"O futebol é a razão pela qual temos pés"

Thilo Thielke

O ano de 2010 marca a primeira vez em que um país africano irá sediar uma Copa do Mundo. Apesar disso, o jogo não é estranho ao continente. Na verdade, em nenhum lugar do mundo o futebol é tão importante para o dia-a-dia - desde os campos de refugiados do Sudão até a zona de guerra em Mogadishu.
  • Kim Ludbrook/EFE

    Torcedor sul-africano antes da partida de abertura da Copa das Confederações entre a seleção da África do Sul e o Iraque, em Johannesburgo



Não faz muito tempo que Csaba László aprendeu uma das verdades fundamentais sobre a África. Certa noite, László, que morou um tempo no Sheraton de Kampala após ser contratado para treinar a seleção nacional de Uganda, pensou estar ouvindo coisas enquanto relaxava no terraço do hotel. Era uma noite de quarta-feira quando ele ouviu de repente "Goooooooooool!" Os gritos eram tão altos que László pensou que deveria estar acontecendo algum jogo na região. Mas então ele ouviu o mesmo grito vindo de outra direção. Um grito de "Gooooooooool!" vindo do norte e outro do sul.

O treinador húngaro ficou perplexo. "Deve haver muitos estádios por aqui, com vários jogos e muitos torcedores", pensou consigo mesmo.

Mas ele estava errado. Na África, ninguém fica longe do futebol. Aquela era uma quarta-feira comum - a primeira divisão da distante Inglaterra estava jogando. E quando os times entram em campo no Anfield Road ou no Stamford Bridge, metade de Kempala se reúne na frente das televisões por toda a cidade com uma cerveja Bell na mão e vestindo a camisa dos seus times preferidos. Na verdade, mais de quatro décadas após o fim do domínio colonial britânico em Uganda, seus times de futebol mostram que eles estão mais presentes do que nunca na incontrolável paixão do país pelo futebol.

Onipresente
O contraste com a Europa não podia ser maior. Aqueles que chegam à Alemanha pela primeira vez percebem de cara os jardins bem cuidados, os prédios cobertos com grafites e as vitrines lotadas e iluminadas com neon. Pode-se ver pedestres encasacados esperando pacientemente pelo sinal vermelho, carros que passam sem buzinar e muralhas de lixeiras amarelas, verdes e pretas.
  • Reuters - 04.dez.2009

    Torcedores sul-africanos fazem festa diante do Centro de Convenções da Cidade do Cabo, que abrigou o sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul

Mas o futebol na Alemanha - que ganhou três vezes tanto a Copa do Mundo quanto o Campeonato Europeu - não aparece. A tendência é assistir aos jogos apenas nos estádios, nos campos municipais cercados ou em clubes particulares - e, claro, nos bares esportivos.

Na África, é diferente. Muito diferente. Na África, o futebol é onipresente.

Nos últimos anos, não foram raras as vezes em que o futebol foi meu único consolo enquanto eu viajava pelos muitos epicentros de sofrimento do continente. Nos campos de refugiados do Sudão e do Chade, por exemplo, encontrei conforto nos rostos sorridentes das crianças de Darfur que corriam atrás da bola em meio à poeira ou das crianças do Chade que jogavam com uma esfera não muito maior do que uma bola de tênis. Quando voltamos do Congo, meu motorista Callixte e eu gostamos de parar em um daqueles pequenos povoados entre Kigali, em Ruanda, e a cidade de Bukavo, destruída pela guerra, para bater uma bola com metade da vila. Muitas vezes a bola é apenas um amontoado de sacolas plásticas amarradas umas às outras.

Em Mogadishu, Somália, eu fiquei surpreso ao ver jovens salvando suas bolas de plástico das ruínas perfuradas de balas assim que os conflitos cessavam. Parecia que cada pausa no tiroteio era usada para uma partida rápida - às vezes até entre clãs rivais. Na cidade congolesa de Goma, que muitas vezes se tornou o símbolo da decadência africana, assisti a um jogo nos campos de lava negra do Nyiragongo, que havia entrado em erupção há apenas algumas semanas. Na capital do Quênia, Nairobi, acompanhei jovens times enquanto eles chutavam uma bola de couro pelas favelas que estiveram em chamas apenas algumas horas antes.

"Por isso temos pés"

"Nós acordamos de manhã e respiramos futebol", disse o ex-atacante congolês Pierra Kalala ao cineasta Hereward Pelling. "O futebol é a razão pela qual temos pés."

"Faz parte de nós. Nós jogamos nos fundos das casas, na rua, em qualquer cantinho que possamos achar", afirma o ex-jogador da seleção de Gana, Abidé Pelé. Nada mais verdadeiro.

Quando a força aérea da ONU sobrevoou Abijan, a capital econômica da Costa do Marfim destruída pela guerra, "eles passaram por cima de dois ou três mil jogos de futebol", escreveu o repórter da "Spiegel" Ullrich Fichtner em sua matéria de 2006 sobre a iminente participação do país na Copa do Mundo daquele ano.

Todos nós temos imagens do continente perdido em nossas mentes: muitas etnias, fome, violência, doenças. Parece ser um paciente desenganado. A história mais comum sobre a África é aquela sobre outro grupo de refugiados escapando de novo de outro tirano megalomaníaco. Joseph Conrad a chamou de "Coração das Trevas" e Henry Morton Stanley de "Continente Escuro". E é difícil para nós olhar além desses clichês.

Mas aqueles que estão familiarizados apenas com essa realidade africana não podem compreender o continente de verdade.

Maravilha na simplicidade
Em nenhum outro lugar vi tanta alegria quanto nessa região supostamente miserável: mais pessoas sorrindo, jogando e dançando. Quando a revista sul-africana SoccerLife2 lhe perguntou o que o tornava africano, ele respondeu "Minha satisfação. Minhão paixão por jogar futebol. Mas eu tive de mudar. Na África eu jogava para me divertir; na Europa, eu jogo para me vencer." A vida na África não acontece entre muros de concreto, portões acorrentados e carros com calotas cromadas - principalmente, e essa é parte triste, porque eles não têm dinheiro para essas coisas.
  • Reuters - 04.dez.2009

    Jogadores da seleção sul-africana posam para foto oficial antes da partida, em Daegu (Coreia do Sul)



O futebol também é um esporte africano porque é maravilhoso em sua simplicidade. Ele não exige dinheiro nem roupas caras - apenas alguns jovens com tempo livre. Na África, as pessoas aprendem rápido que você nem precisa de uma bola de verdade para jogar. Retalhos de roupas, sacos plásticos, jornais velhos e barbante ou fita adesiva são suficientes. Você pode até driblar ou fazer um passe estando descalço e um par de sandálias feitas de pneu é tudo o que você precisa para chutar para o gol. E um goleiro precisa mesmo de luvas? Uma trave pode ser montada rapidamente usando dois troncos e uma pilha caixas de papelão, mesmo que ela não atinja os 2,44 metros de altura e os 7,33 metros de largura exigidos pela FIFA.

Isso não passou despercebido para a lenda do futebol Franz Beckenbauer, que viajou muito pelo continente. "Na África, pode ser que o futebol profissional ainda esteja um pouco subdesenvolvido", diz. "Muitos talentos vão para a Europa para fazer dinheiro. E todos percebem uma coisa: o futebol profissional assim como o conhecemos hoje perdeu sua originalidade, sua consciência de si mesmo e sua simplicidade como jogo. Para dizer a verdade, isso é triste."
  • EFE - 02.dez.2009

    Futebol Feminino: mulheres jogam futebol em campo de terra na periferia da Cidade do Cabo, na África do Sul, país onde ocorre a Copa do Mundo de 2010. O futebol está na alma de todos os africanos e é instrumento de inclusão


Raramente um sucesso verdadeiro

Há diferentes opiniões sobre se essas condições adversas de jogo ajudam a desenvolver o talento ou não. O treinador francês Claude Le Roy acredita que as condições catastróficas aumentam as habilidades técnicas dos jogadores africanos. Mas o ex-jogador da seleção alemã Jens Todt, que teve a oportunidade de criar uma escola de futebol na África ocidental junto com o Hamburgo SV, observa: "O fato de muitos africanos não conseguirem chutar corretamente se deve ao fato de eles não terem redes. Se alguém chutar com muita força, terá que correr atrás da bola para continuar jogando. É por isso que os jogadores de futebol africanos preferem fazer o drible para o gol." Não é uma surpresa.

Mas a questão é que os africanos raramente fazem sucesso de verdade. Eles ganham campeonatos juvenis em todos os níveis com certa frequência e até ganharam o ouro nos Jogos Olímpicos. A Nigéria se tornou campeã olímpica nos Jogos de Atlanta em 1996 e Camarões ganhou em Sidney quatro anos mais tarde. Mas o que isso quer dizer? As seleções da Alemanha Oriental, Bélgica e Canadá também ganharam as Olimpíadas. Em 1962, Walter Winterbottom, que na época era o treinador da seleção inglesa, foi o primeiro a prever que um país africano ganharia durante o século 20. Mas o mundo está à espera desde então.

A essa altura, toda criança na Europa conhece as lamentações de François Oman-Biyik, descrito pelo jornalista esportivo Harry Valérien em 1990 como "um atacante alto e gracioso". "Está na hora de as pessoas entenderem que nós não somos gorilas e que não nos penduramos em árvores comendo bananas", disse. Naquela época, os Leões Indomáveis de Camarões foram bem sucedidos, ano após ano, em vencer o argentino Diego Maradona, o romeno Gheorghe Hagis e o colombiano Carlos Valderrama. Mas o time perdeu durante o tempo complementar na semifinal contra o mediano time inglês (Peter Shilton, Paul Gascoine, Gary Lineker).

Uma bobagem

Desde então, os times africanos têm sido apontados como favoritos pelos participantes dos torneios internacionais. Jay-Jay Okocha e Anthony Yeboah encantaram a Bundesliga alemã, George Weah foi coroado o jogador europeu do ano e os jogadores africanos na Europa têm ajudado a fazer de seus times os melhores do mundo, como Samuel Eto'o no Barcelona, Didier Drogba no Chelsea e Nwankwo Kanu no Ajax de Amsterdam.

Mas nunca nenhum time africano jamais passou das semifinais da Copa do Mundo -- e apesar de toda a magia do futebol africano, os mal-entendidos ainda estão na ordem do dia quando a Europa encontra o fenômeno do futebol do continente.

Pelo menos em campo. Veja por exemplo Gerald Asamoah, atacante do time alemão Schalke. Certa vez um árbitro lhe disse num alemão telegráfico, imaginando que só assim Asamoah, fluente em alemão, entenderia: "Você, número 13, não cavar falta. Senão fora campo." Às vezes a Alemanha pode ser boba.

Tradução: Eloise De Vylder

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