontamente matou a criança. Centenas morreram no frenesi que se seguiu. "O governo encobriu os números reais", diz Uruakpa, que se escondeu por duas semanas no bairro cristão em Kano e deixou a cidade um ano depois. "Eles teriam que me oferecer muito para trabalhar de novo lá", ele diz.

Uruakpa viveu em uma cultura que considerou estrangeira e impenetrável. "Eu vi eles todos", ele diz, incluindo homens com quatro esposas, o número máximo que é permitido ao homem no Islã. Algumas garotas casadas, ele diz, não tinham nem mesmo 12 anos. "Os homens vinham até mim com suas grandes famílias e eu tinha que perguntar quais eram suas esposas e quais eram suas filhas."

Êxodo do norte
A ironia na Nigéria é que o norte tem uma maior necessidade de especialistas bem treinados, médicos e cientistas do sul, mas a falta de cultura e os atos de extrema violência persistentes levaram a um êxodo de empresários, professores, médicos e cientistas.

No início dos anos 90, havia cerca de 500 empresas industriais em Kano. Dez anos depois, o número caiu para cerca de 200. Este é um motivo para muitos muçulmanos hausa-fulani terem se deslocado mais ao sul, para cidades como Kaduna, Jos e Bauchi, onde agora formam os novos pobres proletários.

O xeque Khalid Aliyu está familiarizado com os garotos que vendem gasolina adulterada em garrafas, ao longo das principais avenidas de Jos, periodicamente cheirando gasolina ou cola para se drogar. "Pobreza, políticas ruins e tribalismo são os combustíveis do descontentamento", diz Aliyu, cuja organização promove a conciliação e o entendimento entre a população muçulmana.

Aliyu sabe muito bem que os sucessos são modestos. "Os políticos não estão solucionando os problemas", ele diz. "Sem empregos, sem educação, sem eletricidade, sem nada para fazer. Um homem faminto não produzirá a paz", ele diz.

Os cristãos agora se sentem ameaçados, enquanto os muçulmanos se sentem marginalizados. Os hausa-fulani tiveram problemas quando chegaram a Jos. Como a lei nigeriana distingue entre os recém-chegados e os moradores locais, eles não conseguem se livrar do rótulo de "recém-chegados" na cidade, que possui um governo dominado pelos cristãos. Isso os impede de obterem empregos no setor público e a ter acesso às universidades. O mesmo acontece por toda a Nigéria, mas nos lugares de grande pobreza, a revolta cresce desenfreada - e com ela o impulso de buscar refúgio na religião.

Ambos os lados estão se preparando para a batalha
Maiduguri, no extremo nordeste da Nigéria, com uma população estimada de mais de 1 milhão, é um desses lugares - com ruas de terra, isolada e empobrecida. Há dezenas de escolas corânicas em Maiduguri, algumas fundadas com dinheiro saudita. Caminhões cheios de crianças de Níger e do Chade ocasionalmente chegam à cidade, e as crianças são recebidas nas madrassas para aprender o Alcorão, mas não a ler e escrever. Quando elas não estão na escola, as crianças devem trabalhar.

"É escravidão moderna", diz Bolaji Aina, da organização alemã de ajuda humanitária GTZ, que apoiou projetos para mulheres em Maiduguri por muitos anos. A Boko Haram, uma seita islâmica, se mostra bastante disposta a receber esses escravos modernos. Mais de 700 pessoas morreram em julho passado durante choques entre a seita e a polícia em Maiduguri.

O país entrou em 2010 dividido, sem qualquer perspectiva real e sem liderança. O presidente Umaru Yar'Adua está em um hospital na Arábia Saudita há semanas, incapaz de governar seu país em meio às crescentes exigências para a nomeação de um sucessor. Mas quem seria? Outro muçulmano como Yar'Adua? Ou é a vez dos cristãos?

"Ambos os lados estão se preparando para a batalha", diz o pastor James, o missionário da paz, em Jos. "É um jogo de gato e rato. Os eventos no norte também estão radicalizando o sul."

O Natal foi tranquilo em Jos. Mas os rumores que vinham de Bauchi não eram apenas rumores. Os confrontos na cidade, na última segunda-feira, instigados por uma seita islâmica, deixaram 38 mortos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos