"A luta contra o terrorismo definirá a presidência de Obama", afirma especialista

Gregor Peter Schmitz

Terrorismo

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assumiu nesta quinta-feira (7) a responsabilidade pelas falhas na segurança, que permitiram que um nigeriano tentasse explodir um avião com destino a Detroit, e ordenou medidas para melhorar os procedimentos

Com a quase derrubada de um voo para Detroit e um ataque suicida contra agentes da CIA no Afeganistão, o terrorismo se tornou o novo foco da presidência de Barack Obama. O especialista no tema Bruce Hoffman diz ao "Spiegel Online" que a ameaça terrorista vai dominar o primeiro mandato de Obama.

Spiegel Online: O atentado fracassado no voo para Detroit arruinou todo o progresso feito na "guerra ao terrorismo"?
Hoffman:
Acho que ultrapassamos um marco. No último ano, vimos uma dúzia de atentados ou ataques nos EUA - pelo menos um por mês, algo completamente sem precedentes. Uns foram organizados diretamente pela Al Qaeda ou por algum de seus franqueados, como a conspiração contra a Northwest Airlines no dia de Natal. Outros foram executados por indivíduos inspirados pela Al Qaeda, como o franco atirador na base militar de Fort Hood.

Spiegel Online: Parece que também estamos vendo uma nova dimensão do terrorismo feito em casa.
Hoffman:
Há terroristas latentes nos EUA, cidadãos legais plantados no país pelo inimigo - como ilustrado pela prisão de um afegão residente dos EUA, que foi treinado pela Al Qaeda no Paquistão e planejou ataques suicidas coordenados em Manhattan. Também há indivíduos agindo completamente sozinhos, que não são radicais da Al Qaeda ou seus simpatizantes. Por exemplo, as autoridades norte-americanas frustraram uma conspiração em maio para explodir duas sinagogas no Bronx e derrubar aviões militares partindo da base aérea da Guarda Nacional próxima a Nova York.

Spiegel Online: A ameaça terrorista tornou-se mais diversa.
Hoffman:
Exatamente. Agora temos que enfrentar recrutas motivados, terroristas treinados pela Al Qaeda e indivíduos solitários que atacam subitamente, como o atirador Nidal Malik Hasan em Fort Hood. Estou preocupado porque temos um número maior de tentativas e dimensões mais diversas. Isso tem grande impacto em nossos serviços de inteligência, que já estão super-utilizados.

Spiegel Online: Isso não pode ser indicação que a rede da Al Qaeda foi enfraquecida e agora está sendo forçada a recorrer a ataques menos elaborados?
Hoffman:
Pelo contrário. Se o movimento estivesse enfraquecido, você não veria tantas estratégias diferentes. Acho que é uma nova tática da Al Qaeda ter esse grande número de adversários individuais. Eles criam uma distração para que os planos de maior escala possam ser organizados discretamente. O caso do voo para Detroit demonstra que esses ataques grandes ainda estão sendo planejados.

Spiegel Online: Comparado aos ataques de 2001, porém, a escala era pequena.
Hoffman:
O dia 11 de Setembro foi único na história. Mas se o suicida do voo para Detroit tivesse sucesso, teria matado 300 pessoas. Pense na revolta e no pânico gerado com menos mortes em Madri em 2004 e em Londres em 2005.

Spiegel Online: O que tem que ser feito agora?
Hoffman:
Finalmente temos que levar a ameaça terrorista a sério. Precisamos de uma resposta flexível, que identifique indivíduos solitários mas também organizações maiores - e um sistema que fiscalize certos riscos mais específicos.

Spiegel Online: Isso incluiria fazer o perfil dos passageiros e instalar controles mais estritos para cidadãos de certos países? Até agora, as autoridades americanas evitaram isso.
Hoffman:
Precisamos de um sistema que identifique pessoas que possam impor uma ameaça real, em vez de tratar todo mundo igualmente. Não seria um esforço para tratar as pessoas de forma diferente. Simplesmente temos que observar todos os detalhes e características que possam ajudar. Também precisamos finalmente tirar vantagem das tecnologias existentes, como scanners de corpo inteiro, etc. Muitos políticos e cidadãos parecem querer uma coisa ou outra - seja mais tecnologia ou mais inteligência. Precisamos de uma combinação dos dois. O sistema que foi instalado há oito anos não evoluiu, e estamos enfrentando uma ameaça muito nova e em constante evolução.

  • Cynthia Boll/AP - 28.dez.2009

    Passageiro é submetido a detector de metais no aeroporto de Amsterdã (Holanda), origem de voo alvo de tentativa de ataque Umar Farouk Abdulmutallab, no dia 25 de dezembro de 2009, que ocasionou no reforço das medidas de segurança em aeorportos em todo o mundo. A Al Qaeda assumiu a responsabilidade pela atentado frustrado, que seria em retaliação a ataques no Iêmen



Spiegel Online: Obama disse que não ia tolerar erros de inteligência. Veremos cabeças rolando em sua equipe?
Hoffman:
Cabeças não rolaram após 11 de Setembro. Muito mais importante do que apontar um culpado é desenvolver um esforço para descobrir onde o sistema falhou. Por exemplo, o recém projetado centro de combate ao terrorismo parecia estar funcionando bem, mas agora descobrimos que os analistas ali não conseguiram unir os pontos após a advertência sobre o terrorista nigeriano no avião. Essas são questões que precisamos examinar.

Spiegel Online: O presidente vai mudar de tom? Barack Obama prometeu um fim à "guerra ao terror" de George W. Bush. Contudo, em seu discurso na quinta-feira, ele parecia mais sério e determinado do que nunca a combater o terrorismo.
Hoffman:
Sim, vamos ver isso acontecer. Tanto o ataque de Detroit quanto o que matou sete agentes da CIA no Afeganistão terão um enorme impacto. A luta contra o terrorismo também vai definir a presidência de Obama.

Bruce Hoffman é professor da Universidade de Georgetown em Washington, D.C. e é um dos principais especialistas de terrorismo nos EUA. Ele trabalhou durante anos em questões de combate ao terrorismo na Corporação Rand e foi acadêmico da CIA. Uma versão atualizada de seu livro "Inside Terrorism" (dentro do terrorismo) foi publicada pela Columbia University Press em 2006 e pela S. Fischer Verlag, na Alemanha.

Tradução: Deborah Weinberg

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