Política econômica de Pequim balança o barco global

Wieland Wagner

Visando estimular sua economia, Pequim reatrelou sua moeda ao dólar. Ao fazê-lo, entretanto, os chineses não apenas aumentaram os desequilíbrios econômicos globais, mas no final podem prejudicar a própria China.

Foi há pouco mais de um ano que Huang Fajing, 55 anos, lutava para manter sua empresa à tona. Como presidente da fábrica de isqueiros Wenzhou Rifeng Lighters Company, Huang foi forçado a mandar seus cerca de 500 funcionários de volta para casa em consequência da crise econômica global. Ele mesmo tinha pouco o que fazer, exceto assistir televisão em seu apartamento de luxo na cidade industrial chinesa de Wenzhou, no leste.

Agora, um ano depois, os negócios voltaram com tudo nas fábricas em Wenzhou, que fornecem ao mundo bens baratos, de botões e cabos elétricos até, é claro, isqueiros. Na Rifeng, trabalhadores usando uniformes cinzas pressionam minúsculas peças de metal no corpo dos isqueiros, que então são vendidos aos fumantes na Europa, Estados Unidos e Japão.

Dada sua pequena margem de lucro de não mais que 5%, Huang ajustou cuidadosamente o trabalho realizado pelos homens e mulheres jovens em sua fábrica, para eliminar movimentos desnecessários. Mas o fato dele ter sobrevivido à crise se deve em grande parte graças ao seu governo -e a decisão, em meados de 2008, de novamente atrelar a taxa de câmbio do yuan ao dólar americano.

A muleta
Pequim usa esta política para assegurar que as fábricas do país possam continuar exportando seus produtos a preços cada vez mais baratos. Como o valor do dólar caiu acentuadamente, o yuan caiu juntamente com ele, perdendo até 17% de seu valor frente ao euro em 2009. Ao mesmo tempo, esta taxa cambial artificialmente baixa serve como uma muleta que permite ao governo chinês proteger muitas de suas empresas exportadoras contra a falência. É o único motivo para as exportações terem caído apenas 1,2% em novembro de 2009, em relação ao mesmo mês no ano anterior, permitindo à China ultrapassar a Alemanha como maior economia exportadora do mundo.

Muitos no Ocidente veem a potência econômica ascendente como um enorme motor de crescimento que está ajudando a retirar o restante do mundo da crise. O governo em Pequim reanimou a economia doméstica com um gigantesco pacote de estímulo econômico no valor de 4 trilhões de yuans, ou cerca de US$ 580 bilhões, que levou a investimentos em estradas, ferrovias e construção de aeroportos por todo o país. Generosos incentivos fiscais para estimular o consumo, particularmente de itens caros como carros, também fizeram parte do pacote.

Mas a China, com sua enorme economia exportadora, na verdade aumentou os desequilíbrios globais com sua estratégia cambial agressiva -o mesmo tipo de desequilíbrios que foram parcialmente responsáveis pela mais recente crise financeira e, consequentemente, deveriam ser corrigidos.

A China também corre o risco de provocar novos conflitos comerciais a longo prazo, particularmente com seus vizinhos. Desde o início da crise econômica, a China tem desviado algumas de suas exportações para os países vizinhos e menos para a Europa e Estados Unidos, onde as vendas caíram.

Série de queixas de dumping
Alguns de seus vizinhos já adotaram medidas defensivas. O Vietnã desvalorizou recentemente sua moeda, o dong, em 5%, tornando as importações mais caras e protegendo a indústria doméstica da enxurrada de bens chineses. A Índia deu entrada a uma série de queixas de dumping na Organização Mundial do Comércio (OMC), incluindo uma envolvendo papel importado barato da China. E a Indonésia tem buscado se proteger dos pregos baratos chineses impondo sobretaxas protetoras.

As empresas ocidentais, por outro lado, estão ainda relativamente despreocupadas com a política cambial de Pequim -por um bom motivo. Os fabricantes que produzem calçados, furadeiras ou computadores baratos na China, para venda em seus mercados domésticos, não têm motivos para se queixar. E muitas empresas alemãs, particularmente os fabricantes de máquinas, ainda podem vender seus produtos no reino do yuan barato, porque seus clientes chineses estão sempre dispostos a pagar preços mais altos pela qualidade alemã.

Todavia, há uma crescente oposição na Europa e nos Estados Unidos a uma política onde a China tenta exportar o preço de sua saúde econômica, basicamente às custas do restante do mundo. Por todo o país, as autoridades provinciais chinesas buscam expandir as fábricas estatais locais e construir novas. A indústria de aço sozinha aumentou sua capacidade em cerca de um terço no espaço de apenas dois anos.

Tarifas sobre os pneus chineses
Como resultado, o mundo deve se preparar para uma nova onda de bens chineses baratos. "Infelizmente, nós veremos muitas queixas de dumping contra a China na segunda metade de 2010", prevê Jörg Wuttke, presidente da Câmara de Comércio da União Europeia em Pequim.

No final de dezembro, a UE impôs uma tarifa antidumping de 64,3% sobre os cabos metálicos chineses usados na indústria automotiva, e os Estados Unidos provavelmente se protegerão impondo novas tarifas sobre os pneus e canos de aço baratos chineses. Pequim ameaça retaliar, impondo tarifas simbólicas sobre o frango e carros americanos.

Ironicamente, a China, com sua política de manter o yuan artificialmente desvalorizado, no final prejudicará mais a si mesma do que aos outros -semelhante a um drogado à procura desesperadamente de mais drogas. Para manter o yuan baixo, o banco central chinês precisa comprar dólares constantemente. Em consequência, o país reuniu as maiores reservas de moeda estrangeira do mundo, no valor de US$ 2,3 trilhões. A China investe cerca de dois terços de suas reservas em moeda americana, principalmente em títulos do Tesouro americano. Mas com desvalorização do dólar, o valor de seu investimento é igualmente desvalorizado.

A China, entretanto, tem até o momento se recusado a entrar no debate sobre sua dependência econômica crônica de taxas cambiais manipuladas. Em um encontro com representantes da UE em Nanjing, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, considerou "injusto" o pedido feito de forma educada para que reduzisse o valor de sua moeda frente ao dólar para conter a enxurrada de exportações. Até mesmo o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante sua recente visita à China, relutou em ser duro ao tratar de um assunto politicamente tabu.

Exploração indefinida
O assunto parece ter se tornado um embaraço para os líderes de Pequim, particularmente dada sua meta declarada de equilibrar as contas correntes da China com as de outros países até o final de 2010.

Essa meta foi trabalho de homens como Yu Yongding, 61. Um ex-consultor do banco central chinês, Yu agora possui uma sala no 15º andar da Academia de Ciências Sociais em Pequim, um centro de estudos respeitado do governo. Após ser um importante visionário para a potência mundial, Yu agora se vê tendo que defender a obra de sua vida.

Ele celebrou seu maior triunfo em 21 de julho de 2005, quando o Banco Popular da China, como é chamado o banco central chinês, valorizou ligeiramente o yuan frente ao dólar, removendo simultaneamente a atrelação da moeda ao dólar. Dali em diante, em vez de firmemente atrelado ao dólar, o yuan flutuaria dentro de parâmetros fixados contra uma cesta composta por várias moedas diferentes.

Isso levou a uma valorização de 22% do yuan frente ao dólar até novembro de 2008. Reformistas como Yu, imaginando que a China estava à beira de se libertar da dependência da indústria de baixa remuneração, celebravam a correção de curso como um início simbólico. Eles também acreditavam que um yuan mais valorizado reduziria o custo dos importados para a China, estimularia o consumo privado e permitiria à República Popular ingressar nas fileiras dos países de alta tecnologia a longo prazo. "Nós não podemos permitir que os Estados Unidos nos explorem indefinidamente como um país de baixa remuneração", diz Yu.

A bolha poderia estourar
Durante a crise global, entretanto, os reformistas logo se viram na defensiva. Um desses reformistas é Zhou Xiaochuan, o presidente do banco central. Zhou estabeleceu a taxa de câmbio do yuan, praticamente sob ordem do Gabinete, que visa fazer tudo o que puder para estimular as exportações e atingir sua meta de aumentar o produto interno bruto em 8%. As previsões iniciais indicam que o PIB chinês na verdade cresceu ainda mais em 2009 -em até 9%.

Mas com esse regime cambial rígido, Zhou também está alimentando uma enorme bolha econômica na China. Parte da moeda estrangeira que ele é forçado a continuamente retirar do mercado para sustentar o yuan é posteriormente reinjetada no ciclo monetário na forma de maior liquidez. Empréstimos a baixas taxas de juros por parte dos bancos chineses estão alimentando indiretamente uma enorme especulação em ações e imóveis.

Se os Estados Unidos aumentassem repentinamente as taxas de juros, a bolha poderia estourar. De fato, ao atrelar o yuan ao dólar, a China no final se torna dependente da política monetária americana. "Ninguém sabe quanto o dólar vai se desvalorizar", diz o economista Lin Jiang, da Universidade Sun Yat-Sen, em Guangzhou, "ou se os Estados Unidos encerrarão repentinamente sua política de alívio monetário".

Mas muitos de seus colegas chineses veem a atrelação ao dólar como um símbolo de soberania nacional, em vez de uma dependência de mau gosto. "Quanto mais o Ocidente pede à China para valorizar o yuan, menos o governo responderá", diz Yu, o ex-consultor do banco central.

Huang, o fabricante de isqueiros, está depositando suas esperanças na manutenção do yuan desvalorizado. "Se Pequim valorizar a moeda em mais de 1,5%, eu vou fechar as portas", ele diz.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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