O hotel da "Última Fronteira" da Romênia

Walter Mayr

Construindo um resort no meio das ruínas de um gulag

Um francês está construindo um resort para turistas endinheirados em meio às ruínas de um antigo gulag comunista na Romênia. Centenas de prisioneiros morreram nesta área esquecida às margens do Rio Danúbio. Agora, ela está sendo transformada em um abrigo para amantes da natureza.

Ainda não há tanta neve na terra e não há gelo no rio. Mesmo assim, as noites são glaciais em Periprava, uma aldeia remota e aparentemente esquecida no delta do Danúbio.

Periprava fica em um canto perdido do país, bem ao lado da antiga fronteira com a União Soviética. A cada dois dias, uma balsa cruza o rio do lado ucraniano, ultrapassando esqueletos enferrujados de navios, os domos em formato de cebola das igrejas ortodoxas e postos de observação abandonados. Periprava, a 30 km do ponto onde o ramo norte do Danúbio atinge o mar vermelho, é a última parada da balsa.
  • Imagem do hotel que está sendo erguido na Romênia no local onde centenas de prisioneiros militares foram mortes. Às margens do Rio Danúbio, o hotel está sendo transformado em um abrigo para endinheirados e amantes da natureza

A aldeia consiste de algumas dúzias de casas que parecem barracos feitos de lama seca com telhado de palha. As crianças brincando nas ruas são louras, de olhos azuis, descendentes dos chamados Antigos Crentes, que se dissociaram da Igreja Ortodoxa Russa e fugiram da perseguição pela Rússia Czarista há mais de 200 anos. A três quilômetros dos limites da vila, entre as paredes decrépitas do antigo campo de trabalho, está o hotel "Última Fronteira".

Um endereço temido na Romênia stalinista
O prédio tem aparência ordinária por fora, mas por dentro foi reformado para atender os padrões de um hotel quatro estrelas. Ele representa um novo início para este canto remoto da Romênia. A partir deste verão, ele pretende atrair pescadores esportivos, ornitólogos e turistas aventureiros do mundo todo, na esperança de revitalizar a região, que fica em um ambiente natural único. Contudo, os hóspedes terão que se habituar com a ideia de ficar em quartos que até 1977 abrigavam os escritórios do comando do Campo de Prisão e Trabalho Periprava.

"0830 Periprava" era um endereço temido entre prisioneiros políticos na Romênia stalinista do ditador Gheorghe Ghourghiu-Dej. Expostos a um calor escaldante e nuvens de mosquitos no verão e a ventos gelados no inverno, eles vegetavam aqui em dormitórios com paredes de tijolo aparente de 24 metros quadrados, com 160 homens cada. Eles passavam os dias cortando capim e construindo represas, comiam mingau e bebiam água do Danúbio.
  • DER SPIEGEL

    Sylvian Remetter, o francês que está construindo o novo resort na Romênia. Ele diz que as pessoas pagam para se divertir e apreciar a natureza, mesmo numa área com uma história tão pesada



Os fracos morriam de disenteria e os prisioneiros que não conseguiam cumprir a quota diária de oito trouxas de capim eram espancados a cassetetes até ficarem inconscientes. Mais de 100 corpos de mortos sem nome estão enterrados no cemitério da aldeia. Quarenta e dois prisioneiros morreram apenas durante o inverno de 1959/1960, exatamente há meio século.

Do antigo gulag há um caminho ao longo do Danúbio que cruza uma represa. Sylvain Remetter, da região francesa da Alsácia, mora no limite da aldeia. Quando foi parar ali, há sete anos, decidiu despertar Periprava de seu sono pós-comunista com um projeto para desenvolver um resort com os alojamentos do antigo gulag como cenário.

"As pessoas pagam para se divertir"
Remetter é um sujeito magro, de quase 50 anos, um playboy com jeito jovem e uma queda por roupas casuais caras. Em Periprava, uma aldeia de pescadores, ele destoa como um flamingo em meio às garças.

Remetter é prosaico quando fala sobre seu projeto turístico. Ele diz: "As pessoas pagam para se divertir". E agora há um pedaço de terra que promete diversão -no meio do delta, onde pelicanos se reúnem e as águas abrigam bagres de até dois metros. Infelizmente, por causa do excesso de pesca no Danúbio, os bagres gigantes serão proibidos aos hóspedes do Remetter, que terão que se satisfazer com carpas e lúcios criados em viveiros.

O primeiro turista chegou em outubro e encontrou as ruínas das instalações da prisão com capim até a cintura, cercadas de choupos brancos, tramazeiras e o piado constante de cucos cortando a quietude no lugar que já viu terrível sofrimento. Ele dormiu nos quartos que abrigavam oficiais da polícia secreta e andou de carro elétrico, atravessando postos de vigilância abandonados e as paredes de um cassino, onde cantores folk cantavam para os guardas do campo.
  • AP

    A área onde o hotel está sendo construída é uma das mais esquecidas do Delta do Danúbio, região menos povoada da Romênia

As ruínas do gulag são um museu a céu aberto do homicídio em massa dos comunistas romenos de seu próprio povo. Remetter, que conversou com o último comandante do campo, conhece a história e, assim que seu pedido por subsídios da União Europeia for aprovado, planeja construir um pequeno museu no local. Ele diz: "Os romenos não podem esquecer o que aconteceu aqui."

Contudo, a sensação de que pouco aqui vai mudar, ao menos por enquanto, e que Remetter não pretende construir "uma torre Eiffel ou um Arco do Triunfo" não resulta de qualquer reverência que tenha pelo local. O francês chegou ao fim de suas poupanças e seus sócios estão ficando impacientes, ansiosos para ver o "Última Fronteira" finalmente se tornar um abrigo de turistas.

Herdeiros políticos de Ceausescu
Íon Tiriac, ex-jogador de tênis e concorrente à Copa Davis nos anos 70, hoje é um magnata na nova Romênia. Ele já esteve duas vezes em Periprava para pescar com Remetter. O amigo de Tiriac Robert Raduta, conhecido como "tubarão do Delta", adquiriu uma grande parte dos direitos de pesca da região durante o governo do ex-primeiro-ministro Adrian Nastase. Remetter, que trabalhou para o "tubarão" no passado, recebeu uma pequena parcela do monopólio que as celebridades pós-comunistas pegaram para si.

Contudo, agora os herdeiros políticos do ex-ditador Nicolae Ceausescu não estão mais no poder na capital. As licenças foram canceladas e o povo romeno, que em geral é passivo, está se tornando cada vez mais resistente aos esquemas empresariais dos gatos gordos de Bucareste. Alguns criticaram duramente a venda do delta do Danúbio, que é considerado Herança Mundial pela Unesco. Porta-vozes da Associação de Prisioneiros Políticos, por outro lado, ficaram "irados" quando o prefeito pós-comunista da cidade de Constanta, no mar Negro, decidiu visitar o resort entre as ruínas do gulag de Periprava.

Até hoje, nada além de uma cruz branca sem inscrições marca a morte nos pântanos do Danúbio. As idosas que cuidam dos túmulos no cemitério da aldeia dizem que a cruz foi erguida precisamente no lugar onde os corpos foram enterrados.

Traduzido do alemão por Christopher Sultan e do inglês por Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos