"Ninguém sabe quantos podem estar sob os escombros", diz especialista alemão sobre o Haiti

Simone Utler

Especialista alemão no Haiti fala sobre o terremoto no Haiti

Ute Braun, da organização alemã de alívio humanitário Welthungerhilfe, falou ao Spiegel sobre os efeitos do terremoto no Haiti, da dificuldade de obtenção de números exatos e da importância da ajuda de longo prazo.

Um país devastado

  • Caio Guatelli/Folha Imagem

    Vista aérea da cidade de Porto Principe mostra região atingida por terremoto de 7 graus

Spiegel Online: Por que o terremoto atingiu o Haiti tão duramente?
Ute Braun:
Há anos o país é altamente instável, tanto em suas estruturas políticas quanto em sua infra-estrutura. Além disso, o Haiti importa 50% de seus alimentos, apesar de ser um país agrícola. A pobreza do Haiti se deve principalmente à alta densidade populacional e o fato de suas florestas terem sido desmatadas. Isso significa que as catástrofes ambientais que vêm atingindo o Haiti há anos, tais como enchentes e ciclones, têm um efeito particularmente devastador.

Spiegel Online: E a capital haitiana de Port-au-Prince, que foi arrasada pelo terremoto, é particularmente super-populosa.
Ute Braun:
Sim, acredita-se que 3 milhões de pessoas vivam em Port-au-Prince. Nos últimos anos, as pessoas deixaram o campo e se mudaram para a cidade. Contudo, a infra-estrutura urbana foi projetada para muito menos gente. O lugar está simplesmente cheio demais. O resultado é que as pessoas moram em encostas íngremes e cânions.

Spiegel Online: Isso significa que podemos esperar milhares de mortos como resultado do terremoto?
Ute Braun:
Será muito difícil ter um total confiável do número de vítimas. Os registros oficiais do número de habitantes são muito limitados. Mesmo antes do terremoto, ninguém sabia quantas pessoas moravam nos cânions que cortam a cidade. Portanto, não se sabe quantas pessoas podem estar sob os destroços.
  • Arte UOL

    Nome oficial: República do Haiti
    Capital: Porto Príncipe
    População: 9.035.536
    Idiomas: francês e francês crioulo
    Religião: católica, protestante,afro-americanas
    Etnias: negros (95%), mulatos e brancos (5%)
    IDH (Índice de Desenvolvimento Humano): 148º
    Tipo de governo: república presidencialista
    Divisão administrativa: o país é dividido em 10 departamentos



Spiegel Online: A situação política no Haiti também é instável. O terremoto pode gerar caos político?
Ute Braun:
Isso vai depender em parte da rapidez e da capacidade da resposta da comunidade internacional de ajudar as pessoas. Mas eu acho que todo mundo está muito consciente disso, e é por esta razão que estamos vendo uma reação tão rápida a este desastre.

Spiegel Online: Qual seria o pior cenário para o Haiti?
Ute Braun:
Pode acontecer que Port-au-Prince se torne totalmente incontrolável. É inteiramente possível que a cidade sofra com pilhagens e com a ausência da lei, em parte nascidas da necessidade. O que agrava os problemas do país é que não apenas o povo mais pobre foi atingido pelo terremoto, mas também as instituições políticas e grupos teoricamente responsáveis pela resposta ao desastre. Acho que isso será um grande choque para o povo haitiano.

Spiegel Online: Qual deve ser a prioridade para a resposta de emergência no Haiti?
Ute Braun:
É absolutamente essencial que a ajuda que já está sendo empregada em ampla escala continue no longo prazo. Os esforços humanitários não podem parar após quatro semanas, nem mesmo após quatro meses. Neste instante, é claro, a coisa mais importante é começar com o essencial para a sobrevivência. Depois, na próxima fase, passar para a reconstrução. Contudo é altamente importante oferecer esperança ao povo haitiano. Suas condições de vida devem melhorar gradualmente para assegurar que desastres futuros não tenham um impacto tão devastador quanto agora.

Tradução: Deborah Weinberg


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