General representante dos EUA e da Otan no Afeganistão diz que matança não é a saída para a crise militar do país

Susanne Koelbl
Em Cabul (Afeganistão)

O general Stanley McChrystal, o mais alto comandante dos Estados Unidos e da Otan no Afeganistão, fala à "Spiegel" sobre sua nova abordagem à guerra, as negociações com o Taleban e sobre a caçada a Osama Bin Laden.

Spiegel: General McChrystal, a dois meses atrás o senhor disse: "Desde o 11 de Setembro, eu tenho assistido a América tentar apagar este incêndio primeiro com um martelo, sem sucesso". O que os americanos fizeram de errado no Afeganistão?

Stanley McChrystal: No final do dia, uma contrainsurreição é decidida pela percepção das pessoas e por como as pessoas se sentem. Eu acho que qualquer guerra como essa não é uma batalha material. Não se trata de destruir as cidades do inimigo. Não se trata nem mesmo de destruir o exército deles, os combatentes deles. É preciso enfraquecer a insurreição. Mas realmente se trata de convencer as pessoas de que elas querem que isso pare e que conseguirão. A forma mais eficaz de agirmos é sermos parceiros realmente bons e eficazes de nossos pares afegãos, porque não se trata de um problema técnico, mas de um problema humano.

Spiegel: Sua avaliação de 66 páginas da situação no Afeganistão serviu como base para a decisão do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de envio de 30 mil soldados americanos adicionais ao país no próximo ano, para se somarem aos 68 mil já presentes lá. Em seu relatório, o senhor escreveu que a situação é séria, mas que é solucionável. Realmente é?

McChrystal:
Eu acho que é solucionável. Mas exigirá um esforço significativo por parte de todos e será bastante complexo. Aqui há uma insurreição resistente com elementos do Taleban, da rede Haqqani e da rede Hekmatyar, que ameaça a existência do Estado. Mas também há uma crise de confiança nas pessoas, devido às expectativas que não foram atendidas após 2001, em relação à governança, desenvolvimento e coisas positivas. Além disso, há uma decepção em relação ao que viram da governança local e nacional e um senso de que não é um sistema justo, que não estão recebendo justiça básica. Essas duas coisas alimentam uma à outra.

Spiegel: Em sua avaliação, o senhor escreveu que a fraqueza-chave da ISAF (sigla em inglês para Força de Segurança e Assistência Internacional) é que ela não defende agressivamente a população afegã. Isso soa como um grande entendimento equivocado, porque em nossos países todo mundo acredita que as tropas estão no Afeganistão para proteger os afegãos.

McChrystal:
A proteção à população é crucial. Se a coalizão chega e protege o povo afegão da ameaça convencional maior com força convencional, então podemos sentir nosso sucesso. Mas essa realmente não é a ameaça ao povo afegão. Ela vem da governança paralela, das cartas noturnas (nota do editor: avisos anônimos postados pelo Taleban), coerção, artefatos explosivos improvisados (IEDs, na sigla em inglês). Logo, a proteção que eles realmente necessitam nós não podemos fornecer de uma forma rigidamente convencional. Nós não podemos dá-la permanecendo em instalações e nos protegendo de todo mal. Nós temos que estar mais próximos e interagir com as pessoas para fazer isso.

Spiegel: O senhor quer dizer que os soldados da coalizão precisam correr maior risco?

McChrystal:
Em uma contrainsurreição, sua segurança no final vem das pessoas, porque elas ajudam a negar apoio aos insurgentes e então lhe fornecem inteligência. Aqui está o conflito. Para se proteger perfeitamente, você se esconde atrás de grandes fortes, usa armadura e viaja em veículos blindados. Mas então você não interage com as pessoas. E se você não interagir com as pessoas, as pessoas no final não protegerão você. Se você quer nadar, é preciso entrar na piscina. É preciso entrar, ficar entre as pessoas e desenvolver um relacionamento. A longo prazo você sofrerá menos baixas e será mais bem-sucedido.

Spiegel: Seu chefe de inteligência, Michael Flynn, acabou de apresentar um documento provocador alegando que os espiões americanos no Afeganistão não têm nenhuma noção. Eles apenas se concentram na insurreição, ele diz, sem entender as questões mais fundamentais das vidas das pessoas e de seu ambiente. Ele está certo?

McChrystal:
O entendimento de uma guerra não convencional é geralmente o entendimento do terreno, do terreno físico, e o entendimento do inimigo. Em contrainsurreição, o terreno é o povo, em vez das pontes, montanhas e florestas. É preciso entender as tribos, os líderes e as forças econômicas em ação. Caso contrário, não há como enfrentar a insurreição. O que o general Flynn apontou corretamente é o fato de precisarmos ampliar nosso entendimento. Nós precisamos entender como o inimigo interage com a população.

'Não dá para trazer um civil morto de volta à vida'

Spiegel: Dada seu retrospecto nas forças especiais, onde visar e matar pessoas faz parte da natureza do negócio, sua diretriz tática de evitar baixas, que foi apresentada em julho, foi uma surpresa. Ela diz que matar o inimigo não é eficaz, logo é algo que precisa ser evitado.

McChrystal:
Bem, a diretriz tática visa não apenar dar orientações específicas às pessoas, mas dar-lhes uma intenção. Isso significava explicar que matar o inimigo não é a melhor rota para o sucesso. Se você mata dois combatentes inimigos que estão na casa de alguém, ao fazê-lo você destrói a casa deles, então os indivíduos que são donos da casa provavelmente terão sentimentos conflituosos sobre se você fez a coisa certa. Se você pretende realizar uma ação com risco de ferir civis, é preciso considerar com muito cuidado essa decisão, porque não dá para trazer um civil morto de volta à vida.

vSpiegel: Mas e se os comandantes em terra não seguirem sua orientação?

McChrystal: Eu não tive a experiência de comandantes que não seguem a orientação. O que encontrei é que, em qualquer grande organização, as pessoas interpretam as diretrizes e intenções de modo diferente. Mas enquanto eu estiver no comando aqui, eu defenderei essas mesmas posições, constantemente.

vSpiegel: Mais de 2 mil civis morreram no ano passado no Afeganistão, o número mais alto desde 2001. Um terço deles foi morto por soldados da coalizão ocidental ou pelas forças de segurança afegãs. Por que a morte de civis não pode ser evitada?

McChrystal: Dois terços das mortes são causadas pelo inimigo que, teoricamente, está tentando libertar partes do povo afegão. Na verdade, o que está fazendo, é matar o povo afegão. Além disso, lembre-se que é um ambiente complexo, extremamente difícil. Você posiciona jovens soldados em pequenos números, você os coloca com homens-bomba e com dispositivos explosivos improvisados à volta deles -é difícil e erros serão cometidos. Mas lutaremos arduamente para reduzi-los. Zero é a meta.

Spiegel: Como diretor das operações das Forças Especiais americanas no Afeganistão e no Iraque, o senhor matou o líder da Al Qaeda no Iraque, Abu Musab al Zarqawi, e encontrou o ditador Saddam Hussein. Que efeito teria se Osama Bin Laden ou o mulá Omar fossem mortos por uma aeronave não-tripulada Predator amanhã?

McChrystal:
Eu acho que os líderes da insurreição, como o mulá Omar e Osama Bin Laden, precisam ser levados à Justiça. Você torce para que sejam capturados vivos, mas eles poderiam ser mortos. Isso não garantiria um sucesso imediato. No Iraque, mesmo após a morte de Abu Musab al Zarqawi, ainda foi preciso um esforço significativo para concluí-lo. Mas o que nós precisamos fazer é ir atrás dos líderes inimigos seriamente dedicados e precisamos retirá-los de circulação -capturar ou matar. Ao mesmo tempo, precisamos promover boas medidas de contrainsurreição e oferecer aos combatentes uma chance de se reintegrarem ao governo.

vSpiegel: Qual foi a chave para localizar Al Zarqawi e Saddam Hussein naquela época? E o que podemos aprender com isso em relação a Osama Bin Laden que, após oito anos, ainda não foi pego?

McChrystal: Operações como essas são muito semelhantes ao trabalho policial. É inteligência, análise muito, muito boa e, no final, persistência. Alguém como Osama Bin Laden sente claramente que se aparecer ele provavelmente será preso ou morto. Logo, a simples caçada tem um certo efeito positivo. Como você se recorda, nós encontramos Saddam Hussein em um buraco no chão. Ele não estava liderando uma resistência daquele buraco.

Spiegel: Todo mundo está falando no momento sobre a negociação com o Taleban. Como seria um programa eficaz de reconciliação?

McChrystal:
A reconciliação envolveria conversações de alto nível entre a liderança da organização insurgente e o governo do Afeganistão. A reintegração seria de combatentes individuais ou de grupos de combatentes, não de todo o Taleban, que decidissem voltar ao governo, à sociedade afegã em construção no Afeganistão. O governo afegão está trabalhando arduamente em uma política para isto e vai apresentá-la em breve. Nós estamos preparados para apoiá-lo, porque acho que sentimos que nas fileiras do Taleban há um número tremendo de combatentes e comandantes que gostariam de voltar. Nós precisamos apenas elaborar o tipo de programa que apoie isso.

'Nós não somos vistos como ocupadores'

Spiegel: O que seria necessário para essas pessoas trocarem de lado?

McChrystal:
Eu acho que elas precisam acima de tudo de proteção. Proteção do Taleban, proteção para suas famílias e uma oportunidade para voltarem à aldeia de onde vieram e uma oportunidade para ganharem a vida de novo, reingressarem na força de trabalho de sua sociedade. Elas também precisam de respeito. É importante que não se sintam envergonhadas ao fazerem isso, porque estão tomando uma decisão honrada.

Spiegel: O Paquistão apoiaria uma solução que lhe garantisse pelo menos certa influência no sul do Afeganistão?

McChrystal:
Apesar de todo país seguir seus interesses nacionais, há objetivos estratégicos compartilhados entre o governo do Afeganistão, o governo do Paquistão e a coalizão. Eles estão mais estreitos hoje do que no passado. Ainda há questões muito difíceis, é claro, e não as minimizaria. Mas no final do dia, as pessoas são racionais e fico otimista de podermos encontrar soluções juntos, que no final serão muito mais duráveis e eficazes do que soluções separadas.

Spiegel: O Afeganistão é famosamente conhecido como "cemitério de impérios". Alexandre, o Grande, fracassou no século 4 a.C, os britânicos no século 19 e os soviéticos há apenas 20 anos. Todos eles perderam seu status como potência mundial pouco depois. Por que o senhor acha que será bem-sucedido?

McChrystal:
Bem, eu não serei bem-sucedido, o governo do Afeganistão é que será e essa é a diferença essencial. Aqui pode ser o cemitério de impérios, mas não há um império aqui, há uma coalizão de 44 países. E uma coalizão de 44 países nunca tentará ocupar um país e essa é a grande diferença. Por isso nós não somos vistos como ocupadores. É por isso que as pessoas não se ergueram como os mujahedeen fizeram contra os soviéticos.

Spiegel: Quão grande é o risco de fracasso?

McChrystal:
Sempre há o risco de fracasso e ele provavelmente viria de um entendimento insuficiente do problema, do não reconhecimento do problema e, consequentemente, da não elaboração das soluções apropriadas.

Spiegel: O que é exigido do lado civil para a mudança da maré no Afeganistão?

McChrystal:
Quando falamos de civis se erguendo nós nunca devemos comparar números de pessoas. O que é preciso é de perícia: peritos em agricultura, em economia, engenharia, engenharia de águas. É preciso pessoas que cheguem e sejam capacitadas na identificação do problema e em trabalhar com seus pares afegãos. Não se deseja uma enxurrada de pessoas -é preciso apenas o suficiente para ajudar os afegãos a fazerem eles mesmos.

Spiegel: A região do Afeganistão e do Paquistão não é o único lugar onde terroristas e extremistas usam o território sem lei como refúgio. Há muitos outros, como o Iêmen, o Sudão e a Somália. As tropas ocidentais também deveriam ir a todos esses lugares e travar guerras?

McChrystal:
O que derrota o terrorismo é realmente duas coisas. A regra da lei e oportunidades para as pessoas. Se você tem uma governança que permita a regra da lei, você tem um ambiente em que é difícil praticar o terrorismo. E se você tem oportunidades para as pessoas na vida, que inclua educação, a chance de ter um emprego, então você tira a maior causa do terrorismo. Logo, a forma de derrotar o terrorismo não é com ataques militares, é perseguindo as condições básicas.

Spiegel: O apoio à missão no Afeganistão está evaporando na Europa e nos Estados Unidos. Os canadenses e holandeses serão os próximos a se retirarem. Os alemães estão relutantes em aumentar suas tropas. O que o senhor precisa e o que o senhor espera de seus aliados, especialmente dos alemães?

McChrystal:
Não é o número de soldados, não são capacidades específicas -é a disposição de fazer parte de uma equipe e nos adaptarmos à missão. Uma boa parceria é a chave. Cada um dos 44 países traz capacidades diferentes, forças diferentes. O povo afegão pode senti-la, eles extraem força dela. E o inimigo também pode senti-la.

Spiegel: O próprio presidente Obama anunciou que os Estados Unidos começarão a retirar suas tropas a partir de 2011.

McChrystal:
No meu entender, ele não sinalizou uma falta de compromisso ou falta de determinação em relação ao Afeganistão. Na verdade, ele sinalizou uma forte determinação. Ele disse que oferecemos ao povo afegão uma parceria estratégica. Ao fornecermos uma ponte de curto prazo com forças adicionais, o que acontecerá é que a exigência de todas as forças da coalizão diminuirá com o tempo. Em algum ponto será uma parceria estratégica de longo prazo, que envolverá menos assistência militar e mais assistência civil.

Spiegel: General McChrystal, nós agradecemos pela entrevista.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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